sexta-feira, 5 de junho de 2026

Amadores!





O amor dá a mão às três da tarde
Cuida daquela febre e dor do domingo
Mas também é aquela tarde de riso
Inteiramente entregues ao conforto de existir...

Amor deixa café quente na garrafa
Beija e abençoa antes de pegar a estrada
Vai já com vontade de voltar
grata certeza de querer ficar...

O Amor é  profundamente leal a si, em si
beleza que te nocauteia no meio da madrugada
deixa recado na caixa eletrônica,
erra,tropeça e volta, assustado

entre o perdão e o colo...

Amor ensina tudo, menos como amar.

A paciência para aquele hábito esquisito
a geografia das palavras do outro, sempre repetidas
 e o vocabulário terno das coisas bem-vindas
a universo  particular das coisas acrescidas...

Amor leva ao futuro, ao antes... e depois
Vive entre o agora e as promessas bem-cumpridas, é feijão com arroz!
Mistério profundo:  não tem  PHDs, mestres ou doutores
No espaço de sentir, somos todos amadores.

#


* Republicado de 12.09.2018, pois foi bem acessado.


LUZ!


Inteiramente Aqui

                                                       


 Eu sei, 

Não sou a pessoa mais exata do mundo
Tomo cafés amargos com bolos de chocolate
Gosto de pingos de água, tempestade emocional 
Verdadeiro vendaval

Sorrio para o nada, mas não falo nem boa tarde a estranhos
Faço pouco cálculo: horas, dias
Perdas, ganhos.
Deve ser difícil esperar de mim alguma precisão...

Não tente, bem.

Eu, por fim, já desisti
Prefiro sentir, acolher e perceber
Estender meu coração 
Acolher a dualidade

E bem-viver...

Mas, será que o mundo inteiro não é mesmo assim?
Se não existe nem mesmo um único grão de areia igual
Porque pedir métrica de mim?
Não faça isso, bem...não alargue nossos espaços por esperar o que não sou
Apenas abraça-me enquanto estou

Inteiramente aqui...

#


P.s: Republiquei este poema de 21.03, porque fiz  a reflexão sobre a série.

LUZ!  :)


E se eu for o Sr. Big. E se eu for...o Aidan? ( Ei, vamos brincar de Power Rangers com Sex And The City? - Filosofia do Boteco da Lua)


Prólogo:

Ei, tu já brincaste de ser o power ranger? Bom,  considerando que estamos na plataforma blogspot...deves ter vivido os anos 2000. Pois então. Eu sempre queria ser Power Ranger Vermelha. 

Ocorre que eu faço isso em séries, também. Escolho um personagem e brinco de estar 'por lá'. 

Bom, a questão é que Sex and the City vai sair da Netflix e...estou vendo a série com outros olhos. Eu estou brincando de power ranger. 

 Ok, vocês podem ter enjoado de Sex And the CityÉ tão anos 90! Mas acontece que nos anos 90 eu tinha 5/6 anos. E até os anos 2000, eu brincava mesmo era de Power Ranger.

Agora que deu para me apaixonar pela série, então aceitem meu delay. Então, voilá à questão.

A Questão

Como todos sabemos, a série é contada sob a perspectiva da  Carrie, que escreve sobre relacionamentos em uma cidade grande - e não exatamente apenas sexo, como o nome sugere. Carrie vive uma intensa relação de amizade com suas outras 3 amigas, em um grupo de mulheres que têm uma relação linda e singular:  mulheres independentes em uma cidade grande, que vivenciam a experiência da independência, cada uma à sua maneira.

...não me identifico, particularmente, com nenhuma delas. 

Não me vejo em Samantha - e bem que a acho sexy, mas é uma mulher criada por um roteirista homem. Nem com Miranda, uma advogada ruiva que luta com a ideia de não querer uma vida suburbana clássica. Tampouco com Charlotte, que quer muito casar...com quem a queira - e não com quem ela quer. 

Bom, gosto delas. Mas não me identifico. Compreendo seus dilemas femininos e admiro suas autonomias...mas não sou 'uma delas'. Por um tempo, cogitei  e me preocupei que eu fosse... o Sr. Big.  O sr Big já me deu sessões de barzinho e, pasmemmm, umas duas cervejas...pois brincar de power ranger é perigoso, faz a gente se preocupar em quem somos NO MUNDO. Para o mundo. Para as pessoas ao redor...e pior: Para nós mesmos.

O Sr. Big é uma pessoa que sai correndo quando o coraçãozinho bate mais forte . Uma figura carismática, capaz de discernir afeto e senti-lo...desde que a dose seja homeopática (bom, o seu final é muito simbólico, inclusive).

Tu podes dizer...Jaci, tu até és poeta. Não tens como ser o Sr. Big. 

Ora, meu caro. Não julgue o Sr.Big pela aparente superficialidade. Na verdade, todo mundo tem uma história para contar e, depois de um caldo, qualquer um pode brincar de Power Ranger sendo ... o Sr. Big.

Okay? ...Okay.

Mas, na terceira temporada, surge um personagem singular. O Aidan.

E o carinha é simplesmente ...diferente. Aidan está tranquilo na existência, cuidando da sua própria bagunça. É artista, está profissionalmente se firmando, tem amigos, pais e...não está procurando nada. O cara apenas singulariza suas relações e tece os vínculos de afeto com delicadeza. Não à toa, Aidan é marceneiro.

Uma coisa adorável no relacionamento que forma com Carrie é sua disponibilidade emocional para ESTAR. E sua estabilidade emocional para ...SAIR. Em vários episódios, Aidan fala a linguagem do 'Gosto e preciso de ti, mas quero logo explicar...não gosto porque preciso, preciso sim...por gostar' .

