sexta-feira, 27 de março de 2026

Moderníssimos



Mar de gente: ora pesca, ora é pescada
Indústria da solidão: companhia pixelizada
Como somos cruéis em inventar distrações!
- Afeto em obsolescência programada -

O tempo exato do afago sob o fogo de um deslike
Deuses de nosso pequeno circulo digital
Mundo vadio, gente mecanizada
-O ordinário do ordinário:

Fast food emocional

 Imenso mar de nada:
Dormência servida a self service
Corações no modo olx 
Canções de afeto feitas por IA

Anestesia imediata:
Corações a custo de escala

#

Poeminha republicado porque foi muito acessado.


Fica a pergunta: Você tem sede de quê?

sábado, 21 de março de 2026

Reminiscências

Afeto é fato
Doce que transborda pela boca
Fica pelos risos da casa
Espalha sabor pelos cantos

Na memória daquele riso de antes...

Hoje foi mais um dia estranho
Daqueles que se compõem de ausências
Quase como quando dobramos na rua errada
E não sabemos usar GPS

Difícil explicar...

Viver é aprender contornos - os nossos, o do outro...
Afeto é fogo fátuo:
Aquece e pode arrefecer
Amanhece e pode anoitecer...

C´est la vie!

Ainda assim...resta beleza
Nos detalhes do que serenou
No carinho que se partilhou
No perfume do invisível pelo tempo que passou...




#

Dos rascunhos do blog... 
:)

Águas de Março (por Maria Ester Pena Carvalho)


 
A música da chuva traz reminiscências,
o canto dos pássaros faz batucada no meu peito.
A luz atravessa meu rio-mar em tons acobreados,
flores sorriem sob o aguaceiro de Deus.
Belezas e bênçãos.
Hoje, Dia da Felicidade,
nas Águas de Março, seguimos por aqui,
procurando borboletas nas réstias de sol.
Talvez tudo isso caiba num poema:
libélulas, o rio, as gentes, o roçar do vento.
Felicidade, para mim,
é o vento brincando nos meus cabelos
e o canto da cigarra macho,
chamando a vida a continuar.
E nossas águas 
O que passa, o que fica, o que nos atravessa.

Ou melhor, que te faz feliz?

E vamos lapidando.

Maria Ester Pena Carvalho

#

Ontem foi dia Mundial da Felicidade e tive a felicidade de ler este poema em primeira mão....

E desejo a este leitorado: Que tu tenhas tido um dia com as coisas e pessoas que te fazem feliz. E que hoje, no dia mundial da poesia, teu encontro seja com as coisas que alimentam o poema: EMOÇÃO! Coração! Luz!

:)

Hoje é o Dia Mundial da Poesia e meu coração é só GRATIDÃO....



A poesia me salva.

Me leva para casa e é meu cobertor, quando preciso de proteção  'do mundo'. Me diz que posso, que sou mais corajosa do que acredito ser, e que preciso ser, pois a mesma vida que sangra...sara. E a palavra sarar, já é uma poesia...

A poesia me incomoda

E me convoca à comparecer para as dores do mundo e agir, pois sim, ela quer continuar a existir no peito das pessoas e, para isso, precisa muito de corações humanos agindo em prol do bom que a humanidade tem para dar.

A poesia me conecta - comigo e contigo.

E diz coisas de mim que eu não diria ou saberia...simplesmente fluem, rio de palavras derramadas na rua da emoção.

A poesia me acende sem queimar - ou me queima para 'sarar', cauteriza.

Pois emoções são delicados tecidos que podem ferir e ser feridos. E as palavras, suas navalhas - como diria Bel.

A poesia me presenteia

Com gente maneira, com vida, pois AMO encontrar essa gente MALU-QUECIDA, que transforma emoções em verbo, verbo em verso e verso em partilha...sim, a poesia me deu verdadeiros amigos. 

A poesia me transborda

Sai correndo pelas minhas veias, em plena madrugada, pois sim, tenho uma lua que não dorme dentro de mim, pendurada no meu umbigo, pois sou umbilicalmente ligada à sua existência particular e própria. Assim, ela, aluanaodorme, decide quando também não vou dormir.

A poesia me ilumina

E também me banha, com sua liquidez e cores peculiares....

A poesia é meu caldeirão!

....e muitas vezes o licor alheio, que também aprecio e bebo.


" ...e sinto a bruxa
presa na zona da luz...''


Viva à poesia!










quinta-feira, 19 de março de 2026

Obrigada!

