quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O Manual Anti-impacto NÃO existe: Mas o arbítrio sim! - E o que você vai fazer com isso? (Filosofia do Boteco da Lua )

                                      

 Ligo para ela*

Eu estou emputecida da vida e com vontade de contratar um caba- do- olho amarelo para resolver um ódio recém-passado, mas gosto muito do meu réu primário para perdê-lo por idiotices.

O que acaba de me acontecer é inusitado.

Explico.

Há dias atrás eu presenciei alguma das conversas mais grotescas  que já ouvi a  respeito de outros seres humanos (e olha...eu sou advogada criminalista há coisa de 15 anos, mas aí são outras ondas). Ouvi um ser humano do tipo homem-hétero-otário tecer considerações sobre detalhes de um corpo humano (vide, uma mulher que-sequer-deve-saber que seu corpo esteve em uma 'roda' de análise).

E ouvir esse 'ser' tecer considerações sobre uma tal 'garota', 'namoro', 'vida' - se é que isso existe nesse tipo de mentalidade. Mas, nada disso me diz respeito propriamente. Eu APENAS ouvi - como se isso já não fosse uma violência, independente de sobre quem. E ouvi quase-sem-querer, pois nem mesmo era interlocutora (Graças a Deus, mesmo porque eu jamais seria).

Bom, apesar de muito impactada na hora, o fato é que esqueci o evento por alguns bons dias. Mas o que me embasbacou foi: hoje, eu estava em um café debatendo estratégias de uma análise e muito concentrada a respeito, quando vi essa figura andando pela 'rua' do shopping com uma mulher, a quem conheço de outras alucinações, nessa paisagem chamada vida. É uma garota legal e, embora não seja minha amiga, me parece ser uma pessoa boa...e fiquei triste pensando no quão magoada poderia sair daquele tipo de des/conexão com aquele tipo de des/figura(do)  - risos.

 

Bom, a situação me deixou mais que indignada, pois me fez refletir detalhes da minha personalidade. É que tenho dificuldades de achar pessoas ruins e já fui chamada de inocente por isso, algumas vezes. Mas a verdade é que não acredito que possa pré-conceber alguém baseado na experiência alheia. Então, creio que as pessoas, com suas atitudes, contam quem são. Mas, apesar disso, sigo à risca o manual anti b.o e ele dá certo, na maior parte das vezes. Mas eu também me engano e a mocinha à minha frente - certamente uma mulher adulta - parecia inclusive nem perceber a cilada. Senti uma súbita empatia.

Pois bem. Ocorre que essa 'pessoa' passou com aquela-menina-legal (até onde sei), e na passagem me olhou bem nos olhos. E foi involuntário pensar: gente assim existe mesmo. Não é feito aquele personagem de 'O amor é Cego', o Maurício, que com seu rabinho escondido ficava a medir a beleza e o potencial de perfeição alheia. Eles circulam entre o meio, como se fossem genteBom, no fundo, eles são como o personagem: encontram problemas nos outros porque possuem algo em si.

Depois disso, chego em casa, tomo uma BOA TAÇA DE VINHO e penso em  Sex And the City. 

Confesso que a minha relação com a série é ambígua, porque a independência feminina lá preconizada ainda é muito voltada para relacionamentos (mas, já diria Bel...era uma vez o homem e o seu tempo). Enfim.

Fato é que, no primeiro episódio, a personagem Carrie fala sobre a morte do amor em Manhattam, nos anos 90 - e foi por isso tudo que comecei a traçar essas-mal-traçadas-linhas. 

 


Será que ainda existe amor em Eme- cê- Pê? 





Bom, falo por mim e vou seguir a dizer. A vida foi legal comigo, mesmo quando não. Tudo que teve um sincero impacto na minha existência foi permeado de significado ... e muita, muita beleza, arte,leveza e densidade. E isso me fez discernir bemmm o que é para mim.  É uma baita sorte - e sorte é sempre Deus.

Ainda assim, dá um baita medo de que gente desse tipo tenha promovido a morte do amor, com suas atitudes: baixando tanto a régua, fazendo corações com ternura perderem um pouco do viço, diminuindo a profundidade das águas limpas, sendo apenas um pocinho raso de baixíssimos valores, reagindo à vida como se suas 'presenças' fossem um 'presente de Deus' (Dizem que o inferno tem as portas iguais às do Céu...risos).

E isso me recordou também outras formas de gente escrota. Gente que não cumpre seus acordos, a não ser que tenha consequências. Que mente e aperta mãos, até que possa puxar o punhal. Gente que deixou de ser coerente com suas paixões e promessas à Deus...gente que deixou de pensar no quão falha é. Isso me inclui e te inclui, certamente,porque 'ninguém aqui é puro anjo ou demônio'. E todo mundo é um pouco 'o cão'.

Aí, disquei o 'disque-melhor-amiga', e essa anacrônica volta ao começo.