Tu podes me perguntar: Jaci, e por que não ser a Carrie? tu até escreves! 

Bom, um motivo simples: Carrie não é disponível, de verdade. Carrie se apaixona no primeiro episódio pelo Sr. Big, e como tenta com ele um relacionamento que perdura por dois anos e  este é um desastre, ela sai por aí - solteira emocionalmente indisponível por Manhattan. 

 É duro dizer isso, mas é a realidade.

De conhecer esses perfis todos, na 3a temporada eu estava preocupada: E SE EU FOR...o AIDAN?  Tu podes dizer: sorte a tua, Jaci!  Bom, sinceramente,  depois de pensar um bocado, eu também acho. Porque eu nunca quis ser o personagem principal, aquela galera que sofre horrores e tem suas vidas profundamente marcadas por doses cavalares de 'coragens' e reviravoltas.

Eu gosto da ideia de ser coadjuvante do drama cármico do Universo. Uma vida mais 'colaborativa' com o todo e harmônica com esse a existência. Dá trabalho, de todo jeito, mas não é trágico.  Porque bate um coração que coopera e convive com esse bando de personagens - e pasmem, em plena vida real, a gente tem de lidar com gente dublê.

Epílogo:

O problema .. é a Carrie. E o Sr. Big.

E esse universo bem maior e mais confuso que Sex And the City.

#

 (Terminei essa filosofia de boteco na madrugada. Perdoe aí se tiver algo fora de contexto, será revisado)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Tem gente!





 Tem gente que só de a gente saber que existe dá um quentinho no coração, não é?

Gente que conversa macio, que a gente não vê o tempo passar...que tudo parece mais: mais quente, mais terno, mais interessante. Tem gente que está escorrendo sal sendo açúcar na nossa existência. Tem gente que escolhe presença ativa e que a gente sente um prazer danado em acomodar no dia.

Tem gente para quem a gente quer contar as coisas e com quem a gente pode contar...que a gente quer por perto...que sente falta...aproxima. Tem gente honesta, batalhadora, interessante, se encontrando para tomar um café, antes das seis, para falar de muitas formas como a estrada é sobre lealdade. Amizade, amizade bruta mesmo, daquela que não distingue nada: sexo, orientação, idade, sobrenome, religião...

Tem gente que chega e vira irmão no meio de uma piração dadana.

Tem gente com quem a gente não precisa 'performar' nada: vira quarta, quinta, sexta e sábado na netflix ou na noitada. E acorda novinho em folha, porque se sente...gente. Tem gente que parece nosso livro favorito: é filosofia pura, notas existenciais sobre existir. E, ainda assim, capaz de rir...de fazer rir...de ser gostosa...com bobices e manias, gente que é toda bordadinha, feita de detalhes...

É, tem gente que recarrega a gente. Com uma poesia, uma piada. Uma receita nova! Comidinha boa...um olhar quentinho. É, tem gente que é calor humano e isso, por si, já é um poema. Gente que teima e que conecta e que espalha acolhimento, mesmo quando a vida tá confusa. Tem gente que não tem tempo para nada, mas que para tudo para te abraçar. Para te acompanhar.  Que te conhece como as linhas de um lar. Que te faz respirar melhor só de saber que existe...

Tem gente que erra e aprende o caminho do acerto. Que volta, reconecta, reconhece a singularidade afeto. Tem gente que nem diz nada, só não repete o ato. E que não pede desculpas, mas aparece com um café quentinho, para refazer o laço...

Tem gente que a gente quer fazer qualquer coisa e 'qualquer nada' juntos. Que a gente nem quer escolher, só estar e acomodar. Que é bom até estar em silêncio e respirar...presença.

Tem um montão de gente que sara enquanto sangra, porque reconhece na ternura sua força maior. Tem tanta gente administrando sua confusão sem confundir ninguém, fazendo da vida um lugar honesto, interessante, colorido e colorível, formando laços, conexões e significados, aprendendo em conjunto como existir pode ser bom... como sentir é bonito...

Tem gente que brota um jardim no coração e que faz a gente descansar enquanto dança. 

Como se fosse um flow, uma magia quântica...

#

Ps: Fiz ainda ontem, para um amigo, que estava triste e  me disse que não sabe se existe gente legal no planeta. Pensei nas várias pessoas incríveis que compõem nosso acorde universal e fiz esse texto. Tem muito da minha experiência pessoal nele, mas espero que sirva para te lembrar...que  tá cheio de gente bacana, SIM. 
E os demais? como diz a Ester...ficam ali, naquela estante.
(Resolvi partilhar, para lembra para ti, que me lê...que viver é muito legal)
E acredite: tem gente bacana. 

"Não é trilho, é trilha"*: Faça o que tem de ser feito! ( Da sessão recém criada: As bruxas mágicas da minha Aldeia)




Fui vê-la. 

Seu mesmo olhar meigo machucou meu coração que se sente uma merda de frágil, nessas horas. Como sempre, essa mulher exala força.

- Como estamos? - Sorri.
'Faço o que tem que ser feito' - Ela respondeu.
Aliás...ela já me disse isso, há uns anos atrás, quando fiz essa mesma pergunta.
Inacreditavelmente forte, jovem e ternural, no meio das coisas duras da vida.
Ficamos em silêncio, mas logo engatilhamos o papo para um algo em comum: A nossa saudade. 
Mas ela ria doce, ao falar. 