 Aparentemente este leitorado aprecia muito quando o sangue da poeta está estirado na rua da emoção...

 

Porque a última crônica deste lugar teve...



Muito obrigada pela sua presença neste espaço. Em tempos de guerra, vamos fazer amor com as palavras. Mesmo quando não falo de mim ou transcrevo uma emoção minha, é tudo muito SENTIDO: nas vivências e histórias que chegam até mim e tocam o coração. Afinal, como diz o velho Buck:

''Ela é doida, mas é mágica. Não há mentira em seu fogo''

Em um mundo de coisas plásticas, é tão bom ler algo que tenha carne, sangue...tudo real.

Há muita verdade neste fogo sincero que arde por cá. E sei que isso também arde em ti, que me lê. Gratidão.



terça-feira, 17 de março de 2026

O que você faz quando a chuva cai? (Do quadro 'Filosofia no Boteco da Lua)



A chuva cai, torrencial, neste comecinho de dia, março de inverno equatorial, puro equino-cio das águas, como diria o Canto. Bom, saí para cumprir as metas do cotidiano, encantada com a cor-do-dia, o cinza e suas nuances, as 'sombrinhas', distribuídas pelas ruas...e acabei tomando um verdadeiro 'banho involuntário'. E, apesar do 'inconveniente', a água inundou a minha mente de ideias.

 É que a chuva nos fala sobre a beleza da água, que tem seu tempo de cair e renovar a cidade. Sobre coragem e 'time'...e  também sobre nossa forma de ver as coisas. 

Em dias assim, é comum que nossa conversa de origem seja 'Bom dia', já precedido de 'nossa, que chuva' - ou 'muita chuva, xixica - como se diz por cá). E pode de ser no tom de 'chuvinha boa' ou no de 'ah, que droga,a  chuva', pois a comunicação perpassa pelos humores: há quem reclame, há quem veja beleza. Há quem esteja indeciso. Ou reclame e veja beleza.

Afinal, convenhamos, a chuva dá trabalho para a vida 'real'. Ela não é cômoda quando precisamos nos deslocar, nos obriga a nos 'ajustar' à sua temperança e não pede licença para chegar. Tem seu próprio tempo - mesmo quando inapropriado para nós. É natural e própria para si.

COMO AS PESSOAS - que constatação mais clichê. Mas, afinal, ''quais são as palavras que nunca são ditas?''

Enfim, me ocorreu que nós somos a chuva no quintal sequinho de alguém. E vice-versa. Porque entrar ou ficar no mundo de alguém e permitir que alguém esteja no nosso é como lidar com a chuva - literalmente. Mais ou menos como viver o tempo do sol e depois ser inundado por uma presença - até desejada, mas não programada como gostaríamos...afinal, o outro não pode e nem consegue ser o espelho das nossas necessidades, não é mesmo? E é importante aprender isso, afinal,  Narciso se inebriou de sua própria água.

Estar na própria onda, meu caríssimo leitor, é um doce vício que levou Narciso. Porque cada 'eu' é um 'outro',  ou seja... 'outras ondas' mesmo - e isso é bom. A chuva -óbvio - molha, incomoda, pede ajustes. A presença de alguém, também. A gente inunda e é inundado... (afinal, chuva, suor, saliva...águas....risos). Então, nunca fez tanto sentido a expressão

                                                                  'Se está na chuva, é para se molhar...'

Mas, atenção: Apesar disso, do incômodo inicial de uma chegada, pessoas não podem ser ou tornar nosso tempo nublado de tempestades. Não podem causar 'febre' e nem desajustes na existência do outro. É preciso ser sol, também, pois  o ajuste natural da chegada é necessário, claro. Mas os tempos de sol precisam vir...afinal, não é o armagedom, ninguém vai voltar para a arca de Noé (até aonde se sabe)...

Mas, como já sabemos, a paixão é um cão dos diabos e isso dificulta um pouco. E é aí que este texto perde a desgrama da coerência fofinha-óbvia e o 'caldo entorna'. 

Merda. As águas não são o que pedimos, elas não vêm exatamente ajustadas ao nosso caos e beleza, elas têm suas próprias existências caóticas e naturais - como eu, tu, nós...e a gente vira sim, meu caro, a tempestade no peito de alguém. Ou alguém quebra nosso 'telhadinho delicado' e desagua no coração, a despeito de qualquer tipo de sensatez. Às vezes, fica lá, empoçado (daí a ideia de mágoa - má água).

