Caríssimo
(a), me responda com sinceridade: Qual fim tu destinas aos estilhaços do que
tanto quis?
Ah...DESEJO.
Essa
matéria quente, brasa acesa na pele, chama alta que queima lábios e juízos,
incendeia a alma e ordena vontades. Nossa língua (a materna, não falei desta
que já formigou na tua boca, de pensar), carrega essa feitiçaria pronta na palavra
– esse empurrão certeiro que nos lança na correnteza da vida, feito gente que
não sabe nadar e é empurrado de um trapiche, em dia de maré alta.
É
pimenta, já diz Rubem Alves. Dá água na boca, arde enquanto molha...
Bom,
a palavra viajou no espaço-tempo, como alguns de nossos quereres.
Na
origem, vem de desiderare, de - siderare, nomeada pelos Romanos como a ânsia
do contato com as estrelas e a existência de uma separação entre aspiração –
realidade: a ausência do contato que produz a ânsia do encontro.
O
curioso é que L.Krauss já nos lembrou que a nossa composição natural contém
carbono, uma substância que não existe no planeta terra, mas sim, nas estrelas.
Logo, trazemos o pó do cosmos nas veias. Que deboche do destino, desde os
antigos até aqui: o ser humano correr atrás daquilo que pulsa em sua carne e
sangue.
É,
os Deuses vendem quando dão: O Desejo, desde a origem, é uma zombaria linda,
ingênua e dolorida. E de dor e beleza, convenhamos, todo mundo entende bem. Pois bem.
Ocorre
que li, recentemente 'Noites Brancas', cujo personagem central, "O
Sonhador’’ – já que jamais deu-se ao trabalho de se apresentar pela formalidade
de seu nome – conta as quatro noites ‘mais
significativas’ de sua existência: A do encontro com a idealização do amor,
personificado pela fulana de tal - que chamarei assim apenas para não pessoalizá-la
demais, já que vamos falar em projeção.
O
sonhador começa como um mero caminhante na cidade de São Petersburgo, como
parte da paisagem da cidade, absorvendo a vida e o cotidiano a tal ponto, que
conversava com as casas da cidade até o encontro quase inacreditável com
fulana-de-tal. O livro é desenvolvido em partes singulares, as ditas quatro
noites brancas: o encontro/ a intimidade (o querer da entrega não
concretizada)/ A vertigem do sentir/ o
derradeiro fim. Tudo em uma voltagem singular: Coisa instantânea.
De
início, não ganhei identidade com a leitura, como em outras obras do Dostô, pela
gritante diferença entre a escrita – claramente de seu início - e as suas clássicas obras, tal como
"Crime e Castigo" ou "Memória da casa dos Mortos", que,
complexas e tortuosas, demonstram nuances e melindres da filosofia que mora
dentro das sombras humanas, rasgadas entre carne-armadura, sombras, luz,
ambivalências...
Dias
depois de concluir o livro, a ficha caiu: fazia algo banal, como estacionar o
carro, quando percebi que fulana-de-tal foi a personificação do desejo do
sonhador. Uma espelho de sua própria
solidão. Fiquei encantada com a delicadeza de Dostoiévski – aliás, sem isso, a
alma humana é quem quebra.
Neste
mesmo momento, curiosamente, levantei do carro, a bolsa caiu do meu colo e
quebrei um perfume que se chama, adivinhem? ...DESEJOS. Mas, apesar de
quebrado, ele não derramou o líquido. Resolvi que poderia transformar, tal qual
o sonhador, meu ‘desejos’ quebrado em algo bom – afinal, a beleza das coisas quebradas
é a essência da filosofia japonesa wabi-sabi.
O
Sonhador pegou as quatro noites ‘mais significativas’ de sua existência e
transformou em mensagem, afeto e gratidão pura: fez algo belo com seu Desejo
Quebrado. Ele poderia ter chorado o papel de coitado, mas recolheu seus pedaços
com a melhor parte da palavra calma: ALMA. Pura arte.
Ah...meu DESEJO quebrado (risos) e suas noites brancas sob os céus do Equador!
O
fato é que, muito paralelamente, correlacionei o livro ‘Noites Brancas’ à
canção ‘Dia Branco’ , de Geraldo Azevedo - que, quem sabe? - não foi nomeada em
clara analogia e contraposição ao livro, sendo aqui descrito como um afeto, um
sentir... possível.
A
letra diz:, " Se você vier pro que der e vier comigo/ Eu lhe prometo o sol ...se hoje o sol
sair/ Ou a chuva...se
a chuva cair.../ Até onde a gente chegar/ Numa praça, na beira do mar, um
pedaço de qualquer lugar.../Neste dia branco - se branco ele for (...)”
Ah! A beleza das coisas...possíveis!
Sim,
é fato que a vida real acontece a cada abrir de olhos, feita no cotidiano dos
dias brancos, vivenciados na nossa escala singular de possibilidades. E é verdade que ninguém aqui nasceu para
estátua de mármore, e que apesar de querermos essa simplicidade, pulsamos
ambivalências, voltagens e vontades particulares: Temos e somos o desejo
partido de alguém.
O
lance é que, ajustar o coração à loucura cotidiana - com suas dores e miudezas
- é a única chave para a felicidade. Um
realismo esperançoso, como diz Suassuna. Uma estratégia de sobrevivência mais
profunda do que um manual sobre a guerra. Difícil de aprender, impossível de
ensinar. Vamos à lida.
Então,
caríssima (o), não sei o fim que tu destinas aos estilhaços do teu querer... sei que tens tuas noites brancas. Então, te desejo SIM a
poesia clara do dia, feita de abraços e afetos... ao alcance da mão.
É ISSO!
A publicação está fora das margens. É a única da história do aluanaodorme neste formato. Porque tudo que em nós transborda...é querer. :)
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