No meio deste caminho, eu estava me perguntando um monte de coisas em silêncio, e ela solta esta pérola: Jaci, viver não é trilho, é trilha. Bagunçou meu coração. 

Adoro linhas retas. Tenho fotos nos trilhos do trem. Adoro alinhamento de coisas, coisas que se encaixam...acho tão bela a harmonia do enquadramento. Compreendo as 'paralelas' do Bel como a singularidade da perfeição...todo mundo é uma paralela? será? - Já escrevi sobre isso, por aqui. 

Tenho algumas recordações das  trilhas da vida, e das vezes em que plantei flores sobre pedregulhos. Deu certo, foi bom. Mas eu nunca penso na estrada como algo assim e isso me chocou...

E, de repente, ele - a nossa saudade -  sentou conosco e a lua no jardim ficou GIGANTE.

Ela acendeu um cigarro e parecia uma bruxa mágica, aliás...ela é uma bruxa mágica (acredite, existem bruxas comuns, depois que virou moda. E fadas más, que são outros 500). E me contou umas coisas de gente real: do amor como ato político, da negociação e da escolha cotidiana, do cru que existe em toda carne que é real. E da mística mágica de partilhar como ato. Como gesto. Não é algo fácil. 

Ela me falava do romance como algo construível e mais: não linear. Da não romantização do romance (alô, Kundera!).

Nessas horas, a literatura parece pouco, sabe? ouvir como um amor pode ser partilhado entre  bilhetes enamorados e tempo para o outro respirar.   Espaço para a piração do cotidiano, força para não romper o laço, flexibilidade para esticar o espaço e compatibilizar a química elementar de cada um. Escolher. Colher o escolhido, mas também o fruto que vem da equação.

De quando a força encontra com a força e ninguém precisa quebrar o fluxo, mesmo assim não sai desastre, mas sim conformação. Que a imperfeição e a perfeição são conceitos particulares, íntimos. Que, na vida real e possível, nada é linha reta- ou seja, não pode ser de paralelas. Existir é de se trilhar... 

De ouvir tanta coisa, pensei: Essa mulher é forte. Como é forte ( E pensar que a gente chama de sorte quando não conhece 'a trilha'). 

Falando coisas tão complexas, ela seguia ali, calma, me ensinando a como tomar água de sol e me alimentar da química elementar do universo para caminhar ...

É por isso que inspirou o amor daquele cara que olhava para ela, naquele momento, todo cheio de ternura. Fiquei encabulada, de ver e sentir aquela energia elementar natural. Falei menos, não quis incomodar eles dois. E também bem honrada, por ser eu a partilhar aquele momento. Sei que tem mais gente com quem fazem isso, porque são imensos...

Saí de lá sem saudades, alimentada de poesia. Em estado de.

Não aquela poesia toda rimadinha que eu gosto tanto, mas sim aquela que tem meio-fio quebrado e trilhas tortas do destino, que fala de dose como antídodo ou veneno e ensina que a imperfeição também é linda e, que nela, por distração, encontramos ...felicidade e beleza.


Não é trilho, é trilha.   E eu não sou boa com isso. Mas, quem é?

Façamos valer.

É o que tem que ser feito.



#

Responsabilidades Ternas

 



O dia vem, vestido de azul
Céu limpo, tempo claro
O resto é abstrato
Ainda não se deu de descobrir...

A vida tem uma lógica particular e clara:
Mesmo o que o olho neste instante vê
é feito de coisas milimetricamente passadas
Assim, somos eternos viajantes do tempo

Apenas demoramos - ou não percebemos -
O quão importante é o momento.

E de saber disso tudo, decido:
Quero toda a paz que puder construir  - Bons ventos!
Momentos e emoções blindadas de poesia
Caminhar de par em par com o riso, a bondade e a poesia...

Pois aprendi e entendi:  é sempre agora!
Estava escrito, mas é escolha - não se demora -
Um segundo pode mudar definitivamente a rota
Responsabilidade terna - é a meta.

Pois alguém me disse - e eu me faço cada vez mais -
 dona da própria história...

Responsabilidade com emoções - as minhas, as de quem toco
Pois somos canções e perfumes, permeados de carne, suor e sangue
Encarcerados dentro de frascos que só podem caminhar um passo por vez
Feito um rei dentro de seu próprio jogo de xadrez...

Por isso, para mim e para ti: "Amor e compaixão"
Dentro de um mundo onde tudo é tão confuso, disperso
Somos elos em conexão, pontos de luz em uma imensa jornada
Fontes de energia que encontram, dispersam e convergem

Em busca de nossa íntima e interconectada estrada...

#


Dias bonitos. :)

LUZ!

terça-feira, 2 de junho de 2026

Metafísica



O conta-gotas vida não diz nada
Águas abissais remam a maré
E só quem sabe quem se é
Mergulha no caos de si...

Em busca da liquidez  do (pró)fundo
A escorrer seus próprios absurdos
Sem medo do res ultado
Pela força do impulso vital cultivado...

Acrescer!  Expandir na multiplicação da implosão
Consumir o tempo e por ele não ser consumido
Independer da física para o sentido...
Leis do espaço,do passo, gravidade?

Ao plural da ciência  essa distinção!
Pulso a força de ser  coração
ritual  limiar entre o eterno e o segundo: Ser louca!
Verbo e  riso a escorrer no canto da boca...

#
Ah! como é bom ser louca...
(Republicado de 19.01. 2015, pois acessado e relembrado)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ternural*

Força
É paz
Não faz barulho, não brilha para ofuscar...
A natureza se refaz
Sem alarde

O fogo arde intensidades...e tudo isso é bom:
Carbono – deserto – composição!
Das estrelas
Nossas mãos.
 
