terça-feira, 28 de abril de 2020

Ensaios sobre o encontro com o 'Eu'


Eu,

que sempre voei em mim
Que converso com planetas e madrugadas
E ganho vida pelas noites enluaradas
E rego plantas, enquanto sinto
Eu: organismo, bicho.

Ser vivo. Trancada. À pão. E à circo
Zoológico particular de algum alienígena entediado
E também acuada – pois aqui,
A carne viva está cativa,
 Nesse pequeno ensaio sobre amor e medo 

E não é nenhum segredo
Que chegaram tempos em que se cumprem as distopias
Livros de história deixam de ser distantes
Era nova, novos tempos: nova pandemia.

Como um recorte, uma mensagem
De que toda nossa vã tecnologia
Não nos afasta de ser carne
Bicho, organismo vivo
Força que emana efemeridade...

Eu, cativa.
Nós, plantas no aquário.
À espera de uma esperança
- Que se demora a vir do noticiário -

E nesse abecedário particular de dias (in)contados
Todo mundo (re)descobre mais claramente
Sua própria torpeza, beleza e poesia
Pois, longe do barulho que nos afasta do ‘interno’

Sobra apenas nós: 
 A mística do eu, o ‘estranho ao espelho’.

Eu,
Trancada.
Em meu reino:
hospício asséptico 
de álcool em gel , luvas
e água sanitária

#



terça-feira, 21 de abril de 2020

Se o mundo acabar amanhã


Se o mundo acabar amanhã
Tomara que eu tenha beijado tudo que poderia
E que toda a futura poesia
Saiba me perdoar, por partir

Tomara que haja um arco-íris no céu
e caia aquela chuva fina que deixa o cheiro da terra molhada invadir o espaço
e que cada beijo,elo ou laço
Esteja em seu melhor lugar...

Se o mundo acabar amanhã

Nesse hospício maluco de algum secreto Alienígena Alienista
Haja um show de Nando,
Um céu azul intenso
Ou um bonito sarau de poesia...

Sei lá, se o mundo acabar amanhã

Que o amor me perdoe por tudo que calei
E que reverencie as vezes que larguei o prumo e na chuva dancei
E todas as vezes que segui estrelas
Dia aceso ou plena madrugada

- Pois eu fui inteira, em cada passagem da estada...-

Eu sei, esse tão pouco tempo aqui
desde o big bang é quase nada
Mas, cá estamos, plenos de (in)significâncias
e é tão lindo viver...

Se o mundo acabar amanhã
Que possa esquecer tudo que foi lira não dita
Palavra riscada - poesia triste, esquecida
E que eu possa seguir para a próxima fase

Com um sorriso no lábio
E a certeza de que a vida se reinventa
Pois afinal, do caos secreto do espaço viemos
 somos arte do universo:

corpo em carne: poeira das estrelas!

(Mas, se o Mundo Acabar amanhã
Tomara que seja para renascer
Mais puro e mais pleno
Dentro de nós )



#

Ensaios sobre um dia que passa apenas pela Janela (Uma crônica-poema sobre um crônico problema)



Hoje estou farta.  Das flores do jardim,  dos livros já lidos, 
das séries, filmes  e noticiário da tv.  Cansei de me ser.
Farta desta janela, que me conta o dia e sua particular aquarela...


Hoje estou farta.  Do meu medo,  da minha fragilidade, 
da impotência e da importância
Sim, hoje, in fartei. 

Desassosseguei de sentir a existência.

Olhei para meus pés, senti saudade da grama. Colocar os pés na grama.
Ir à praça beira-rio reverenciar a maré...

Hoje chorei. Pessoas disseram adeus. Um adeus distante,
Longe das honras que só o amor é capaz de fazer...
Hoje tantos números, gente  que já virou semente
No jardim de (A)Deus...

