terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Criadores e criaturas, feitos de estranhezas e pieguices (Epifania sobre o sal e o açúcar de cada um)




Olá, querido leitorado. Bora de epifania de boteco? 

Bom, concluí a leitura do livro 'o estrangeiro', que te confesso, apesar de um livro curto, foi uma leitura bastante demorada, para mim. Por diversos motivos. O primeiro, é o quão somos imediatamente esbofeteados pelo conceito de 'normalidade' (ou seu avessos) e humanidade (ou seus avessos), desde as primeiras páginas. 

De pensar no conceito de 'normalidade' - esse negócio que todos sabemos ser uma verdadeira ilusão, concluí que  as pessoas são feitas de suas esquisitices  e a normalidade é uma ilusão -  e como todos nós concordamos, poderia parar por aqui. Mas, vamos 'operar' o conceito? rs.

O que tu achas que compõe a ideia de pessoa? 

Bom, entre as muitas definições, trago à luz deste texto que o clássico persona, é fonte reconhecida, deriva de personare, ou ' per - sonare'...''a máscara por onde o som passa''.  De outro lado, a ideia da palavra, sinceridade, vem se sine cera, expressão utilizada para  estátuas gregas não camufladas por cera, como eram antigamente, quando possuíam imperfeições.

Uno as duas palavras e etimologias para te perguntar:  Qual a composição do som que sai da tua máscara?

Essa resposta nunca é única e tem muitos vieses, por isso hoje, quero falar de ESQUISITICES e PIEGUICES, aquelas coisas únicas que todos trazemos conosco e que, em verdade, nos tornam únicos e não replicáveis - nem por IA. 

Fui ao conceito de 'piegas'. Deu nisso: a origem da palavra é obscura ou 'desconhecida'. Acho perfeito para a ideia da composição de nossas identidades e para o que mostramos para o mundo. Decidi compartilhar neste lugar amado algumas das minhas:

* Adoro deitar no chão. Um dos chãos preferidos para mim, é o da casa da Ester. Especificamente da cozinha. Adoro ficar deitada no chão enquanto ela cozinha (eu lavo a louça, OK? não me julgue).

* Odeio casas desconhecidas. É certo que ninguém gosta, por motivos diferentes. Eu, porque acho que casas têm almas e carregam os versos, as merdas e as esquisitices de quem as habita. E eu realmente sinto isso, quando adentro um espaço. Assim, se eu adentrar a sua ou estiver nela, é porque me sinto confortável com a sua alma. 

* Sobre músicas, tenho uma playlist de músicas que me são 'muito caras' e pelas quais decidi, desde moleca, que só cantaria para a pessoa com quem vou me casar. Esse é um segredo tão particular que só compartilhei aqui, neste texto (você é meu amigo/ amiga. Guarde esse segredo piegas contigo). 

* Acho que as pessoas que me desagradam fedem (Bom, elas fedem mesmo, para o meu olfato). Consigo gostar de um certo perfume em uma pessoa e odiar o mesmo perfume por estar em outra. Quanto mais eu gosto de você, mais te acho cheiroso/ cheirosa. Inclusive o suor. Assim, acho que entendo melhor do que ninguém o conceito de 'não fede e nem cheira...' - sigo essa mesma lógica para o conceito de beleza.

* Amo livros anotados por quem os leu antes de mim. E respondo às anotações (vai que o próximo leitor mantém esse pequeno 'chat'  de bate-papo pela eternidade...). E também cheiro as páginas  - resquícios da ideia de perfume...

* Regulo meus pensamentos em certos ambientes, porque penso que todo-mundo-sabe-o-que-todo-mundo-está-pensando. Sei, é besteira. Mas vai que tem alguém que realmente saiba? sei  lá. Não vou facilitar para os óvnis.

*Adoro frio, e amo cobertores.  Vai entender. Rs. Aliás, Ester tem uma amiga que me viu criança e disse que eu não tinha brinquedo de estimação, eu tinha uma naninha! Isso me fez amar ainda mais o personagem Linnus Van Pelt, da turma do Snoopy. Perguntei da minha mãe, que confirmou.

* Eu leio ouvindo a voz das pessoas. Mensagens de WhatsApp, risos, tudo...ouço mesmo. E crio a voz dos personagens dos livros que leio, o que torna tudo muito 'colorido' e vibrante.

* Eu detesto um autor brasileiro que todo mundo ama, mas isso, não vou falar, porque tenho vergonha: deixa encoberto na minha máscara particular de ser-gente.

                                                                   Claro, tem muito, muito mais.

Tem aquilo que reconhecemos nas vivências do processo, tem o que não queremos ter, afinal...ser gente tem mesmo muitas camadas. E muitas são 'estrangeiras', para nós. Até mesmo alienígenas.  Cada uma, esquisita ou singular de seu próprio jeito. Penso que as piegas são as fofuras - o açúcar que nos salva do cotidiano. As demais, o sal - daí porque temos  'temperamentos'. 

ah...Sei que isso te fez pensar nas tuas singularidades. As esquisitices, pieguices... o que te move e te torna único (amável e odiável, em visões diferentes). Então, quais são as esquisitices ou pieguices que te tornam singular? Como coabitam teu elo criador e a criatura? (Frankeinstein nunca fez tanto sentido... risos).

Acho que, no fim das contas, a única coisa que me assusta ou amedronta, em uma pessoa (fora serialls killers ou outras patologias similares),  é a superficialidade e a apatia. Geralmente delas surgem as maiores falhas de caráter.  A superficialidade apavora. A apatia retira a humanidade, além de retirar a presença no 'agora'. Tenho mesmo pavor de gente assim. Gosto das coisas com 'sangue', porque, afinal, é como canta o  Ney: 


Sou ardente como você
Eu aprendo qualquer lição
Na versão que você quiser
Sonhador desses sonhos meus
Amoroso e fatal demais...

Por isso, ao ler o 'Estrangeiro', fiquei singularmente intrigada e também, bastante incomodada.  Acho que desumanizamos rápido o personagem, não pela ideia do crime, mas por sua singular esquisitice - ele era um narrador de si, desumanizado de suas emoções. Sem detalhes próprios (esquisitices ou pieguices), mas apenas narrador cuja vida só toma valor singular a partir da etapa final (e paro por aqui,  para evitar spoiler).  E o tornamos mais criminoso por isso. 

Afinal, somos 'morais demais', não é mesmo? Adoramos julgar as esquisitices ou pieguices alheias, sob a nossa fina capa de gente 'normal'.

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