União é bênção ...parece simples, mas é complexo
...Como tudo em nós.

Viver..."não é trilho, é trilha! "
Fui ensinada - ainda ontem - por  Sonia Canto
Mas isso não pode assustar e sim...mover
Galáxias podem se afastar ou reaproximar

Mas as paralelas se reencontram no infinito
Como é bonito pensar nas coisas todas que podemos ser quando já fomos...
Força...é paz: 
A natureza se refaz

Porque a força é...ternural


#
 

* Fiz esse poema após conversar com Sônia Canto sobre ...amor. (Con)Viver,amar.  Experimentar a existência ao lado de um grande amor. Conformar personalidades...escolher quem queremos ser e quem somos com o outro. Apesar de muito romântico, sentir é um ato político: resistência e afeto. Mas também negociar a ação: negociação. Achei muito parecido com um negócio jurídico, inclusive (risos). Tudo envolve muita honestidade, força delicada, ternura.

Comentei com essa percepção com ela - de que sinto uma força terna em sua presença. Ela riu e partilhou que Fernando a chamava de 'ternural'. Que lindeza. E aí o poema fez o caminho de casa...

Que os amores tenham a sorte e a coragem de serem enormes. E ternurais

Boemia é charme, bebum é chato - Malandro é chique, otário, um saco (Filosofia seca do boteco da Lua)


 'Eu vou fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais..."



Como sabemos, eu sou mais do cafézinho do que da noitada, mais da água com gás do que da cachaça.Então, porque a sessão de filosofia deste canto aqui se chama Boteco da Lua e não cafézinho encantado da Lua?

Bom, a primeira questão é... ''a paixão que mora na filosofia''.

Ninguém que aborde a vida em suas inacreditáveis vertentes, que lide com o absurdo existencial abissal das emoções...suporta a vida sem uma ajudinha. E aí, cada um com seu 'veneno'. Ou com seus venenos. Eu conheci muita gente interessante que só sobrevive (literalmente sem perder o réu primário) porque aprendeu a sentar no boteco com outras pessoas também porretas para partilhar merdas: Sortes e desventuras do cotidiano.

Na mesa do boteco vale tudo: piada 5a série entremeada às notas existenciais de Sartre ou Nietszche, lágrimas de desamor, traição, eternidade...atração. Foda.A vida é foda e não julgue este espaço pela palavra forte, tu tens mais de 18 anos e eu já dobrei essa conta.

Poesia. Declamada ou existencial. Memória. Revisada, ou sentida, falada e percebida...

Isso aqui não é um ode ao etilismo até porque eu sou a pessoa que menos bebe que eu conheça, que gosta de boteco. Eu gosto de gente no boteco. De barulho de boteco, de música de boteco, aquele sambinha balança logo as polpas do meu coração, aquela MPB deixa logo um poema engatinhando...

Mas, veja bem. Ser 'malandro' não é para qualquer um. O malandro real - e não 'o regular profissional'  - é o charme da Boemia - não é um cara engatilhando uma frivolidade atrás da outra com uma latinha na mão. O malandro, antes de ir ao boteco, BEBE A VIDA - e isso temos em comum..

O malandro entende de etilismo e não de elitismo - não confundir os entendimentos.Não bebe latinha, entorna litrão, igual faz com a existência: Sabe que é muita onda, muita água existir. Um tsunami. 

O malandro gosta de histórias, sabe ouvir, gosta de ouvir. É inabalável no baixo julgamento do outro: porque sabe que a matéria humana é densa demais para ser ouvida aquilatada.  Isso porque, o malandro sabe que tem coisa que não preste, dentro de si: imprestável mesmo (E se tu não se achas estragado em nada, ô, sai daqui, pavulagem).

O malandro tem paixão pela vida, por isso, desperta paixões...e, geralmente, a vida gosta dele, pois reconhece sua 'autoridade' para o assunto experienciar. Sim, criei a palavra, no estilo Paulo Freire, que é um grande educador. Aliás, o malandro é aprendiz. E é incansável nessa coisa de aprender. 

Por isso, o malandro entende de química. Sabe que a vida é alquimia e, ainda assim, muitas vezes, perde a dose...porque é desmedido. Ou seja, nem todo malandro está bêbado, mas pode ficar. E é maluco.  Acontece.

Por isso, geralmente, a Boemia dá canseira. O malandro envelhece, é fato - se tiver muita sorte e um anjo trabalhador. Não fica idoso gourmand: aquela pessoa toda esticadinha e empoadinha. O malhado da academia de ginástica (e isso também não é um ode ao sedentarismo, eu malho e conheço gente bacana que também o faz). 

Não, o malandro não tem tempo para tanto espelho: Fica velho gostoso. Sabe, pessoa gostosa? aquela que a gente gosta de esticar o papo, de virar a madrugada conversando, de ver o sol nascer trocando vida...exalando essência, energia, realidade...buscando vida...admirando a lua. Ou usufruindo da madrugada. 

O malandro está à vontade e deixa as pessoas à vontade. 

Agora, não confundir Boemia com Bebum e nem Malandro com otário, o tal 'regular profisisonal'Porque mesa de bar é como a roda da vida: pode virar um saco, pode ser um tédio, ou algo apenas comum...ao lado das pessoas erradas. 

Mas pode ser inacreditavelmente engraçada, bacana e real... com as pessoas (in)certas - ou seja...aquelas que não têm tantas certezas.

E cada um prova da vida o que gosta. 

