quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Eterno Retorno



Desde que acordei
Já deixei pra trás tanta coisa!
Meu sonho esquecido da noite anterior,
A beleza da lua passada,
E até um belo par de asas…

É que o tempo cria demônios
Redemoinhos e tufões
E leva embora tudo que somos – efemeridade
Para trazer, com o mo do mundo,
Novas partículas de segundo.

Por isso, adeus, adeus!
Mas é sempre até breve…
Pois na curva do arco-íris
O amor (mágica infinita)
Em si, repete.

O vento que fez a curva,
Girou a roda do universo
voltou no dobrar da esquina,
arejou certezas,
e hoje dança com as cortinas…

#

Somos Luz e ação que câmeras não alcançam.
Existir é mesmo muito raro.
<3

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Cinza!



O dia está cinza lá fora e, só por isso, meu coração sorri.
Meu coração é dado às pequenas afeições: a manteiga derretida no bolo, a fumaça do café ou do incenso, cheirinho de livro, o manto cinza que recai sobre as cores, em dias nublados.
Pode dar de chover, pode não.
Meu coração não pergunta da chuva que horas ela vem. Nem se vem. Basta-lhe o cinza do céu. Depois desse céu cinza, que uma coruja negra acabou que riscar, eu sei que tem o universo. E multiversos. E vida, colorida, explodindo, para que eu,você e tudo que nos rodeia exista, reexista, e se reinvente, pelas mãos do artista.
É, ele é o primeiro artista que já existiu: Deus ama a poesia, explode estrelas e depois modela tudo. Faz novamente, depois. É mesmo um artesão incrível.
Há um beija-flor  que sentou para beber água com açúcar aqui na minha janela: é gordo e manso, porque o cativei e tratei com religiosidade sua fome e sede, senta-se porque sua estrutura mudou e já confia em minha natureza de bicho inofensivo.
Faz um silêncio enorme na rua, tudo está cinza e ouço o barulho do teclado, enquanto arrisco essa quase-crônica, que é só um arremedo do dia que inicia.
Já deveria ter cansado de escrever sobre o cinza. 
Mas eles nunca são iguais, só para agraciar o meu coração de poeta. 

#

Publicado em 18.01.2016 e revisitado agora, que os dias cinzas de dezembro se prenunciam...

Todo dezembro chove em Macapá


Todo dezembro chove em Macapá
Mas as águas sempre caem diferente 
Dentro da gente...

Tem vezes que a maré 
Se ajunta à sinfonia da chuva
E o peito fica cheio da canção da água...

Havia um tempo que a gente corria pela rua 
sonhar era fácil
E a gente soltava barcos de  papel
só pra ver os pequenos riachos levarem 

A beleza simples da vida escorria pelos olhos...

A noite chegava cedo 
E a gente podia vencer o medo
do assobio do vento 
Das chuvas de meia noite...

Agora, o tempo fechou…
Mas quem sabe amanhã sorri
E nas asas de um bem-te-vi
Caiam águas coloridas por um arco-íris...

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lições da Infância



Quando criança,
sob as calçadas encardidas da Salvador Diniz
Aprendi que o céu era o limite!
E que o mapa encantado até a chegada existia
Ao fim dos pulinhos da amarelinha,
Desafio nosso de cada dia…

Oceano era a lagoa do quintal do meu avô
O tesouro, sempre ao fim do arco-íris
Os dragões eram vencidos por príncipes
E éramos grandes navegadores a navegar
E tudo parecia ter o seu lugar…

Passadas décadas, ruas e avenidas
Desaprendi esquinas
Pois a máquina de engolir vida
Apagou as linhas finas
Que apontavam por onde caminhar…

Agora, sigo desalinhada
Sei pouco sobre certezas e  chegadas
Canso de ouvir  – e escrever –
 as mesmas palavras
e não sei onde dobrar…

Queria ter outra tarde
Daquelas mornas e empoeiradas de infância
Brincar de correr para todo lado
E ao fim do dia  correr para o colo encantado
Dos olhos de mel da minha irmã…

Mas a máquina de engolir vida
Segue a comer lembranças
E aquela esperança vive
Da luz que existe na memória
Daquelas velhas histórias
Repetidas antes de sonhar! …


#

Que  gente sempre encontre o fim da amarelinha,
E que a caminhada seja boa. :)

LUZ!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Caminhada





Caminho pelo mundo
E, entre verbos e rimas,
Vivo de parir emoções:
Respiro o caos de um coração enternurado!

Perdi-me dos roteiros
Desenhei à mãos sorrisos
Em dias de chuva
Vida em versos livres e laços guardados…

Acho que não sei quem sou,
Mas desaprendi de ser quem era,
Estou mais em paz com o caos
De ser essa coisa bruta: 
Caos de poesia,pedra,poeira...

