quinta-feira, 14 de abril de 2016

Velha Santana! (Devaneio saudosista da Sessão Velha Boba)




Recordo como eram bonitos os quintais sem muros e as enormes árvores, entremeando caminhos que levavam a pequenos paraísos com  igarapés, na minha velha Santana. Não à toa, o bairro ganhou o nome de Paraíso. Lá moravam "olhos d´água'', que hoje sei, chamados de áreas de ressaca, ou áreas de resfriamento da cidade.

Mas, a verdade é que nunca foram isso. Eram pequenos oásis, em meio ao nada. Não nasceram para “resfriar” a cidade, que visão mais antropocêntrica. Existiam antes da cidade! E a molecada se divertia, às escondidas das mães. Jogavam uma água danada uns nos outros. Era moleque sujo para todo lado, na volta, para encontrar suas mães, ávidas pelo toque das sandálias. E elas “cantavam”.
Eu não. Filha de pais separados e trabalhadores, entrava na casa do vô, tomava banho e apanhava pouco. Mas ouvia a ladainha “entoar” pela vizinhança, junto aos gritos da primaradaApesar de danados, ninguém virou infrator. Destes com quem brinquei, há três professoras, uma publicitária, dois administradores e uma advogada.  Três ainda são meus vizinhos e nós ainda ‘apanhamos’ juntos na vida.  E dessa, a vida não me livra (rs). Tudo bem. Eu me sentia mesmo mal  por não ser incluída. E somos todos bons cidadãos.

Mas a gente era muito marginal, sem tablet ou videogame. À noitinha, antes da novela das nove, sagrada para todas as mães, tinha um “Onde eu mandar, vô. E Se não for? Apanha um bolo”. E a criançada se divertia para trazer a primeira folha amarela da mangueira do vô ou uma pedra branca, ou a lua e as estrelas, a depender da criatividade da “mãe”.
Brincávamos também de queimada. De pira-pega. Que pique-esconde. De pira-alta. As meninas, de elástico e amarelinha. 

De dia, retornavam as grandes excursões, éramos os navegadores em busca da descoberta do Brasil, pelos territórios sem fronteiras de uma cidadezinha ainda por se descobrir, também. Eu recordo disso com grande felicidade. 

Na adolescência,mudamos de cidade, para a "capital",nossa pequena "cidade grande". Mas sei que é porque fui criança do interior, com pouca boneca e muita natureza, que cresci e gostei de ler, conhecer outros mundos, desenvolver a escrita.  Foi para passear pelas margens dos igarapés que meus pés deixaram pra trás, naqueles quintais sem fronteiras!


Jaci Rocha








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