(risos)

#


Esse texto surgiu quase todinho, na minha cabeça, ao sair da cada do Fernando Canto, pois fui abraçar "a mulher da chuva e do sol do equador"  e, entre copinhos de água, saí bêbada de...boas recordações e afeto. Histórias de grande amor. Amor latente, gostoso, vívido e vivido. Mais que dividido, partilhado.

Ah!  Impossível não sair de lá toda alimentada de arte. Impossível não pensar...que o amor encontra mil jeitos de voltar para casa. Impossível não sentir vontade de tomar um vinho.  

O luto já começa à dar lugar à arte, aqui pelo aluanaodorme. E a arte é sempre presença. E este texto é também uma homenagem ao Fernando Pimentel Canto, que aliás fazia parte...da "Boêmios do Laguinho''.   :P

sábado, 30 de maio de 2026

Muitas viagens em um Big Bang: Fernando Canto.


Ei, tu sabias que existiu um big bang em pleno equador? Pois é. 

O big bang, ao contrário do que prediz sua nomenclatura, não foi uma explosão, foi a expansão de toda matéria, energia e espaço do universo. Foi a viagem da densidade que encontrou espaço para formar o ambiente primitivo natural, de onde surge toda a forma que concebemos de vida,  e é a teoria que Deus nos deu de mais concebível, cientificamente, para a concepção do Universo (risos).

Bom, mas o que isso tem a ver com Fernando Canto?

Para explicar, volto uns passinhos no tempo. A primeira vez que vi o Canto ele não me viu.  Pudera. Eu ganhei um conto deste autor, do meu pai. Uma coisa simplesmente monumental, chamado de ‘O Bálsamo’. Incrível a ponto de arrepiar. Tão, tão realismo mágico que facilmente se concretiza na realidade, basta acomodar à cada situação ou análise. 

Depois do conto, não parou mais. Vez ou outra eu e papai íamos vê-lo na livraria. Ou papai me trazia algo...e como eu era fã do Fernando Canto. Como foi incrível debater a realidade do Amapá por suas lentes mágicas de dedilhar o mundo pela escrita.

Como sabemos, a escrita de Fernando não é fácil. Não é literatura de conforto, é feita para incomodar, arranha a realidade da modernidade porque se aprofunda aonde tudo é tão cliché ou palatável, com desfechos que, de forma abissal, fazem um mergulho do qual é impossível não submergir modificado.

Uma antítese uma escrita tão aguda para um ser tão gentil.

Eu era muito menina quando virei sua fã. Afinal, em 1995, eu devia ter o quê? 10 anos? ...

Os anos passam, e ‘os anjos levaram meu pai pelas mãos’...mas o amor pela poesia, literatura e escrita ficaram. E isso me levou para os lados dessa gente ‘fina, elegante e sincera’. Novas conexões. Algumas surpresas. Fernando. Alcinea....Ester.

Você já conheceu um ídolo? Já se tornou amigo dele?...pois é. EU SIM!

E que acontecimento é esse cara. Conhecer um ídolo é ver uma espécie de Deus descer ao céu para sentar ao nosso lado e tomar uma cerveja. Não é exagero e Deus sabe que não blasfemo.

Você entende melhor o escritor quando compreende que seu UNIVERSO É A BELEZA DA EXISTÊNCIA HUMANA: pura matéria, energia e espaço...em expansão: Um big bang em pleno equador. 

 Fernando compunha o realismo fantástico da amazônia  para falar da vida, porque sabia que a vida é mágica, ou não é vida. E usava de poética sutil e refinada, ética e técnica apaixonada, para construir sua escrita científica, porque sabia que a ciência é cheia de ternura, ou não é ciência. Fernando que conversou com as pedras da fortaleza e deu voz à sua trajetória, tão nossa. Que poetizou gente, que virou o zezeu em tudo que é canto: carnaval, poesia, música, história, sociologia, universidade!

Colossal,  sem deixar de prestar atenção nas coisas pequenas. Com atributos que flertavam com o de uma deidade – mas impossível de ser nominado assim. Porque sua humanidade latente, presente, absolutamente multifacetada e real, o colocava aqui, aonde a vida acontece. E quanta alegria em fazer parte da humanidade: poesia, cachaça, carnaval, gente. Universidade Equatorial, ciência social, vida humana, atravessando o sangue. Borboletas amarelas!

Luz! E Assombros... É, Fernando. Viver tem mesmo tanto disso.

Fernando de tantas pessoas, tantas...da mulher amada, dos filhos e netos, do debate literário, do boteco, do Pilão, do Carnaval, da sala de aula.  Fernando das obras de arte, de sua vida e de sua casa, do cafezinho da tarde e da boemia das madrugadas.

Fernando de tantos amigos, porque dedicou presença sincera e real. De tanto amor, porque exalava essência. Do olhar atento, da sapiência discreta, ávido pela vida que produz mais vida: para uma poesia nova, uma nova geração de poetas. Sempre contanto uma história, legado vivo de um passado que viajou com ele. Um livro que se conectava a um poema, um estilo...

Fernando que, sendo tão gigante, aquilatou sua efemeridade e sentou com os amigos e falou abertamente sobre o dom da vida e a possibilidade de partir...(disse a ele, umas duas vezes,que não conceberia nunca conceberia algo assim).

Não tem descrição que comporte sua genialidade quente, presente. Fernando de tanto amor e de tanta gente. Impossível de encerrar. Nem como gente, nem em texto. Porque vida real só pode produzir mais vida. Mais e mais...infinita e imortal.  É, o big bang não fez barulho, pois não existia o som ainda. Então, fez-se o Fernando, canto, canção, composição e tudo o mais...sim, uma viagem de matéria em expansão.  

