quinta-feira, 27 de agosto de 2026

‘Noites Brancas’, ‘Dia Branco’...e eu, o que faço com meu DESEJO(S) quebrado? - Filosofia do Boteco da Lua.

 


Caríssimo (a), me responda com sinceridade: Qual fim tu destinas aos estilhaços do que tanto quis?

Ah...DESEJO.

Essa matéria quente, brasa acesa na pele, chama alta que queima lábios e juízos, incendeia a alma e ordena vontades. Nossa língua (a materna, não falei desta que já formigou na tua boca, de pensar), carrega essa feitiçaria pronta na palavra – esse empurrão certeiro que nos lança na correnteza da vida, feito gente que não sabe nadar e é empurrado de um trapiche, em dia de maré alta.

É pimenta, já diz Rubem Alves. Dá água na boca, arde enquanto molha...

Bom, a palavra viajou no espaço-tempo, como alguns de nossos quereres.

Na origem, vem de desiderare, de - siderare, nomeada pelos Romanos como a ânsia do contato com as estrelas e a existência de uma separação entre aspiração – realidade: a ausência do contato que produz a ânsia do encontro.

O curioso é que L.Krauss já nos lembrou que a nossa composição natural contém carbono, uma substância que não existe no planeta terra, mas sim, nas estrelas. Logo, trazemos o pó do cosmos nas veias. Que deboche do destino, desde os antigos até aqui: o ser humano correr atrás daquilo que pulsa em sua carne e sangue.

É, os Deuses vendem quando dão: O Desejo, desde a origem, é uma zombaria linda, ingênua e dolorida. E de dor e beleza, convenhamos, todo mundo entende bem.  Pois bem.

Ocorre que li, recentemente 'Noites Brancas', cujo personagem central,  "O Sonhador’’ – já que jamais deu-se ao trabalho de se apresentar pela formalidade de seu nome – conta  as quatro noites ‘mais significativas’ de sua existência: A do encontro com a idealização do amor, personificado pela fulana de tal - que chamarei assim apenas para não pessoalizá-la demais, já que vamos falar em projeção.

O sonhador começa como um mero caminhante na cidade de São Petersburgo, como parte da paisagem da cidade, absorvendo a vida e o cotidiano a tal ponto, que conversava com as casas da cidade até o encontro quase inacreditável com fulana-de-tal. O livro é desenvolvido em partes singulares, as ditas quatro noites brancas: o encontro/ a intimidade (o querer da entrega não concretizada)/ A vertigem do sentir/  o derradeiro fim. Tudo em uma voltagem singular: Coisa instantânea.

De início, não ganhei identidade com a leitura, como em outras obras do Dostô, pela gritante diferença entre a escrita – claramente de seu início -  e as suas clássicas obras, tal como "Crime e Castigo" ou "Memória da casa dos Mortos", que, complexas e tortuosas, demonstram nuances e melindres da filosofia que mora dentro das sombras humanas, rasgadas entre carne-armadura, sombras, luz, ambivalências...

Dias depois de concluir o livro, a ficha caiu: fazia algo banal, como estacionar o carro, quando percebi que fulana-de-tal foi a personificação do desejo do sonhador.  Uma espelho de sua própria solidão. Fiquei encantada com a delicadeza de Dostoiévski – aliás, sem isso, a alma humana é quem quebra.

Neste mesmo momento, curiosamente, levantei do carro, a bolsa caiu do meu colo e quebrei um perfume que se chama, adivinhem? ...DESEJOS. Mas, apesar de quebrado, ele não derramou o líquido. Resolvi que poderia transformar, tal qual o sonhador, meu ‘desejos’ quebrado em algo bom – afinal, a beleza das coisas quebradas é a essência da filosofia japonesa wabi-sabi.

O Sonhador pegou as quatro noites ‘mais significativas’ de sua existência e transformou em mensagem, afeto e gratidão pura: fez algo belo com seu Desejo Quebrado. Ele poderia ter chorado o papel de coitado, mas recolheu seus pedaços com a melhor parte da palavra calma: ALMA. Pura arte.

              Ah...meu DESEJO quebrado (risos) e suas noites brancas sob os céus do Equador!

O fato é que, muito paralelamente, correlacionei o livro ‘Noites Brancas’ à canção ‘Dia Branco’ , de Geraldo Azevedo - que, quem sabe? - não foi nomeada em clara analogia e contraposição ao livro, sendo aqui descrito como um afeto, um sentir... possível.

A letra diz:, " Se você vier pro que der e vier comigo/  Eu lhe prometo o sol ...se hoje o sol sair/  Ou a chuva...se a chuva cair.../ Até onde a gente chegar/  Numa praça, na beira do mar, um pedaço de qualquer lugar.../Neste dia branco - se branco ele for (...)”

Ah! A beleza das coisas...possíveis!

Sim, é fato que a vida real acontece a cada abrir de olhos, feita no cotidiano dos dias brancos, vivenciados na nossa escala singular de possibilidades.  E é verdade que ninguém aqui nasceu para estátua de mármore, e que apesar de querermos essa simplicidade, pulsamos ambivalências, voltagens e vontades particulares: Temos e somos o desejo partido de alguém.

O lance é que, ajustar o coração à loucura cotidiana - com suas dores e miudezas -  é a única chave para a felicidade. Um realismo esperançoso, como diz Suassuna. Uma estratégia de sobrevivência mais profunda do que um manual sobre a guerra. Difícil de aprender, impossível de ensinar. Vamos à lida.

Então, caríssima (o), não sei o fim que tu destinas aos estilhaços do teu querer... sei que tens tuas noites brancas. Então, te desejo SIM  a poesia clara do dia, feita de abraços e afetos... ao alcance da mão.

É ISSO!

A publicação está fora das margens. É a única da história do aluanaodorme neste formato. Porque tudo que em nós transborda...é querer. :)

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