E, em meio a cortina fina da normalidade…
Dizem que  sou doida:
 -Termo de Confissão: 
é verdade! -

Sinto saudade
Sinto paz, frio e calor!
Mas gosto mesmo é de ser  rima solta
Estar e ir aonde o amor for…

#

Que o amor, como todos aqueles livros lindos que li,
Seja algo que sempre nos leve pra casa.
:)

LUZ!

Rio!



O que será que é o amor?
Quantas milhões de coisas ele ainda virá a ser?
Quem um dia poderá, ainda que breve
Explicar, ponderar, compreender?

Sei que é toque, canção, cheiro, emoção  (alucinada!)
Sei que é dia a dia, mão na mão
Segurar o coração,
Seguir em par pela estrada…

É perda, suor e ganho
Inocência, saliva  e ilusão
Mas é que é também o possível
Depois de encontrar com a razão…

É deixar de abrir páginas encantadas
Para estar na pele amada
ter absoluto medo e ainda assim, 
aceitar-se desassossegada…

Mas eis que não sei mais do amor 
do que aquilo já alcancei.
Sempre à procura de seu infinito!
Feito chuva, molha a alma, invade a pele, 

Doce rio de mistério…#

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Elixir Paregórico (Ensaios sobre a dor)


Uma das lembranças mais doces de ser criança de uma cidade do interior do norte é a alegria e o contato íntimo com a natureza e a sabedoria mística que envolve as coisas da floresta.

Coisas como Chá de Cidreira para cólica e sono de criança, erva doce e hortelã para digestão, mastruz para vermes, enfim…tantas ervas e raízes! Tive mais contato com este tipo de remédio do que com fármacos, propriamente. Conto isso com grande alegria e pretendo que, se Deus permitir, transmitir esta sabedoria de avós a netos, vida afora.

Outro remédio que minha mãe costumava dar era um líquido profundamente adocicado, enjoativo, para tudo que era doença ou male: caiu, ralou o joelho? santo elixir misterioso em ação. Dor de cabeça para não ir para a escola? dor de barriga sem febre? santo elixir! Muitos anos depois, soube que era água com açúcar. Ao que parece, muitas vezes, fui curada através da medicina mais profunda que uma criança pode receber: palavra de mãe de que a dor vai passar.
Meu pai, por outro lado, era cheio de frascos diferentes, do tipo que raramente vemos hoje. Como por exemplo, o ‘delicioso’ elixir paregórico, 40 gotas que curavam TUDO que uma criança ou adolescente pudessem contrair. Isso trouxe a lembrança de que Rubem Alves, uma das minhas grandes referências literárias nacionais, escreveu sobre memórias e remédios de infância em uma crônica (do qual esta provavelmente é filha tímida), que fala da saudade do gosto ruim do Elixir de Nogueira, remédio que tinha gosto de peixe e do qual tanto sentiu falta. Rubem ainda rememora que a expressão elixir é de etimologia árabe, interligada ao conceito de Alquimia...

E a expressão ‘panos quentes’? aprendi depois de adulta para que servem (Ufa!). Aliás, sobre a dor, minha so(l)brinha, tinha receios diferentes dos meus. Ela não temia o instante, mas sim o medo de não sarar.  Chorava pedindo para ‘tirarmos’ o dodói dela…ah! Quem nos dera se Deus nos tivesse dado o santo poder de sermos heróis de nossas crianças…
Infelizmente ou felizmente, o tempo nos alcança e quanto mais corremos, mais ele passa. Hoje há comprimidos para solidão, tristeza, insônia, coração partido. Farmácias crescem e se tornam cada vez mais essenciais à rotina das cidades.  Longe de fazer crítica aos estudos e evolução da humanidade, tão essenciais à melhoria da qualidade de vida, mas confesso que sinto saudades da sabedoria simples que a tudo curava.
Confesso que ainda tomo chás, alguns do jardim, alguns de espera (ah! paciência!), outros de sabedoria,  paz…outros em sachê, quando a pressa não deixa ir à feira maluca sentir a delícia das ervas frescas...

É que mora em mim a mágica daquele elixir adocicado e das 40 gotinhas que curavam qualquer dor, de caber dentro do colo dos meus, num abraço apertado que ainda garante,  dentro do meu peito, que para meu grande alívio, tudo, qualquer dor … vai passar!


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Bicho Incomum



Depois do depois de borrar o batom,
De esquecer  as chaves e a  hora
E ter os olhos molhados de Drummond,
Perdi a condução, a rima e a razão.