Fernando Canto, um acontecimento, um big bang no dia 29 de Maio. Sendo tanto, ainda assim, tão cheio daquela simplicidade discreta, timidez universal e mente abundante. Amigo de gente velha, de gente nova, de PESSOAS. Fernando, uma vi-a-gem! Para mil lugares diferentes, lá dentro daquele escritório mágico. Ou no jardim, ou no boteco...menos para Caiena.

 Ouviste, Canto? Nunca, nada de Caiena para ti. 




#

Escrevi este texto em lágrimas feitas de poesia. Me perdoem se não fizer sentido. Demorei um ano e meio para mandar este recado ao Universo. E o fiz depois de ler as coisas incríveis que disseram no livro 'Fernando de todos os Cantos", que está lindo...


Regatão



Navegar a vida
Trazer o doce, trazer o sal
O néctar para enfrentar o temporal:
Ancorar o coração sem naufragar a nau:

ser mais leve que a densidade...

Amar: guardar. Admirar. Proteger!
O passado que não é apenas retrato: é carne 
O presente lembra o ato...e celebra:
Orgulho imenso do mapa e da geologia, do trajeto e da geografia...

A gente  é o mar  ou o rio...o  que nos concebe?
A maré flui,  nos empurra para o cais
Mas, é preciso mais...a gente sempre quer mais...
Ser gente é ser tanto.

Carregar um regatão de emoção dentro de si!
Dar conta da viagem e da bagagem
Pequenas quinquilharias, micro-universos sentimentais:
Museu particular de ser gente!
Quente, latente

Que segue pelo espaço sideral...




#

Hoje li sobre os regatões, na Amazônia. 
Meu avô tinha um regatão.
Eu sou um.

E tu? :)







sexta-feira, 29 de maio de 2026

A tragédia alheia (republicado de 01.09.2015)

            


Encheu-me os olhos de água aquela história não sentida pelo meu coração.
Só ouvida. Eu não queria que aquele ser humano, com olhos de bicho ferido, não tivesse passado por aquela dor. Só não queria ver dor em tantos lugares...
Gente morreu na França porque ninguém consegue olhar o outro e respeitar as convicções alheias. Pessoas morrem todos os dias, internamente ou faticamente, porque a tolerância e os ouvidos do mundo andam empobrecidos. Todo mundo e cada um é "O grande ditador",mas só Hitler foi para o inferno.
Algumas pessoas só precisam falar. Outras,apenas ser.Que tem tu com a verdade do outro?
Terminei "O livro do desassossego" ontem pela madrugada e vi que nem o Pessoa queria muito ser Pessoa. Tanto que virou 'Pessoas'. Heterônimos. Para falar suas verdades, ele criou vários de si.O mundo já andava caótico.
Estamos indignados por Paris e a tragédia de Charlie. Não é para menos. 
Mas também estou indignada pela recessão do meu país que vai se agravar esse ano, com a nossa gente "honesta,boa e comovida" que vai trabalhar 2.600h esse ano para pagar por serviços que não vai usufruir dignamente. Pelo sistema político, por tentar ser cidadã dignamente em um local que desrespeita os seus. Por precisar haver tantos advogados e instrumentos para dar o que é de direito. Pela ausência de acesso da maioria, pelo dia que amanhece enquanto inúmeros do meu povo acordam sem o alimento e  esclarecimento.
Eu estou indignada porque vivemos de modismos torrenciais de tragédias, como se elas de fato, fossem fatos isolados do que,na verdade, têm sido a sequência lógica de uma comunidade mundial insana. Porque agora todo mundo é "Charlie", mas daqui a pouco todo mundo é outra coisa, e depois dessa outra coisa a gente esquece tudo!
Porque a violência não nasce e morre no Islamismo, mas em todos nós, em nosso país, que não combate nada de frente e enjoa dessa conversa de 'amar e mudar as coisas' pelo próximo evento, festa, momento.
Pelo mesmo motivo da tragédia de Paris? Todas são torpezas humanas, cada uma à sua maneira.
Quantas histórias, vidas, dores passam pelo teu dia sem que tu olhes de volta?
A tragédia alheia comove mais do que a nossa? Toda tragédia é parte de um pouco de nosso fracasso como humanidade.

Ainda quero acreditar que temos aquela chance que o poeta cantou. Mas

"Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá...
(...)
Vou consertar a minha asa quebrada..."

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Outros ensaios sobre nós



A chuva cai sob céus feitos de paz
O céu em estado líquido o chão alcança
A vida calmamente reorganiza a substância
Coloca tudo no lugar...

Certeza é caminhar
sorrir...gargalhar!
Ser generosa no sentir
Fazer feliz...ser feliz...

Fazer valer o gasto do gesto:
Conectar
Unir, formar elos
Certezas simples que se consolidam nos dias...

Me faça rir
Sentir segura, perto:
Te dou o mundo em muitos formatos
Sou tantos perfumes em um único frasco...

Sentir não é ensaiar: a vida existe sem roteiro
Admirar a ação é admiração:
Tão bonito, isso.
Tão singelo e singular...

Não faz molecagem na sala do meu coração
Nem por instante, nem em estante: sem coleção
Etérea, feito bolha de sabão, sei ir embora
Passarinho bate as asas, rumo ao céu...

A sabedoria infinita do universo
Refaz as linhas do caminho...- que gentileza!
Mas ninguém sabe o que é ganho ou perda
Até a roda da vida girar...

E,  de repente vem a chuva 
e (re)coloca tudo no lugar...

