" E existem muitos formatos
Que só têm verniz e não tem invenção
E tudo aquilo contra o que sempre lutam
É exatamente tudo aquilo que eles são...''
Tu és um modelo ultraprocessado em forma de gente.
Sabias disso?
Vou ao conceito:
"Ultraprocessado são formulações industriais prontas para consumo feitas com ingredientes extraídos de alimentos ou sintetizados em laboratório (como corantes e aromatizantes). Eles passam por várias etapas de processamento e contêm aditivos para imitar a "comida de verdade", sendo associados ao aumento de doenças crônicas"
Sabes quem fez esse conceito para mim, extraído da Academia Brasileira de Letras - e que eu poderia citar, por desonestidade literária? A IA. Mas por respeito a ti, que me lê, consultei o site de referência e está condensado, mas verdadeiro. Leia o texto integral aqui: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/ultraprocessado.
Bom, nós também somos formulações industriais condensadas, firmadas e alimentadas pela estrutura carnívora e canibal do capitalismo mais selvagem e ilógico, essa máquina de engolir gente. Todos sabemos disso. Criados para reproduzir 'Sísifo feliz', na busca eterna por prazer enlatado, vendido na forma de status, poder, grana, beleza,etc - tudo isso, conceitos ultraprocessados de sucesso e felicidade.
Por isso, eu me sinto confortável em ler distopias: Essas pessoas previram o grau de violência a que chegaríamos, não porque não viviam a violência, mas porque a vivenciavam sim: em graus diversos, a mesma perversidade.
Bauman, em 'A era do medo' - menos conhecidinho do que o seu livro popstar e a teoria popstar da liquidez, falava sobre a idade média exatamente nestes termos: MEDO, pavor. A modernidade ultraprocessou o MEDO e anestesiou nossa condição humana, sintetizou nossas relações e fez com que a gente goste de ser o que eles queriam...pessoas-máquina. E, na narrativa de um passado pavoroso, ela nos amedronta e faz pensar que estamos bem, nós aqui, vivendo 1984 em pleno 2026 enquanto pensamos que 'farmamos aura'. O MEDO antecede a LIQUIDEZ e é a solidez de sua (in)concretude.
Afinal
'Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, domina o futuro'
O que me recorda essas novas gírias do momento...e o quão parecem inofensivas. Mas foram feitas em laboratório, é óbvio. Ou achas que a expressão SIX SEVEN nasceu da periferia do nosso País, que não conhece tanto de cultura anglo-americana assim para compreender o tamanho da dominação cultural das elites e a velha relação de dominados e dominantes expressa uma simples 'gíria'? Aliás, 1984 fala do crimepensar, naquela língua maquinalmente produzida para reduzir expressões e ...significados . Tudo tão angustiante.
Outra velha angústia que exorcizo agora: fui comprar carne no supermercado e ela estava ROSA. Rosinha, como a pele alva tão descrita nos romances que acabam com a estima de 57 milhões de mulheres pretas e pardas desse nosso país racista, misógino, homofóbico e fodido que xinga argentinos de racistas (não que eles não sejam) - perdoem a perda do prumo.
Sim, carne rosa e sem sangue, muito limpinha. Pronta para não ter gosto de NADA. Para servir para a balança que mede 120 g dos malhados de academia e não sujar a roupa daquele que trabalha e chega tarde para cozinhar. Aquela merda sem gosto que levei para casa sabendo que estou tão perdida quanto todo mundo, aqui.
E eu e tu sabemos que o corpo humano já possui elementos de plástico até no cérebro. Dizer que isso não é mutação de orgânico para ultraprocessado é bobagem. Puro otimismo. Os tempos nunca deixaram de ser o que são: velozes e vorazes.
Não digam que estou ficando velha e repetindo um papo cliché. Se bem que, é: talvez esteja. Todos os velhos repetem coisas bonitas do passado e esse é um jeito torto de sobreviver à mediocridade nossa de cada tempo, nunca menor ou maior: são hipocrisias reinventadas.
Se disso tu achas que não nascem movimentos como o Bolsonarismo e essa gente toda que quer ser salva de seus próprios pecados - a mesma lógica irracional do NAZISMO e de todas as grandes tragédias da humanidade, apenas não me leia- não tenho mais tanta paciência para debater, a não ser em sala de aula - aonde ainda rego sementes e sou regada por elas.
E eu não trago muitas respostas, neste texto hostil, que mais parece uma metralhadora de angústias. Na verdade, nunca traguei nada e nem precisei para ficar maluca e sinceramente não guardo opinião de quem faz isso para se salvar desse sentimento abissal que é se perceber humano.
A poesia me salva da ideia de tempos modernos, por cerca de uma hora e meia, ou o tempo em que demoro a acabar um livro bom...ou por 5 minutos daquela música que me enternece...beijar e abraçar alguém que amo, sabendo que somos uns enlatados gostosinhos...sei lá. Quem sabe com um pouco de sabor.
Eu só queria mesmo um jeito de não ser um produto ultraprocessado e colocado na bandeja, para ser consumida pelo tempo, entre gírias de laboratório, tônicos para crescer músculos fantasiosos, legumes nascidos milagrosamente cada vez maiores e conceitos resumidos por IA.
Mas estou esperançosa, pois ontem um OVNI foi visto dando uma voltinha pelas bandas de Macapá. Será que existe vida em Marte?
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