segunda-feira, 1 de junho de 2026

Boemia é charme, bebum é chato - Malandro é chique, otário, um saco (Filosofia seca do boteco da Lua)


 'Eu vou fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais..."



Como sabemos, eu sou mais do cafézinho do que da noitada, mais da água com gás do que da cachaça.Então, porque a sessão de filosofia deste canto aqui se chama Boteco da Lua e não cafézinho encantado da Lua?

Bom, a primeira questão é... ''a paixão que mora na filosofia''.

Ninguém que aborde a vida em suas inacreditáveis vertentes, que lide com o absurdo existencial abissal das emoções...suporta a vida sem uma ajudinha. E aí, cada um com seu 'veneno'. Ou com seus venenos. Eu conheci muita gente interessante que só sobrevive (literalmente sem perder o réu primário) porque aprendeu a sentar no boteco com outras pessoas também porretas para partilhar merdas: Sortes e desventuras do cotidiano.

Na mesa do boteco vale tudo: piada 5a série entremeada às notas existenciais de Sartre ou Nietszche, lágrimas de desamor, traição, eternidade...atração. Foda.A vida é foda e não julgue este espaço pela palavra forte, tu tens mais de 18 anos e eu já dobrei essa conta.

Poesia. Declamada ou existencial. Memória. Revisada, ou sentida, falada e percebida...

Isso aqui não é um ode ao etilismo até porque eu sou a pessoa que menos bebe que eu conheça, que gosta de boteco. Eu gosto de gente no boteco. De barulho de boteco, de música de boteco, aquele sambinha balança logo as polpas do meu coração, aquela MPB deixa logo um poema engatinhando...

Mas, veja bem. Ser 'malandro' não é para qualquer um. O malandro real - e não 'o regular profissional'  - é o charme da Boemia - não é um cara engatilhando uma frivolidade atrás da outra com uma latinha na mão. O malandro, antes de ir ao boteco, BEBE A VIDA - e isso temos em comum..

O malandro entende de etilismo e não de elitismo - não confundir os entendimentos.Não bebe latinha, entorna litrão, igual faz com a existência: Sabe que é muita onda, muita água existir. Um tsunami. 

O malandro gosta de histórias, sabe ouvir, gosta de ouvir. É inabalável no baixo julgamento do outro: porque sabe que a matéria humana é densa demais para ser ouvida aquilatada.  Isso porque, o malandro sabe que tem coisa que não preste, dentro de si: imprestável mesmo (E se tu não se achas estragado em nada, ô, sai daqui, pavulagem).

O malandro tem paixão pela vida, por isso, desperta paixões...e, geralmente, a vida gosta dele, pois reconhece sua 'autoridade' para o assunto experienciar. Sim, criei a palavra, no estilo Paulo Freire, que é um grande educador. Aliás, o malandro é aprendiz. E é incansável nessa coisa de aprender. 

Por isso, o malandro entende de química. Sabe que a vida é alquimia e, ainda assim, muitas vezes, perde a dose...porque é desmedido. Ou seja, nem todo malandro está bêbado, mas pode ficar. E é maluco.  Acontece.

Por isso, geralmente, a Boemia dá canseira. O malandro envelhece, é fato - se tiver muita sorte e um anjo trabalhador. Não fica idoso gourmand: aquela pessoa toda esticadinha e empoadinha. O malhado da academia de ginástica. Eventualmente, vai ou pode parar na Academia de Letras (risos).

Não, o malandro não tem tempo para tanto espelho: Fica velho gostoso. Sabe, pessoa gostosa? aquela que a gente gosta de esticar o papo, de virar a madrugada conversando, de ver o sol nascer trocando vida...exalando essência, energia, realidade...buscando vida...admirando a lua. Ou usufruindo da madrugada.

O malandro está à vontade e deixa as pessoas à vontade. 

Agora, não confundir Boemia com Bebum e nem Malandro com otário, o tal 'regular profisisonal'Porque mesa de bar é como a roda da vida: pode virar um saco, pode ser um tédio, ou algo apenas comum...ao lado das pessoas erradas. 

Mas pode ser inacreditavelmente engraçada, bacana e real... com as pessoas (in)certas - ou seja...aquelas que não têm tantas certezas.

E cada um prova da vida o que gosta. 

(risos)

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Esse texto surgiu quase todinho, na minha cabeça, ao sair da cada do Fernando Canto, pois fui abraçar "a mulher da chuva e do sol do equador"  e, entre copinhos de água, saí bêbada de...boas recordações e afeto. Histórias de grande amor. Amor latente, gostoso, vívido e vivido. Mais que dividido, partilhado.

Ah!  Impossível não sair de lá toda alimentada de arte. Impossível não pensar...que o amor encontra mil jeitos de voltar para casa. Impossível não sentir vontade de tomar um vinho.  

O luto já começa à dar lugar à arte, aqui pelo aluanaodorme. E a arte é sempre presença. E este texto é também uma homenagem ao Fernando Pimentel Canto, que aliás fazia parte...da "Boêmios do Laguinho''.   :P

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