#

Poeminha feito em frente ao mar . E depois da chuvinha, veio o temporal mais lindo e o banho mais mágico da vidaa....até aqui. Ficou esquecido nos rascunhos e agora o revi. 
Como achei fofinho, veio ao mundo.
Um dia feliz, para nós, que escolhemos acolher a felicidade como parte.  :)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O coringa é o agente do Caos ou...Super-Vilões Somos nós, Anakin? (devaneio da Velha Boba, republicado de 2016)

 

Apesar das nuvens cinzas deste dia sem nuvens,  sem chuva e sem dia, há um pingo de sol debaixo do meu olhar:  Sempre foi assim. Sempre vi a luz mais que a escuridão, o doce mais do que o amargo e, nas pessoas, sempre encontrei o  melhor lado...e já me disseram que eu sou capaz de fazer um violão sem corda tocar a mais linda canção, porque puxo das pessoas seu melhor lado.Não sei se é sempre assim...eu mesma já vi o avesso, justamente por isso. Enfim...

Este texto nasceu em um momento de muita reflexão, logo após alguém querido dizer que eu tenho a retidão de caráter de um jedi...o que me inspirou a escrever sobre vilania e seus avessos. Associo o universo à bondade harmoniosa do todo. Mas a desordem...é o seu avesso. E quem, afinal, é o AGENTE DO CAOS?

O caminho da bondade tem sempre muitas curvas e,  às vezes, a gente derrapa. É preciso seguir firme, mesmo depois de escorregar, pois ser bom não é um super-poder inerente: é preciso exercitar a coisa de ser pessoa… para longe das meras palavras, porque se você tiver atitudes feias e boas palavras, não passa de um idiota com bom jogo de marketing.

No meio de um monte de escolhas, estradas viradas, atitudes pensadas e impensadas - ou mal pensadas- reside quem nós somos. Não isoladamente. Nossas estradas nos constroem, isso é um fato e um fardo. Mas também uma bênção. Ninguém foge disso, afinal...a gente não 'departamentaliza' caráter. 

Certa vez, em uma conversa com Nathalia, falamos sobre o Coringa e o que fez com o “Harvey Dent”: pegou algo absolutamente puro e corrompeu. Só para provar que mesmo o melhor,  a coisa mais bonita, pode se tornar o pior.Achei extremamente metafórico.



Então...O coringa é o agente do caos?... nós somos todos agentes do caos. Nossos sentimentos, nossos corações tolos, ego, orgulho, tudo encoberto pela fria poeira das nossas capas socialmente apresentadas. Nós usamos toda forma de capa que nos proteja da dor. Nesse sentido, o justo, o justíssimo, representado pelo Harvey Dent, é nossa auto-imagem. Nós nos achamos mesmo tão íntegros! (Mas a moeda tem duas faces, quem lembra? o duas-caras nunca perde).

Também somos, frequentemente, donos do caos que nos rodeia e o resultado - o “duas caras” - o que nos tornamos, quando nos perdemos. Aliás, veja quanta coisa dúbia há no “duas caras”: a deformação dentro de um invólucro que, visto sob um único ângulo, é bonito. Mas se transtornou...

Como aliás, ocorreu a um certo super poderoso Jedi, em uma galáxia distante, que tinha o maior potencial da galáxia e foi para o lado sombrio...(veja o risco de ser um JEDI!)

Apesar dos erros, ninguém precisa da capa de vilão. Nem de dono da razão. Ter compromisso com o erro é só uma forma de ter desistir das coisas boas do universo... a retidão de caráter nem sempre, no mundo real, é sobre nunca errar. Talvez a retidão mais possível seja reconhecer o caminho e aprender com ele ...a melhorar!

Quem sabe você também possa fazer um violão sem cordas tocar lindas canções...
Quem sabe seja libertador dizer que, apesar da retidão de caráter, eu também posso ser um violão sem cordas...
Os agentes do caos de nossos próprios multiversos. Mas não compromissados com os erros.

Quem sabe tu sejas um violão desafinado...

No final das contas, na vida real e possível, todos nós teremos dias de agentes do caos. E eu só posso desejar a você que me lê que a sua dor não seja maior que a sua bondade, a ponto de te transformar. Desejo dias bonitos e afeto macio e saudável, um horizonte de gente que se proteja, que ria de si e contigo, para que escolhas permanecer...uma pessoa, com erros e acertos e sempre capaz vivenciá-los com as devidas densidades. E levezas. Sem de perder nesse processo doido chamado existir e ...se defender do caos.

Então, misturando universos:  Que a força esteja com você. 

O preço


Nem toda coroa é ... realeza
Nem toda cara é verdadeira
E  a moeda, por inteira
às vezes, não vale nem a linha do poema.

Nem toda palavra é sine cera
Nem toda besteira é brincadeira
E tudo, tudo, está exposto
 à geleira inexorável do tempo...

Que aprimora e nos mostra:
Entre cara e coroa, toda janela é exposta
E a verdade é que a vida é muito menos ordinária
é real e colorível viço:

A vida é...feitiço!
E só descobre quem acredita nela
- às vezes, o preço e o valor
Estão muito além de tudo isso - 

#

Fiz esse poema depois de me reler, na crônica de 10 anos atrás...a vida tem mesmo, tem mesmo e mesmo seus valores e apreços. Acho que ninguém sabe mesmo todo o preço de suas escolhas e percebe pouco da itinerante colheita.

Eu ainda gosto de violões sem cordas :)


A paixão é um cão dos DIABOS (Epifania Buckowlesca anedótica, republicada e revisada)


Ok, o Velho Safado já nos falou que o o amor é um cão dos diabos.

