sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A tragédia alheia


Encheu-me os olhos de água aquela história não sentida pelo meu coração.
Só ouvida. Eu não queria que aquele ser humano, com olhos de bicho ferido, tivesse passado por aquela dor. Só não queria...
Gente morreu na França porque ninguém consegue olhar o outro e respeitar as convicções alheias. Pessoas morrem todos os dias, internamente ou faticamente, porque a tolerância e os ouvidos do mundo andam empobrecidos. Todo mundo e cada um é "O grande ditador",mas só Hitler foi para o inferno.
Algumas pessoas só precisam falar. Outras,apenas ser.Que tem tu com a verdade do outro?
Terminei "O livro do desassossego" ontem pela madrugada e vi que nem o Pessoa queria muito ser Pessoa. Tanto que virou 'Pessoas'. Heterônimos. Para falar suas verdades, ele criou vários de si.O mundo já andava caótico.
Estamos indignados por Paris e a tragédia de Charlie. Não é para menos. 
Mas também estou indignada pela recessão do meu país que vai se agravar esse ano, com a nossa gente "honesta,boa e comovida" que vai trabalhar 2.600h esse ano para pagar por serviços que não vai usufruir dignamente. Pelo sistema político, por tentar ser cidadã dignamente em um local que desrespeita os seus. Por precisar haver tantos advogados e instrumentos para dar o que é de direito. Pela ausência de acesso da maioria, pelo dia que amanhece enquanto inúmeros do meu povo acordam sem o alimento e  esclarecimento.
Eu estou indignada porque vivemos de modismos torrenciais de tragédias, como se elas de fato, fossem fatos isolados do que,na verdade, têm sido a sequência lógica de uma comunidade mundial insana. Porque agora todo mundo é "Charlie", mas daqui a pouco todo mundo é outra coisa, e depois dessa outra coisa a gente esquece tudo!
Porque a violência não nasce e morre no Islamismo, mas em todos nós, em nosso país, que não combate nada de frente e enjoa dessa conversa de 'amar e mudar as coisas' pelo próximo evento, festa, momento.
Pelo mesmo motivo da tragédia de Paris? Todas são torpezas humanas, cada uma à sua maneira.
Quantas histórias, vidas, dores passam pelo teu dia sem que tu olhes de volta?
A tragédia alheia comove mais do que a nossa? Toda tragédia é parte de um pouco de nosso fracasso como humanidade.

Ainda quero acreditar que temos aquela chance que o poeta cantou. Mas

"Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá..."

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