Na ligação,  comentamos o quão é uma pena que ninguém venha com um SELO DE B.O na testa, ou escrito: SOU ESCROTO. Escroto mesmo, porque mesmo a palavra medíocre vem de mediano...e gente assim não cabe em outro adjetivo. Sei que nenhum de nós escaparia de usar esse 'selo' para alguém, em algum momento. Mas tem gente que é repetente. Coitada da moça.

O fato é que vamos coabitar, (co)orbitar e até colidir com esse tipo, vez ou outra, pois não temos evidências de que estamos na Matrix e pior: Não temos uma Matrix diferente para cada tipo de programação pessoal - É UMA PENA! Já imaginou que lindo todos os escrotinhos vivendo no seu mundo de escrotidão e a galera com caráter do outro lado?

E quem estivesse no limbo entre 'escrotidão -coirreição-caráter', também tivesse um lugar particular para decidir, onde coabitaria com gente 'ser/nãos ser', até decidir qual seu lado da Matrix? Ô Sonho.

Se bem que... os escrotinhos não gostam dos escrotinhos. Essa é a verdade. Eles gostam de gente maneira, porque: a) Fingem ou ignoram sua escrotidão; b) Não se acham escrotos; c) Precisam de um besta para ser escroto (porque outro escroto poderia lhes atribuir igual lição). 

Sabe o único período em que gente escrota gosta de gente escrota? quando vão se unir para serem escrotos em desfavor de outrem. Mas aí, é questão de tempo para o veneno entornar( e, talvez, essa seja uma das maneiras mais elegantes de justiça sem vingança, para esse tipo de natureza).

Outra questão é a relação causa-consequência. Os escrotos se revestiriam de gente correta, para não sofrer o peso de suas ações e irem parar na Matrix 'certa'. Não por arbítrio, pois a escolha da virtude seria sobrevivência. Puro oportunismo. Esse tipo de modelo é bem narrado nas distopias que envolvem hipervigilância, como 1984 ou Admirável Mundo Novo. 

 No fundo, curiosa e ambiguamente, a Matrix seria uma violência ao arbítrio. E o arbítrio é a essência da identidade.  Bom, essa é a emblemática questão do arbítrio, pelo qual se reveste todo o debate acerca de teologia e da natureza de Deus e da humanidade, na tentativa de explicar a 'criação'. E também de Bauman e a super star teoria da modernidade líquida. Eitaaaaa...como liguei? Vamos lá.

Bom, tu tens um minutinho para a palavra de BAUMAN? hahahahahahaha.

Para Bauman, a identidade é conformada individualmente e não é estática, é flutuante: move-se de acordo com as interações do indivíduo. Mas, é claro, depende de fatores que não controlamos: eu não escolhi nascer no país que vivo, na cidade aonde moro, na família em que vim. Por isso, mesmo o arbítrio possui condicionamentos intrínsecos. Por consequência...'sem querer, querendo', somos parte do 'meio'. Não produto: parte. Isso é ainda mais preocupante.

Mas ainda é uma ponte de resistência. A mesma coisa acontece com o tal 'arbítrio', na questão teológica. É o que distingue a essência entre o ir para a MATRIX religiosa bem dividinha de paraíso-purgatório-inferno. Enfim...por aqui, seja lá qual lugar estamos, essa distinção simplesmente não existe.A não ser dentro de nós: Opa, senti algum alento.

Bom, quanto à minha preocupação de origem - a da ligação - restou torcer por aquela querida. Para que ela tenha 'tutano' dentro de si e conexões significativas e suficientes. E com isso, retomo à Sex And the City e às conexões reais - pois foi assim encerramos a nossa reflexão na  longa chamada ao disque-melhor-amiga.

Não, Carrie:  O amor não morreu em Manhattam e certamente não morreu em Macapá. Ele está todos os dias nos ligando uns aos outros, promovendo encontros e salvando a alma de ser pedra. Ele está em quem escolhemos dizer 'você me importa', em quem pensamos em ligar para contar como foi o dia, em saber se está bem...nas pessoas que nosso coração pensa, ao acordar. Afinal,  a alma sabe mais do que a consciência ( Lembra de 'como se fosse a primeira vez?).

Está nos risos e piadas, nos lanhos e batalhas, nos abraços e canções que escolhemos chamar de  nossos.  Nas imperfeições com que queremos e podemos conviver. Está no que admiramos e acolhemos. Está em...permitir-se ser alcançado, mesmo que isso signifique arriscar.

É, o Manual Anti-impacto não existe.

 Mas o antifrágil ...SIM!


#

*P.s1: Vocês já sabem quem, a ligação foi para a santa da minha melhor amiga.

*P.s2: Eu continuo frágil, no sentido Belchioresco.

*P.s3: Republicado, de 13.05.2016, porque foi acessado ontem e antes de ontem, e conversei esse assunto bem recentemente. Realizei um parágrafo de acréscimo. Esse é um texto bestinha e otimista e meu editor me disse que não está do meu tamanho, real.


Ei, eu também sou bestinha, às vezes, faz bem ao coração...

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