Eu ADORO vencer e trago um histórico bom neste quesito, na campo em que atuo, que é a minha paixão na advocacia. Vencer é um vício. O sentimento de potência, poder que carrega obter êxito, pode deixar qualquer um maluco. É também um instinto animal, afinal, somos em essência, predadores.
Já sabedor do vício de vencedores que acomete a humanidade, meu pai, que é professor, dizia: é para aquele aluno mais filho da p... mãe, aquele que testa meu emocional, que vão minhas maiores preces.
Confesso, demorei a compreender. Como poderia o pior receber o melhor do meu pai? Por que não deixar essa potência direcionada para quem realmente estava 'apto' a recebê-la? tive longas conversas com o professor Vilhena, na vida. Essa foi uma delas. Demorei a entender.
A primeira vez que entrei em uma sala de aula como professora, meu pai já estava do outro lado do rio. E foi na lida que percebi que eram aqueles mais complexos e que mais dependiam de mim, que iam meus maiores esforços. Sabe o que é?...é que não existe um aluno pior ou melhor. Existe humanidade, em uma sala de aula. Gente diferente. Que precisa de suporte de formas diferentes. Gente que também nos ensina. Porque há muita troca em lecionar!
Aos meus queridos e a mim, que sigo na jornada como estudante: obrigada. Feliz dia! E...ô, Pai... MUITO OBRIGADA. Sem saber que eu seguiria seus passos, você já me ensinava que a sala de aula é lugar de humanidade, de potências e fragilidades. Minhas e dos demais.
Na advocacia, algo igual aconteceu: fiz do meu maior pesadelo pessoal a potência do cuidado na atividade. Isso singulariza a gente: a paixão, a preocupação. A manutenção do peito quente e inconformado. Difícil explicar.
Mas é que as causas mais apaixonantes são justamente aquelas que dependem do estremo esforço: aquelas que te arranham a goela para engolir um copo d´água. Não, não quer dizer que dou atenção diferenciada, mas, decerto que aquelas são que mais afetam minha emoção, acabam por desafiar a técnica. Faz parte. É que 'Advogar´é vestir a pele do outro, mesmo porque ad - vogado, etimologicamente, já nos recorda que é alguém que recebeu a outorga da voz. Que honra.
Que honra poder ser a companhia eleita para a luta da vida de alguém. E também, que responsabilidade. Por isso, acredito que o melhor profissional precisa ser uma boa pessoa. Fora disso, a técnica vira ambição sem medida. Isso desumaniza, e torna tudo mecânico.
Aliás, quântico que é, o Direito é feito de uma soma infinda de coisas - e sobram teorias acerca de sua densa matéria. Gosto de pensar na poesia do Prof. Goffredo Telles Jr, que diz que o Direito é quântico...na poética do Prof. Willias Santiago Guerra Filho...naqueles que leem a beleza que deve residir na estética do direito...e em suas substâncias.
Não à toa, tantos advogados foram e são...POETAS.
Justamente por isso, hoje, quero falar daquilo que nenhum advogado gosta: AS CAUSAS PERDIDAS. Aquelas que, na última instância, não encontraram a guarida da justiça e que podem representar não a vergonha do profissional - que deu seu sangue e sua técnica. Mas, muitas vezes, a falência das matrizes das nossas diretrizes normativas. As nossas dificuldades como gente no nosso sistema de justiça. Que palavra poética. Profunda e difícil de enteder.
Nosso país é palco de muita desigualdade social e de muitos fenômenos comuns à américa latina: nossas veias abertas pelos europeus a golpes de machado deixaram lastros de pobreza e sistemas de poder desiguais - e o poder sem freio gerou todo o resto: Corrupção e tudo o mais.
Não aquela que atribuímos diretamente aos políticos. Todos estamos um pouco corrompidos da ideia da virtude. Nós somos um projeto de sucesso de subdesenvolvimento, desigualdade e exploração. A Europa queria isso. A cultura nos relembra.
E, reflexo disso, nosso sistema de justiça e o exercício de poder no executivo e judiciário contém desmedidas inerentes: operações policiais midiáticas reforçam a ideia de revanchismo social. Decisões e condenações sem rastro do devido processo legal - tão necessário à segurança jurídica - tem sido enfrentadas por nós, advogados. Tudo isso fruto da violência - como diria Arendt - esta, que é aplaudida por mim, por ti, quando achamos que o Estado é nosso 'vingador'...e do perigo de esquecermos da bondade que mora dentro da palavra...JUSTIÇA.
Quando as pessoas se tornam lobos revertidos de cordeiros, a engolir os seus. É nessas horas que a harmonia do universo se desequilibra. Quando a Lei deixa de ser meio para o Justo e vira animal a engolir sua própria pele. É nessas horas que dói ser gente.
E que dói ser advogado.
Assim, as causas perdidas lembram o porque existimos, nós, os advogados.
Existimos para relembrar aos mecanismos do Estado o quão a teoria, na prática, precisa vir revestida de teoria para que possamos falar em PODER. Porque poder, é autoridade. E autoridade é coerência. Tudo o mais é violência, já diria aquela que mencionei acima, Arendt. Lembrar de que estamos inseridos neste sistema de justiça ( e também social) é recordar...que tipo de gente eu quero continuar a ser? Que tipo de mundo quero construir? Advogar sem se incomodar com isso é mecanicismo e carnificina. Aquilo que Chaplin chamou de 'Homens-máquina'.
Isso também nos lembra a importância de pensar em quem somos, fora do 'exercício dos papéis sociais'. Porque é aqui que construímos nosso senso de ética, moral, coletividade, empatia, bondade...é debaixo dos papéis sociais que mora a 'pele'. E a alma. O que aprendemos como gente, como foi a sua escola da vida?
Por isso, repito: lutar as causas ganhas é uma grande satisfação. Uma realização profissional, uma entrega do 'belo' à vida de alguém. Mas, seguir pelas causas perdidas é obrigação para com o Estado Democrático de Direito. Sabe aquele quebra-cabeça complicado, que desencaixado, perde todo o sentido? ...ser gente é saber que o quebra-cabeça precisa de encaixe.
A nossa missão aqui, envolve falar nisso. Na adequação de padrões à vida real. Na humanidade que reside dentro de cada história, de cada singular pessoa, sob os cuidados dessa 'matrix'.
Quixote tinha bons companheiros, feitos de sonhos. Mas também de aspirações reais e defeitos, de medos e imperfeitas tentativas. Tinha também a jornada, a ser realizada passo a passo, mesmo quando nem sempre a coragem lhe era o maior atributo, mas apenas o impulso amedrontado da procura...
...Leva tempo, muito tempo...para a gente entender a potência, o significado e a matriz da missão. E a olhar para isso com maturidade e ternura. Sigo aprendiz.
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*Pai, obrigada por me ensinar o amor às causas perdidas.
*Republicado, pois refiz esse texto de madrugadinha.
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