Aliás, Senhor, confesso:
 não sei muito da elegância de um verso.

Brinco de recriar a narrativa do cotidiano
Com as palavras vadias do Jornal
Um noticiário particular fantástico!
Onde finais felizes - no esforço do contrário

não são lá  mui raros…

Sonho demais.
Acredito na efemeridade dos milagres
Vivo o hoje, mas sei olhar para trás
Com o coração enternecido da paisagem…

Bicho incomum, depois de ler um ou dois Garcias
Dei de olhar a mística do Universo!
Não comovo com o ordinário
vivo entre as estrelas e a mágica infinita

Dos excessos.

 #


·    
LUZ!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Divagações de fim de tarde e um café. ( Filosofia do Boteco da Lua)



O carro da esquina buzina, o  relógio ecoa um monótono tique-taque. Da janela embaçada do café, vejo cair um morno fim de tarde. Hoje, 21.11.2017, mulher ao espelho: Caucasiana, 1.59, cabelos avermelhados. Na bolsa, C.I e outros dados.  A este conjunto de pequenas afirmações materiais, entre slogans e dados, chamam de identidade.

Confesso, isso sempre me inquietou. Recordei agora, meio que por instinto, do filme “O sorriso de Mona Lisa’’, que tinha como personagem principal uma professora, interpretada por Julia Roberts.  A primeira coisa que chamou-me ao filme, foi o título: o tão estudado, metrificado e explicado, ainda assim misterioso, riso de Mona Lisa. Em um dado momento, após uma divagação, a personagem diz: ‘ olhe para ela. Ela parece feliz? Ela não está feliz’.

A primeira vez que refleti sobre a frase, imaginei o triste óbvio da informação. De fato, Mona Lisa não parecia tão feliz. Sob a luz diáfana, seus olhos não riem. Mas, com o passar dos anos, percebi que… talvez ria sim. Quem sabe cabe a cada um de nós o riso ou a tristeza que atribuímos à moça. Monalisa mesmo, a pessoa que emprestou sua estética para o pintor, terá sempre o mistério e a bênção de ser própria.

Quanto a mim,  é bem verdade que não sei exatamente  quem sou, pois ser Pessoa, bem

sabia Fernando, é ser muitos em um. Sei que em mim  mora a menina que  costumava sentar no colo dos pais e brincar na rua de terra batida com os primos. Há a adolescente que lia e devorava de folhetins adolescentes, do tipo Sabrina a  Kafka, Dostoiévski e Rubem Alves, entre tantos outros, que fizeram comigo a travessia para a fase adulta.


Que aprecia abraços, recebe com alegria tudo que é diferente, apesar dos dias, que caem iguais, e  destas ‘pessoas  cinzas, normais’, que passam, assinam o ponto, vendem a alma com desconto e fingem ser gente… enquanto isso, a tarde vai.

E o que eu era de manhã já não sou mais, nada acompanha a estética do momento, que é mais sutil e voraz que toda a ótica do tempo. Simbolicamente, em mim, carrego esta multidão. Deve ser por isso a referência bíblica a demônios: temos todos os nossos, o fogo de ‘se ser’.

E talvez por isso a modernidade, nosso acelerado, a quebra das convicções mais singelas, as distopias, tantas produções cinematográficas de super-heróis: para salvar e sermos salvos. Mas, de repente, algo delicioso aparece no roteiro alucinado desta epifania e,  na simplicidade minha multidão silencia e cai em ‘nós’… um café e a breve satisfação, sensação cheirosa e quente de ser inundada, preenchida. Sei que o apelo parece quase sexual. Aliás, já li algo a respeito em Rubem Alves sobre esta interligação de prazeres, que ‘ ao outro lado’, chamamos ‘comer’.


Sei que não é fácil rimar tantos anos e danos, entre vidas e corações entrecortados – todo mundo é um furacão. Mas, num breve instante, é possível sorver um pedaço da incrível 'dor e delícia' de me ser, engolir o calor do mundo e sentir tudo que mora em mim… repousar.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Delírio


Sonhei que Deus
dançava na espuma do mar
Nos braços encantados de Iemanjá
Que Buda e Jesus contemplavam o luar

E todo o infinito era bom,

E a gente podia voar
Se amar com verdade estelar
E que era possível brincar
De ser ainda mais feliz...

Sonhei que as estrelas caíam
Sob os cabelos de Tupã
e que haviam mil formas de oração
e de encontrar com os meus...

E que, numa rua deserta
numa esquina qualquer 
entre o céu dos poetas
Ele ria e esperavas um abraço meu...

E que aos amores muito amados
Encontros universais e raros
cultivados no raiar de muitas vidas
 nunca mais haveria despedidas!

