terça-feira, 28 de março de 2017

Des(a)tino


Perdemos a dança do destino,
  Moreno
E a última estrela cadente
Se foi...

Foi só um desatino
Juntar meu coração selvagem
ao teu,  rodamoinho.

Deixa o café esfriar
E o tempo passar 
(Mais e mais)

A música  parar de tocar
Em nossos corações.
(O amor vai secar
Por inanição)




domingo, 26 de março de 2017

Notas sobre o amor


Então 
Deve ser assim  o amor: 
Eu deixo espaço a mais
 no cobertor

E nescafé na xícara
Com água quente no fogão
E até perco o medo
de segurar em tua mão...

Faço pipoca e  chamo
Para o cinema
E umas rimas para completar
teu poema

De tanta coisa
Doida e simples
 sou capaz
Só para te fazer feliz...

E os dias nunca são iguais
mesmo as coisas mais banais
são melhores
Quando estás 

Aqui.

sábado, 25 de março de 2017

As Caridades Odiosas - Clarice Lispector


(...)Foi em uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? 

Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se encanchara na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.-Um doce, moça, compre um doce pra mim.Acordei finalmente. O que estivera pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você...Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.-Que outro doce você quer? Perguntei ao menino escuro.Este, que mexendo as mãos e a boca ainda esperava com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.-Precisa sim, corte eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doec em cada mão, levantando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los. Mesmo os doces estavam tão acima do menino escuro. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:-Afinal, uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas que passavam, mas ninguém quis dar.Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De verogonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de... E para isso fora necessário um menino magro e escuro... E para isso fora necessário que outros não lhe tivessem dado um doce.E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora sozinha, meus pensamentos voltaram lentamente a ser os anteriores, só que inúteis.


In " A descoberta do mundo".
Super recomendo. Passeei com Clarice, estrangulada pelo sentimento de que a própria caridade é, em um país de miseráveis, instrumento que nos desumaniza. Isso é aterrorizante. Este conto tem continuidade no livro, com um passeio de ônibus, feito por Clarice. Com o mesmo sentimento descrito no primeiro...que trouxe-me lágrimas nos olhos e um sentimento de miserabilidade...indescritível.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Diário de bordo





De conversar com as nuvens
e com o vento frio de março
Parti! Com minhas asas e cactos
Tudo o mais deixei para trás …

Debaixo do braço
trouxe ainda meu caderno de versos
E um pequeno dicionário
De onde rabisquei certos significados...

Vou à procura de absurdos,
Aventurar no fantástico do mundo
Criar um diário de bordo
E cada dia, conhecer algo novo...

ah! vou juntar-me às andorinhas
e perder o medo de avião
Navegar pelos mares de maio
E em setembro conhecer o verão! #

*Foto repetida.
É que é uma das minhas favoritas...
:)

A um Estranho* (Walt Whitman,traduzido)

*Walt Whitman é considerado o pai do verso livre na poesia americana.
Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei..."


P.s: Whitman é meu poeta americano favorito. Sua escrita me angustia e afaga, ao mesmo tempo.Confesso que nutro por Whitman, muito e sempre, um grande amor. 
* Fonte:https://escamandro.wordpress.com/2012/02/02/alguns-poemas-breves-de-walt-whitman/

quarta-feira, 22 de março de 2017

Mulher Remota* (Pablo Neruda)


* In " Para nascer
Nasci, p.03 "

Adquiri este Neruda  há uns anos atrás, por este lindo contículo, na vaidade doce e tola da mulher romântica que imaginou que foram feitos para mim...
Fofurices. <3

Pequenas Epifanias sobre o FIM





De amores vindos e findos
Criados e consumidos
é das coisas plásticas e irreais
Que hoje se fazem as canções
- E isso ainda me faz chorar...

Chove. 

E a chuva dissipa rastros de meus passos 
(parece que estou sempre indo embora)
Num João e Maria ao contrário
Que apaga o mapa de retorno
Toda vez que o céu chora...

