Fui vê-la.
Seu mesmo olhar meigo machucou meu coração que se sente uma merda de frágil, nessas horas. Como sempre, essa mulher exala força.
- Como estamos? - Sorri.
'Faço o que tem que ser feito' - Ela respondeu.
Aliás...ela já me disse isso, há uns anos atrás, quando fiz essa mesma pergunta.
Inacreditavelmente forte, jovem e ternural, no meio das coisas duras da vida.
Ficamos em silêncio, mas logo engatilhamos o papo para um algo em comum: A nossa saudade. Mas ela ria doce, ao falar.
No meio deste caminho, eu estava me perguntando um monte de coisas em silêncio, e ela solta esta pérola: Jaci, viver não é trilho, é trilha. Bagunçou meu coração.
Adoro linhas retas. Tenho fotos nos trilhos do trem. Adoro alinhamento de coisas, coisas que se encaixam...acho tão bela a harmonia do enquadramento. Compreendo as 'paralelas' do Bel como a singularidade da perfeição...todo mundo é uma paralela? será? - Já escrevi sobre isso, por aqui.
Tenho algumas recordações das trilhas da vida, e das vezes em que plantei flores sobre pedregulhos. Deu certo, foi bom. Mas eu nunca penso na estrada como algo assim e isso me chocou...
E, de repente, ele - a nossa saudade - sentou conosco e a lua no jardim ficou GIGANTE.
Ela acendeu um cigarro e parecia uma bruxa mágica, aliás...ela é uma bruxa mágica (acredite, existem bruxas comuns, depois que virou moda. E fadas más, que são outros 500). E me contou umas coisas de gente real: do amor como ato político, da negociação e da escolha cotidiana, do cru que existe em toda carne que é real. E da mística mágica de partilhar como ato. Como gesto. Não é algo fácil.
Ela me falava do romance como algo construível e mais: não linear. Da não romantização do romance (alô, Kundera!).
Nessas horas, a literatura parece pouco, sabe? ouvir como um amor pode ser partilhado entre bilhetes enamorados e tempo para o outro respirar. Espaço para a piração do cotidiano, força para não romper o laço, flexibilidade para esticar o espaço e compatibilizar a química elementar de cada um. Escolher. Colher o escolhido, mas também o fruto que vem da equação.
De quando a força encontra com a força e ninguém precisa quebrar o fluxo, mesmo assim não sai desastre, mas sim conformação. Que a imperfeição e a perfeição são conceitos particulares, íntimos. Que, na vida real e possível, nada é linha reta- ou seja, não pode ser de paralelas. Existir é de se trilhar...
De ouvir tanta coisa, pensei: Essa mulher é forte. Como é forte ( E pensar que a gente chama de sorte quando não conhece 'a trilha').
Falando coisas tão complexas, ela seguia ali, calma, me ensinando a como tomar água de sol e me alimentar da química elementar do universo para caminhar ...
É por isso que inspirou o amor daquele cara que olhava para ela, naquele momento, todo cheio de ternura. Fiquei encabulada, de ver e sentir aquela energia elementar natural. Falei menos, não quis incomodar eles dois. E também bem honrada, por ser eu a partilhar aquele momento. Sei que tem mais gente com quem fazem isso, porque são imensos...
Saí de lá sem saudades, alimentada de poesia. Em estado de.
Não aquela poesia toda rimadinha que eu gosto tanto, mas sim aquela que tem meio-fio quebrado e trilhas tortas do destino, que fala de dose como antídodo ou veneno e ensina que a imperfeição também é linda e, que nela, por distração, encontramos ...felicidade e beleza.
Não é trilho, é trilha. E eu não sou boa com isso. Mas, quem é?
Façamos valer.
É o que tem que ser feito.
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