Senti saudades de declamar um poema. 
Ser bicho, plena. Falta  de beber a vida,  entre taças de vinho e cafés da tarde.
Sim, tudo me faz falta, 
(porque sim, estou farta)

Mas,  desse sentimento,  dessa vontade de um algo a mais
Foi que revisitei o sentido da  palavra e senti-me bem.
Pois que, 'farta', significa estar '' em abundância''

E isso sim, é motivo de ser grata. Porque estou farta
Plena de abraços, pessoas, um coração cheio de amores
a quem abençoar e 'bem-dizer' o dia



E meus lábios não cansam de pedir à vida por tantas pessoas queridas...
(veja, eu guardo em meu corpo muitos corações!)

E porque naquilo que não posso fazer nada a mais
Do que doar meu coração e sentir junto
Ainda tenho um coração quente e macio
Que pode muito, muito mesmo
Dividir a dor e multiplicar afetos...

Em uma matemática particular que cura!

E pedir a Deus, A esse Deus bondoso que nos olha e nos guia
A gentileza de, apenas mais esse dia, fazer-me FARTA
Pois é por essa vida, por estes livros, por estas memórias, ruas e esquinas
é por ser gente, curiosa, desperta
por pulsar teorias e amar o dom da descoberta

e, também: Por ter gente que ainda quero abraçar.
Porque existem pessoas que amo 
Que precisam sair de seu lar.
é porque um universo muda e pulsa

Que posso repousar no instante!

reinventar uma canção, aprender a fazer pão, tomar café por videoconferência 
ser generosa e macia com um irmão...

é porque estou farta, absolutamente farta, que posso acolher meu coração em mim
E ser minha própria morada, por mais esse dia e pela vida
Que se recria e se cura

E logo... acontecerá.



#

Uma crônica-poema sobre um crônico problema que hoje nos assola e nos ensina mais sobre a humanidade lá fora e sobre a nossa humanidade, íntima - a única que podemos de fato aprimorar.

Muita LUZ e RESILIÊNCIA para todos nós!


terça-feira, 7 de abril de 2020

Ensaios sobre pequenos encontros com Deus



Deus é bondade
É o olho da Zoé depois de uma soneca macia
Ou, um conselho de minha irmã...

Deus é a cor infinita da roseira linda
Que dança neste dia de abril
Pois as flores de abril
gentilmente saúdam o equinócio das águas...

Deus é auxílio a quem precisa,
É nós em nosso mais santo ofício de ser gente
Pessoa, e nessa canoa,
não desistir de embarcar

Mesmo quando sob um bravo mar
For preciso encontrar repouso
Sobre o próprio pouso...

Deus não constrói edifícios e rituais
É aquele menino que ri, encantado
Para o Natal

Pois o presente de Deus
 é poder ver Jesus renascer
e a vida (re)acontecer
em cada criança que nasce...

Deus é o gesto, quando faz sua parte
Ação, quando vem da emoção
É pedaço de carne 
personificado no abraço do ser amado...

É enlace
Consolo, mar e remanso
Deus não é castigo, 
é descanso.


LUZ!

Tive a oportunidade de conviver com uma pessoa que, de falar tanto em Deus, falava mais em condenação que em perdão...e isso me levou a pensar no Deus risonho que me faz sonhar e ser a pessoa e a profissional que pede...por perdão...por misericórdia...por Justiça...

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ainda cabe


Ainda cabe um sonho
Bolhas de sabão na varanda
Se chover a gente dança
Pula, brinca, pela sala...

Ainda cabe um 'bom dia'
Um riso recheado de 'amanhã'
E as pequenas felicidade do agora
Pois, mesmo sob o mais duro concreto,

ainda nasce flor.

Ainda cabem boas notícias:
 um aniversário, gente feliz!
Porque a gente é aprendiz de um novo cotidiano
E entre perdas e ganhos

é preciso comemorar...

Nossos pequenos rituais: 
a oração matinal, a mesma fé
Para enfrentar as diárias notícias 
 abstrair e acompanhar a tábua da maré...