Dia desses
Quase reencontrei o caminho de casa
Mas esqueci de interpretar sinais
Pois tudo parecia tão desconhecido
E não haviam barcos em teu cais...

- Acho que estás aqui -

Com os mesmos laços macios de cetim
O olhar quente de eterno carnaval
(E as flores de plástico permanecem 
pendidas e apáticas na sala de estar,
 alheias ao mundo real)

- Acho que estás aqui -

Perdido em algum lugar dentro de mim
Mas o fio da paixão se dispersou
Separou continentes
... E é o FIM.

terça-feira, 21 de março de 2017

Verão!

Para David,
Meu jovem vizinho, que,  na mais tenra idade
Depositou uma rosa vermelha em minha janela.
:)

domingo, 19 de março de 2017

Reminiscências


São dos fins de tarde
Com cheiro agridoce
Das chuvas de maio
As minhas saudades..

Tardes mornas ouvindo Tim
A filosofia simples de Chico ou Jobim
Formatos das nuvens no céu
Sonhos infinitos...

Teus cabelos desgrenhados
E o cheiro de mato
Teu amor meio louco
Meu doido do olho cinza...

São dos domingos
Com ares de preguiça e tédio
- E das coisas todas sem remédio -
As minhas saudades...
#

LUZ!

Natureza*


Gosto de ver o rio
Mergulhar no doce mistério
E ouvir debaixo d´água
O burburinho da vida...

Fico tempos plantada no jardim
Junto às flores e bem-te-vis
Apenas para sentir
O sol, a chuva, o vento...

Não sei definir ‘poesia’
Desconheço métrica ou rima
Nem crio metáforas complexas
…Perdoa-me, poeta.

Sou natureza falante
Bicho que abraça e aquece
Borboleta que tem asas nas mãos
E voa em palavras flutuantes…

Oh! Não sei de coisas avessas
Ao natural existencial
(Essa coisa tão perfeita)
tenho horror a reuniões
audiências e convenções,

Detesto relógio e horários!
E a única norma que me encanta
confesso,

é

O dicionário.

#

*Apelido que meu pai me deu, ainda na infância.
E que diz muito de mim. Porque,fora da atividade profissional, a minha poesia e vida, (Como Manoel das invencionices),  respira o incrível encanto das coisas que simplesmente são...

sábado, 18 de março de 2017

Flagrância



Exala o calor:
Crime consumado
O segundo ferve
mata o tempo e evapora:

Quão suave é a matéria do agora...

Não atende aos pedidos de parada
Segue a dinâmica pré-estabelecida
Pelo sol e pela vida...

Que é tão clara:

O código estabelece o rito
Mas é do condutor
Suas próprias bênçãos e delitos! 

#


Divaguei hoje sobre o conceito de flagrante, ''coisa que queima'',em latim. É que,para o Direito, este é o momento clássico do crime. E para a vida, o que é?
Aí,poeminha fluiu.

Martha Medeiros e sua humana natureza...




"Sou capaz dos gestos mais nobres
nem eu consigo me aceitar assim tão justa
chego a parecer burra,
loira, pálida e profunda
nada me detém,sou a dignidade em pessoa
ninguém diria que uma criatura como eu pudesse ser tão boa,
uma santa,uma alma do outro mundo...


Mas se acordo atordoada,

sou capaz de armar um circo
solto fogo pelas ventas,
não resmungo, grito mesmo
ninguém me aguenta,
sou herege, estúpida, ruim como o diabo
me escondo em qualquer beco, rabugenta, bem no fundo do buraco,
a cara cheia de olheiras...


...argh!!Que sou de lascar quando quero

haja paciência e sabedoria ou pouco ou ego imenso
ou isso tudo para enfrentar o céu e o inferno a cada vinte minutos."

(Do livro "Poesia Reunida", 2008)

Sobre isso, digo:  Amor por essa poesia! pois é preciso sabedoria para saber reconhecer-se, com sua sombra e luz particular.  
:)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Despertar


Acorda um sonolento sol...
Beijado pela chuva fina da manhã
E pelo canto dos bem-te-vis,
nasce o dia.