#

Percepções





Em meus braços, cabe o espaço
cores de tudo que enlaço
Cotidianamente:

Direções que aceito seguir,
Sementes que planto,
Abraços que doo
Poemas que acalanto…

Meus braços trazem  essas mãos,
Molhadas da tempestade do último verão
E das marcas de tinta e batom
Com as quais dou de colorir a vida,

Arco de afago e acolhida
Porto para o corpo dos meus amores,
Seus calores e odores,
Sabores de amor no olfato e na pele…

Meus braços dão o que são: Calor e verdade.
Paisagem concreta, poesia dispersa,

Abertos ao toque da vida
e suas incríveis descobertas!

#



terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Raros!"

Totalmente loucos,
Resolveram estar juntos
E, imperfeitos um para o outro
são felizes no presente!
Sem a eternidade do “para sempre”
Livres!   límpida força pungente...
Porque perfeição é conceito precário
Pois o natural é vário
e o amor um encontro de  raros...#
essa imagem merecia um poema,vc não acha? =D
*Poema de Outubro de 2011.
Sem tanta métrica ou estética, ainda é meu poema  favorito.
Entre as coisas mais bonitos da vida, estão os amores raros, desiguais e únicos.
Sem eles, a vida seria ordinária.O tempo, ordinário.
E até o poema teria menos belo.

LUZ!

Matinais!

Imagem: Katerina Plotnikova.

Gosto de comer teus olhos
Assim, logo de manhã
Quando se abrem sorridentes
Para a vida.

Da alegria
Dos teus dentes tortos
Do beijo sabor melancia
E dos habituais bons dias...

Bendigo as coisas simples
Nossa rotina sem muito drama
A gente se ama
E se quer bem

E contigo aprendi que isso é amor: 
Essa coisa macia, à vontade
Essa chama que só arde
Quando meu corpo se enamora do teu...

E foi de rir de tuas piadas prontas
E caminhar pelo teu céu com pouco inferno
Que em uma manhã de domingo
Percebi a sorte desse encontro
E o tanto que te quero...#

*Poema antigo, republicado, pois foi, de longe, um dos poemas que mais gostei de escrever.

A imagem é  sugestão do poeta Amapaense e amigo, Marven Junius Franklin, que gentilmente publicou em sua rede social este poema, associada à esta imagem. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Dos enternecimentos



Bicho selvagem,
Coração vadio!
Vive de enternecer 
para o que é raro:

A asa da borboleta,
o cio outonal da primavera
E até amores-imperfeitos
Cultivados no jardim.

Ah! Jardim...
Emoções impregnadas de terra e suor
É que o sol, feito o amor
Arde em cada um de um jeito diferente...

E aquela estrela-cadente
Carrega o brilho de um pedido
Ou quiçá,
 a força mais poderosa do Universo:

Um beijo,
Um verso,
Uma mensagem de amor...

#

sábado, 14 de outubro de 2017

Porto de lembranças



Sentimento
Essa ventania
Assopra no peito da gente,

Saudade, 
Maré alta,
Invade e escorre
A rua das lembranças...

De uma tarde qualquer
Entre o azul e o marrom,
Céu e Amazonas,
E as marcas de batom...

Em ti, navego,
Porto distante,
Vento Constante
No meu coração.


domingo, 1 de outubro de 2017

30 de Setembro

Foto: Gilvana Santos.


Vem, amor! 
Beber a liquidez do dia
Seguir o  rastro encantado de fogo
das borboletas amarelas!

Viver o sol de Setembro
 -  Que cai
Enquanto a tarde vai
enfeitada de nós dois...

O vento espalha o equinócio
Luz alaranjada!
E emana o néctar 
da maré adocicada

( A natureza viva
Dança
Sob o dia tropical...)

Vamos assoprar o sol
E acender a lua
Brincar com o agora
Tomar um porre 

de Amazonas!

#

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Das vivências



A gente nunca sabe dizer
O que é tristeza
Até sentir o Rio salgado 
Que agita o peito

Mesmo que o entardecer seja belo
E hajam girassóis - arduamente cultivados
nos canteiros.

Mas a bondade não 
Esta, tem um código imanente 
É óbvia e natural:
Respeitar tudo que é vivente.

Toda potencial alegria 
é resquício de humanidade 
Onde pulsa o verbo, eis o gesto
há amor,verso,beleza e verdade.

A tristeza contagia
como um vírus que nos torna vaga-imundos
Mina o sistema imunológico 
Destrói canteiros 
- desacredita tudo.

A bondade refaz caminhos
É como voltar para casa
E, em meio ao caos e espinhos 
Ganhar um belo par de asas.