(Pra não esquecer de um lindo amazonas que dança
imperiosamente vivo, dentro da alma)

é preciso não esquecer de ser gente muito viva
de peito quente e alma calma
Ainda que em meio ao medo, pois o mais cruel isolamento
é o emocional

cantar uma canção do chico, ler um poema
De Alcinea, Fernando, Maria Ester
Ainda ontem reli o poema 'O louco', do Ivo
- Deveras, o meu favorito -

E senti aquela plena vontade de, 
assim como 'o louco', caminhar, por aí...
Mas, é preciso, ficar por aqui:
Aquietar e contemplar pela janela...

Pois a vida vem até nós,
 e para isso não é preciso pressa:
Aquele beija-flor na varanda
 Canta esse segredo a  cada manhã...

E na beleza esverdeada de sua asa
entendo o sentido real do apelo
'fique em casa'
é que ainda cabem um sonho feliz e louco

...e ele nascerá no amanhã.

#

LUZ!

Esta poeta sempre foi muito caseira. Mas, nunca mais, a expressão 'fique em casa' terá o mesmo sentido. Hoje acho água sanitária tão cheirosa! E tudo isso me diz, a cada instante, que estou - eu e os meus -  pelo menos um pouquinho, em segurança. Mas para isso acontecer, é preciso cada vez mais sermos 'reis/rainhas' de nossos lares. Porque já dizia o poeta, 'Disciplina é liberdade'.
Ainda cabem muitos sonhos no amanhã.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

36(0)!


Giro a roda do mundo
36(0)!
Em um calendário particular
Onde o tempo é esta ação: o agora!

Confesso: entre estar sã e estar louca
Prefiro a minha voz bem rouca
A pouca 'cera '
 e o forte coração...

Passeio pelos meus espaços
Flores, jardins, perfume, laços!
Ah! há tanto pra contar...
De lugares que minh´alma  pôde visitar...

Sim, até aqui
Viajo entre sonhos, jardins e poesia
bebo vinhos, e passo tempos
De papo em par com a filosofia...

E a minha alegria 
é que depois de tudo que já descobri
O mundo ainda é minha roda-gigante!
Aqui, a todo instante, gira uma delicadeza:

A asa de uma borboleta
O beija-flor manso que adotou o jardim
em um círculo sem fim,
há tanto a semear...

Danço com o mundo
Mas, em meu próprio ritmo e gingado
Ás vezes tão acelerada
Noutras, contemplativa

fico a admirar o tempo nublado...

E não  sei o que ainda virá 
A vida é tresloucadamente intensa
Sei que o pulso não para de pulsar!
E aqui, garanto: há amor e prosa para mais 36(0)!

#

LUZ!

Conversa com o arco-íris em fim de tarde




Hoje, pequenos desejos:
Menos desse medo 
Que me fere as mãos!
livre deste peso suave que viaja no ar
E fere a gente, secreto medo de respirar.

Esse medo que não pede ação:
Ao contrário, pede quietude,
Amiúde,
Tento acomodar.

Hoje, pequenos desejos:

Que as crianças voltem a ter medo só de bicho papão
Que eu possa sentar na varanda e declamar poemas 
E apenas deitar em minha rede, sabendo que os que me são caros
Seguem, seguros, pois cada um, é tão especial e raro...

Que a próxima prece  seja lá na beira rio
Depois que o mundo for, de um de seus demônios, curado
E que no próximo abril, esteja em meio ao luar, por onde for:
‘o devo em v, cabelo ao vento, amor e flor’

E este presente que deixa o lábio amargo
seja passado esquecido, riscado
E este medo seja tão logo sarado
- Tal qual  um pesadelo nos tempos de menina!

E o arco-íris, em pleno fim de tarde
Chega e relembra, coloridamente (Colorindo a mente)!
Que o sol  que agora está lá do outro lado, 
é estrela incandescente -  renasce!

Depois de um tempo nublado...


*Existem alguns estudos que têm avaliado a influência de fenômenos climáticos como chuva e sol, na transmissão do vírus corona. Por isso eu, que sou tão de tempo nublado, olho para o sol pela manhã e penso: Dracarys! ...para logo depois agradecer a chuvinha que cai, em tempos de abril, nos fins de tarde.