A natureza está preguiçosa e cinza
e, por todo canto
há uma beleza pálida pelo ar...

A luz chega tão fina e reticente
Que , na penumbra, 
ouço nas batidas fracas 
de meu coração

E,  num afã infantil e doce
Sinto saudades
 de segurar em tua mão...
#


Imagino a saudade do Ney enquanto canta, e isso sempre me dá a sensação de estar acompanhada
Não apenas da canção, mas da emoção da canção.

Um dia lindo! 

LUZ!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Pela noite enluarada


Vem,amor, vadiar por aí
Que a lua está cheia - prenha de versos
Plena de parir a luz...

Vamos sentar à beira da calçada
Tomar um vinho quase morno
E contemplar aquela casa que chora
Pela noite enluarada...

Cheios do sabor do mundo,
Vamos provar aos escafandristas
Que o amor, Chico, não ficará submerso 
O amor vibra!

Mora dentro de mim,
Escorre em ti,
vira verso. 

#

Quem eu sou? (Por Josué Reis)


* Este é um fotopoemajardinagem, com a poesia linda do Josué Reis.
Resolvi brincar com meu Jardim e pendurar nele poemas e fotografar. Drummond, em seu conto  "Rondó na praça da Liberdade", menciona poetas que poetojardinavam. E que mistura linda!

Este, é do poeta Josué Reis, que passeia pelas ruas da cidade com o projeto "O vendedor de poesia", que é onde compartilha seus sonhos e arte com o mundo. 
Mais um pouquinho da poesia do Josué:  http://aluanaodorme.blogspot.com.br/2016/06/poema-n-11-o-poema-mais-bonito.html

Eu quero!



Eu quero!

Um imperativo
Sem imperador
a liberdade em um poema
E teu beijo de amor...

Uma modinha
Sem repetição
Um clichê antigo
Açucarado de emoção...

Eu quero!

Ficar rouca, louca
de tanto recitar universos
E formar laços frouxos
Ser verso.

Sentir as gotas de chuva
Molharem dentro do coração
Descobrir um mundo novo
e segurar em tua mão... #

segunda-feira, 13 de março de 2017

Máxima mínima



De ontem
A antes de tudo
Antes mesmo de Deus parir
O mundo...

- Meu bem!
Receba esse recado meu: 

Qualquer rima de amor
Que não falar em ti
É mera coincidência.

#

:)

Vestígios


Deixas vestígios por onde passas:
Perfume, cabelos negros
Olhos de luar desassossegado,
Ares mestiços,
E cheiro amadeirado...

Deixas paisagens escritas
Em meus cabelos
Que já receberam teus beijos 
- Até ficarem foguentos
Ardentes, vermelhos…

Deixas marcas por onde tocas
De amor ou de dor,  som ou zumbido
E até fizeste morada em  minh´alma
Dentro da flor
 Desenhada em meu umbigo.

#


Que a gente seja tão  apaixonado
Pela vida, pela poesia...pelo próprio amor!
Que brincar com o lúdico da vida seja reflexo (in)condicionado.
Que amar seja um gesto e um verbo...em qualquer lugar.

sábado, 11 de março de 2017

Reminiscências


Vi teu rosto
Formar e deformar 
Feito a espuma de sal
Que se desfaz nas ondas do mar...

Risos e dor 
Nosso pequeno teatro
De alta platéia
E o colidir de forte impacto
 Particular tragicomédia.

E a solidão
- o prêmio dos egoístas
sempre à espreita,
à espera.

Vi teu rosto
Se desfazer na memória
Como um quebra-cabeça  às avessas
Peças dispersas na história...

Vi nosso amor 
- Obra inacabada
Como um Da Vinci
Que desconstrói Monalisa
Por uma pintura - abstrata. #


Dos rascunhos de 2011 e os sentimentos da poeta de agora, que acha que constrói poemas - e pontes - melhores...

LUZ!