terça-feira, 18 de abril de 2017

Lúcia vai ser DELEGADA (Para o dia da Leitura Infantil, uma reflexão)


Ouço delicadas palmas do lado de fora e, da janela, encontro Lúcia, sorridente, em uma enorme bicicleta, tão maior que seu corpinho magro.
- Oi, cadê a Zoé? (Lúcia ama cachorros e, por acaso do destino, um dia bateu-me à porta e virou imediatamente amiga de Zoé, minha filhota de quatro patas). Brinca com Zoé e, minutos depois, senta-se comigo à mesa para tomamos café.
Isso se tornou frequente em nossas vidas. Nesses momentos, ouço Lúcia falar de si e seu cotidiano e, através dela, sei o que é ter onze anos e viver em volta de uma comunidade que, mesmo que ao meu lado, tem um tempo e espaço (urbano, inclusive) diferenciado.
Vou apresentar Lúcia para vocês. Lúcia é uma criança de 11 anos, morena, cabelos e olhos negros e enorme sorriso. É baixinha e magrinha para sua idade. Mora no bairro das pedrinhas, dentro de uma área de ressaca e estuda na escola pública aqui ao lado.
Lúcia não sabe ler -  apesar de hoje ser o dia do livro infantil e só faltar a ela poucos anos para sair desta fase mágica - Mas adora quando abro meus livros de ‘adulto’ e enfeito as páginas com palavras, contando a ela de outras realidades, tão mais mágicas.
Seu pai, trabalhador de uma das madeireiras, tradicionalmente alocadas no canal das pedrinhas, sofreu um acidente ano passado e perdeu a mobilidade. Não consegue andar, senão com o uso de muletas. A mãe, até então uma senhora do lar, ocupada com seis filhos, não soube o que fazer, passou a trabalhar como diarista.
Apesar disso, Lúcia diz que seus pais se tratam bem e que ela os ama. Conversa vai, conversa vem, certa vez, Lúcia confidenciou, quase envergonhada, que sonha ser uma DELEGADA, que em suas palavras, é pessoa importante, que realiza AUDIÊNCIAS.
Sempre que vem aqui, lemos um livro. Hoje, li para ela “ Cinderela”, porque é bonito ver seus olhos iluminados por mundos mágicos. Mas também já contei a ela umas histórias de mulheres fortes, como Frida Kahlo, a artista maravilhosa que fez de sua dor uma incrível obra de arte; de Mulan, a jovem guerreira que revolucionou a China e mesmo de Malala, a menina que queria estudar.
Quando Lúcia toca nos livros, sua reação quase envergonhada aperta-me a garganta. E sinto-me tão culpada por fazer parte deste sistema, por não conseguir mudar, em um passe de magia  ( no reverso dos livros infantis, não sou tão boa fada madrinha)sua realidade…sei que parte de sua vergonha é minha também. Mas eu conto a ela só o lúdico que tem dentro dessas páginas e espero que ela encontre nas histórias e estórias que ‘lemos’ um alento ou incentivo.
Depois, ela vai embora, sempre sorridente, apesar dos medos. É que ela relata que, há meses, as crianças do entorno têm medo de andar na rua, pois alguns veículos param na esquina de sua casa e de sua escola, oferecendo balas e dinheiro para que as meninas entrem nestes. Até mesmo me relatou que já saiu correndo, dia desses, para dentro da escola, pois este veículo parou ao seu lado.
Sei que pode ser apenas o imaginário ativo de uma menina de onze anos, mas não duvido de que seja verdade, pois, já disse o poeta, ‘o mundo anda tão complicado’.
Lúcia não sabe ler, mas já sabe fugir de veículos que oferecem doces e trocados às meninas de sua idade. E, como desconhece os meios de frear essa violência, que para ela é seu ‘bicho papão’ da vida real, ela sonha:

Lúcia vai ser DELEGADA.


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