Poema é Cristal




Poema é cristal
Reflexo de beleza no mundo
Álbum de recordações da ternura
É cura!...é cura!

Palavra é bênção
Escorre entre as mãos
Cai nas veias da emoção
e vai...espalhar flores sentimentais...

Fora disso, tudo é borragem
Poeira do cotidiano
Polidos 'bons dias' cinzas
elo que não concretiza
e se perde do gesto...

Palavra é cristal
Sonhos de algodão em nuvens de afeto
é fome de abraço, calor e de vida
de amor que sai de si

e entra, desvenda o mundo do outro...

É ressonância que espalha fé
Dentro de um tempo que liquidificou
e transformou a poesia do tempo
em cálice que desperdiçou

É ato, força da emoção!
Cor que se corporifica em ação!
Encontro do silêncio com o som!
Ah! poema é  bênção.

#

Para Edilene, que inspirou o poema com suas palavras e parece entender meu mundo sem que eu precise explicar, e que coloca as cores de sua emoção de cristal dentro do meu Universo, quando conversamos sobre a poesia da vida. 
Da conversa que tivemos, minha amiga, porque sim, a palavra, em suas muitas formas, é o meu cristal. É nosso. Mas o amor - corporificado no poema - é bênção. Que bom compartilhá-lo contigo.

Quando eu crescer, eu é quem quero ser igual a ti.  <3
*Republicado. :)

segunda-feira, 30 de março de 2020

Poesia Cíclica


A gente se despede enquanto o dia nasce
Do ontem, que passou
viver é inadvertidamente entender que o tempo passa:
A vida é breve, o instante é leve
Como cada emoção...

(Pulsa,coração,
Aguenta)

É maré lançante e o vento passa, lento e forte
sob as flores do jardim
E sob a minha asa/casa
Vejo o mundo que plantei para mim...

Aqui, tudo é regado a fé
e também à amorosa paixão - pessoas, gestos, poesia
Expressa em cada linha, pois a minha missão
é transformar o mundo em pequenos gestos
(Alucinadamente ver a beleza do dia-a-dia)

Que, por tantas vezes é inexplicável
Pois é preciso sutileza 
para tocar o inexorável
 ah! Belchior entenderia

E as sementes que plantei verão passado
Hoje são flores, dançando ao sabor da brisa
E este é um ciclo sem fim
E ainda há tantas sementes a ver nascer 

Sobre mim.

E este dia se foi também...
(Outro renasce, amanhã)
Recomeço, com ele, a cada dia
E a minha alegria

é que ainda existirão
Muitos outros risos, sonhos e poesia.

#
Para todos os sonhos que todos os dias nascem conosco
Para as sementes que plantamos, as flores que regamos...
Para tudo que somos e seremos, poesia cíclica. :)

quarta-feira, 25 de março de 2020

Amor em tempos de Corona


As mãos que enlaçam 
São as mesmas que remam 
Vento contra ou a favor
Amor é isso: troca voluntária de afeto
Tempo bom ou ruim, auxílio certo.



Mãos que levantam e ajudam
Pois chegou o tempo do absurdo
A realista visão surreal dos filmes de ficção
Terror mundial, vírus, o dia a dia: Alucinação.



...E o pulso, já disse o poeta, ainda pulsa...





Ainda é de fogo, no peito, o calor da emoção
É preciso coragem para suportar o verso
Pois amor não é substantivo:
É verbo pleno, livre, em ação.



É tempo em que amar é estar longe
Sofrer de lonjura...e lutar para um dia rever
Pois, o sonho de ontem ainda alcança, aquece
E aquele botão ainda quer florescer.



Por isso, que a minha mão guarde lembrança
Das mãos, dos beijos e dos laços
E que cada gesto meu seja para proteger 
Quem quero que caiba -  - ainda que na próxima estação-
Bem dentro de um forte abraço.