Apesar de ter viajado em suas epifanias e até mesmo, por muito tempo, cedido ao charme da imperfeição sacana com que Buck descrevia afetos, envolto em toda a crueza com que se encontrava consigo e com o resto (Sim, pensa em um cara centrado,rs), de fato, sou mais à la Jabor, quando o assunto é AMOR. Mas me uno ao Velho Buck quando o assunto é...paixão.

Sim, inferno. Paixão é um cão dos diabos.

Eu sei que tu sabes disso, querido (a).
Minha última postagem (a do que ainda tem 'eu' aqui no aluanaodorme) teve para mais de 5.000 (vocês quebraram essa banca, obrigada), porque a gente gosta mesmo é de ver o sangue do poeta estirado na rua da emoção (drama).

Não sou diferente de ti, que me lê. E nem te julgo (risos).

 É, a paixão é um cão dos diabos. E, como todos concordamos, poderia parar por aqui essa breve epifania, mas sou seguir. Primeiro, quem atrelou o significado da palavra PAIXÃO à um sentimento romântico, além de um sádico, é um sábio.  Isso porque, na etimologia da palavra, Paixão vem de passione, algo parecido com...passio/passividade, assimilada a sofrimento(tem fonte para caramba acerca).Religiosamente, é atrelada ao sofrimento de Cristo, no calvário. 

A paixão, cientifica e biologicamente, modifica a estrutura hormonal do corpo humano, injetando doses de...dopamina. Seus efeitos, dizem estudos, assimila-se ao uso de cocaína. Sua abstinência, também. Então... a paixão domina?  (https://super.abril.com.br/coluna/alexandre-versignassi/paixao-e-cocaina-amor-e-rivotril-2/) .

Ou seja, todo mundo já esteve chapado de paixão. A não ser que sejas algum ponto fora da curva. Fora disso, se já lês o aluanaodorme...já saboreaste esta desgrama - e ela já orbita/obitou nossas veias, literalmente, sob o ponto de vista dopaminérgico.E, ó: não tem sensato e adulto que dê conta. 

===Mas eu tento. Bem-vindo ao meu inferno==

Na parte da obra  'o inferno' (Do Dante), temos muitas percepções acerca do que é o Inferno do cabra lá e... parece que parte do meu é encontrar com coisas que meu 'sistema imunológico emocional' precisa equalizar com a  razão. Fui dizer isso para meu anjo loiro, Ester, e ela me disse: Mas quem você seria sem isso? -  Bom, eu não vou ficar sozinha com essa pergunta: QUEM VOCÊ SERIA SEM SUAS PAIXÕES?

Algumas paixões são parte da gente. Entram na nossa vida e modificam significativamente  nossa história e composição da matéria essencial...o que seria do meu Destino sem tê-la vivenciado? tsc...eu nem gostaria de saber. Deixa que existam, em seus campos particulares, batendo o maior bolão. A poesia, por exemplo. 

E não dá para dizer que é amor em estado simples, é paixão mesmo. O poema dói, rasga, eviscera, incomoda, acorda às madrugadas, quando tenho uma audiência às 7h30 da manhã. Não adianta, precisa nascer. Mas, como poucas coisas nessa vida, a poesia tem uma incrível potência de cura...e de conexões humanas singulares. A poesia e a arte unem as pessoas em um outro tipo singular de estrutura quântica universal. 

E formulam gente com uma densidade única, um campo gravitacional...por isso, o Estado enquanto poder tem medo da arte ou a utiliza em doses homeopáticas como medida de dormência. A força, em qualquer direção, ainda é força.

Mas, voltando ...a questão é quando este sentirenvolve... o 'outro'. E Sartre sabiamente disse que 'O inferno são os outros'.  Não consigo acreditar nisso. Acredito na teoria do poço, de HIMYM (descrita na temporada 8, episódios 11 e 12). Acho que a nossa mente nos coloca em qualquer condição. Inclusive na de ...aprisionados. Pelos nossos medos e...adivinha pelo quê mais? risos...

É fato que existem paixões ruins. Essas, nos ensinam tanto quanto as boas. Não digo que ensinam 'mais', porque  a dor enrijece a veia, enquanto o afeto nos faz macios. É uma via de escolha e, é como diz a canção...'desculpe, estranho, eu voltei mais puro do céu'. 

Confesso que não acredito propriamente no conceito tradicional de céu e inferno, para ser sincera. Penso que Deus seja tão gente boa e democrático, que a gente vai 'ajustando contas' pelo caminho, mesmo que isso leve muitas estradas. Mas cada um tem o seu particular e isso inclui muitas camadas. Uma dela, para mim, é isso-tudo-que-envolve-isso- aqui

Aliás, desacredito no inferno tradicional e na ideia de 'demônio', que não seja sob a lógica de daimons (mas aí são outras epifanias). Só que credito no 'CÃO' (porque já o conheci quando o coração bate tum tum tum), descrito biologicamente como...dopamina. Nessas condições, digo.E tu podes rir, podes chorar. E pode isso tudo junto. Se esqueceu, foi?  Quando chegar a tua vez, a gente conversa.

Att,

A administração.

#

*Este texto nasceu de uma conversa com a Ester sobre as coisas da vida lá pelo final de janeiro, mas concluiu seu circuito de escrita agora, nos fins de abril/maio.  Então, está republicado com algumas alterações. Esta é uma das crônicas que mais deu acessos nesse espaço, na época de sua publicação... e fará parte de uma nova coletânea. Vem mais um livro por aí.