segunda-feira, 22 de junho de 2026

LO(U)COMOTIVA DA PAIXÃO! (Conto Poético - Ou seria Profético? - do Boteco da Lua - Revisado)

"Tudo o que é sólido se desmancha no ar''

A frase não dizia respeito à relação afetiva, mas ao Capital. E, por ela, Marx transcendia explicações com uma máxima gigantesca acerca das relações economia-humanidade. Foi profético e, adiante, Baumam explicaria essa frase com a liquidez da modernidade. De lá para cá, haja escritos, por isso não vou me alongar... 
Uma frase muito mais simples me atingiu  que toda a força metafórica das palavras:

Eles não estão mais juntos.

Partiu meu coração por mil motivos. O primeiro, é que sempre achei que era um casal daquele tipo 'tampa e panela'. O segundo, é porque um casal é sempre a lembrança de que somos animais sentimentais...capazes de exercer o bendito mister, apesar do bla bla bla acerca da super individualismo e da superficialidade de uns e outros. 

E o terceiro é que, quando existem mil improbalidades e eles permanecem juntos...dá um senso de conformidade cármica que ...aquece o coração. De que, repente, exista 'um certo alguém' para cada um de nós. Eles se separam e o adeus é coletivo.  Mundos construídos. Vocabulários, apelidos. Dias e dias idos, onde a vida foi absolutamente diferente, pelo universo que construíram....e tudo que eles ainda poderiam ter sido!Ah...a projeção...

Eu sou sentimental, como todos aqui sabemos (gratidão pela visita!). Mas eu sei que dá um fundinho no coração de todo mundo pensar que pessoas que se apaixonaram desencontraram.

Tentei recordar - trazer à memória as cores do coração - o que lembro desses dois. Riso aberto, fofurices, brincadeiras, canções...pequenos rituais, aprendidos e partilhadas. Uma coleção de vínculos e de dias pendurados nas paredes do coração.

Eles não eram aqueles casais plásticos, sabe? projetados pela fórmula das conveniências típicas: eu isso, você aquilo, nós, união de comodidades...aliás, sei que, no começo, era tudo zoação e brincadeira...

Mas... 

Eles eram mágicos. Passava uma energia na pele, uma luz no olhar de um para o outro...uma espécie de fio invisível que os interligava e eletrificava o ambiente. Eles eram engraçados e viciantes.

Tinham potência emocional de dentro para fora. 
Mas...ouvi dizer que  ela  'perdeu a esperança/ porque o perdão também cansa de perdoar', como diria Chico.  E ele estava confuso com a intensidade dela e decidiu aceitar a decisão de descer da estação da paixão.

 Eles não estão mais juntos.

Senti uma desesperança de pensar nisso tudo e, confesso: Fiquei pessimista por umas vinte e quatro horas de tempo com a vida - é quase tudo  de tempo que meu coração aguenta ficar. Neste interim, pensei que, se tudo é impermanência, talvez nem tudo valha tanto à pena assim...talvez se apaixonar seja uma grande bobagem e uma perda de recurso emocional. Talvez o amor seja aprender a se despedir ...( eu estava realmente pessimista).

'Será que a gente tá sempre indo embora?'...ou a gente tá sempre chegando? Será que a gente nunca vai chegar?

Daí, lentamente, a vida fez seu trabalho e me trouxe à memória grandes viajantes que seguem juntos. Amores, amigos. Gente que escolheu acolher as mudanças um do outro para seguir na viagem, em conjunto. Eu não sou, nem de perto, a mesma garota da bicicletinha, aos 6. Mas ela segue comigo. Nós ainda somos referencial de amor uma para a outra. E esse é só um dos milhões de exemplos ...fui inundada das impermanências que se movimentam juntas...

Num impulso de otimismo, refaço a história, em minha mente e coração.

Eu os imagino na estação... estão confusos e magoados, cada um de um lado do trilho do trem.
Na viagem do qual desembarcaram,  estão tristes. Mas não tiraram os pés de lá. Da estação.
Ela pensa no que queria que ele lhe dissesse.
Ele quer que ela pare de querer o diferente.

Mas a viagem era boa, antes da quebra inicial, sabe?

Ela olha para ele. Ele para ela. Sentem falta real um do outro. Será que palavras alcançam mesmo a potência que é o milagre de um encontro? O trem da paixão chega novamente na estação. Barulhento e ensurdecedor. Mas o vagão tem portas de entrada pelos dois lados. Ele levanta. Ela levanta.

Eles caminham um para o outro, sem tanta explicação.
Dão as mãos, dentro do trem...

Não são iguais, depois daquela breve descida. Algumas projeções ficaram na estrada. Mas, afinal...eram só bagagem.  Eles reconhecem que não estão no mesmo tempo-espaço.  Tiveram viagens diferentes até chegarem um ao outro. Não é tão físico assim, é quântico: não é tão individual, é interativo. E tudo é tão válido!

Compreendem, no silêncio, que são viajantes intereslares dentro do próprio multiverso. No meio dessa viagem, o passeio pode ser em...par.

Eles querem estar ali.
Não imaginam mais o 'destino final', nem querem chegar...querem estar. 

Eles. Juntos, novamente, prontos para serem diferentes...

O trem da paixão fecha as portas, com eles lá dentro. E vai embora em sua trajetória rumo ao infinito...!



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P.a: Eu sei, está PIEGAS.
Mas eu sou piegas quando o assunto é pensar em uma vida menos ordinária, mais colorida e possível.
Quem sabe se todo mundo for menos piegas, a gente ouça menos...'eles não estão mais juntos'.
Fiz para um casal de amigos. Mas quem sabe pode ser a sua história? ;)


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