Mas, evitar esse negócio? dizer que a chuva não é linda? sentir o peito todo cheinho da presença de alguém...ah, isso não pode ser considerado ruim. Lembre-se, como de diz por aqui: tu não és tapioca, rapaz.  E que vida mais sem-graça, aquela guardada em meio a guarda-chuvas.

Adoro banhos de chuva (chuva mesmo, sem metáforas). Nessas noites não estreladas, o céu se lava e nos dá uma experiência particular com a beleza bruta do Universo. 

Beije na chuva.  Ame na chuva.  Sinta essa vida, tão rara e bonita...

Aliás, os tempos são áridos. Trump rasga céus e ogivas nucleares ameaçam outra forma de extinção... é preciso mesmo chover afeto, nestes tempos. Mas, ainda assim, fazer calor no peito dos nossos afetos. É uma dualidade interessante e de uma alquimia própria. Nada fácil fazer do

              'frio, uma delicada forma de calor...'

 


Ah! as delicadas formas de calor me recordam  algo piegas e fofinho. Ted e Tracy ( de HYMIM) se conheceram em uma noite de intensa CHUVA. No avesso disso, antes, para ficar com Robin, ele já passou dias tentando fazer chover, sem êxito, ou com êxito esporádico. De uma forma difícil, Ted aprendeu que não é possível forçar a chuva a cair. E também... que não é toda chuva que nos cabe, não é? Tem gente que faz tempestade no nosso tempo bom...é preciso discernir. E tem gente que tem medo (aliás, quem não?). 

E isso remete à  um poema atribuído a Shakespeare, que também diz muito sobre esse texto:

"Você diz que ama a chuva, mas abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas procura um lugar na sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas fecha suas janelas quando o vento sopra. É por isso que tenho medo, você diz que me ama também'' 

Eu não sei o quanto a vida já pode ter tirado a sua coragem de se molhar, quando a chuva cai...

Mas eu desejo para ti, um BANHO de bom afeto. Delicadas formas de calor. De chuvas possíveis - ou aquelas impossíveis de resistir...



E você...o que faz quando a chuva cai? 


(Bom tempo, para ti. Seja ele qual for)

#

segunda-feira, 16 de março de 2026

Sorte




 Sentir-se confortável no teu afeto 
Descansar  em teu peito e ouvir o silêncio
Perfume de paz 
Faz bênção em nossas cabeças...

O acaso não sabe da beleza mágica dos encontros, meu bem:
Ainda bem que a gente aprende, no caminho...

Conversar sobre o tempo,
A próxima piada do dia
As coisas amenas que constroem levezas
Ainda bem que a gente sabe da sorte que é...sentir 

Vontade da tua presença, cada dia mais...
(Meu peito voltou a bater depois que te conheceu)


Que bom que tu chegaste 
Quando fazia paz no quintal
 Do meu jardim bagunçado
E que entraste nele com cuidado

...pra eu te aprender...

E há luz por todo lado sob a chuva do equador, tu viste?
Parece que as peças daquele quebra-cabeça antigo se encaixou
Meu corpo com o seu, uma arte
E o acaso até dá de ombros

Com ciúmes dessa nossa sorte.




#

 






Time


 Perda de time
Não é perda de tempo:
Você jogou meu coração da janela do 2o andar
Mas eu flutuei...

Perdoei o mau gesto
Pois, meu bem
O afeto alado que te dei
É só um trago

De todo o maço - buquê que guardo
Para mim.

Perda de time
Não é perda de tempo
Corações destoam
O perfume esvai

Fica a beleza
Do afeto que de partilhou
Do riso sincero e da emoção
Fica a beleza que marcou o coração...

E sou tão boa, assim
Que ainda te chamo de 'meu-mais-prezado-amigo'
Mas, meu coração já não corre perigo
De decair por ti.

Porque você jogou meu coração da janela do 2o andar
Mas eu flutuei...

#

Amei construir esse poema, que está há umas 6 vidas guardado.

Leia com a música, querido ou querida.
Faz um drama bom no coração.  :)






domingo, 15 de março de 2026

Fera Presa




Para te amar
Eu tinha que usar relógio
Seguir à risca o tempo do ponteiro
E, no entremeio,
Agradecer teu tão constante zelo:

Vigilância travestida de cuidado.

Para te amar
Eu precisava decorar um abecedário de regras a cumprir
E compreender o quão haviam coisas erradas comigo
E o quanto o mundo me deixava em perigo

Ao seguir minhas próprias convenções

E era um show de sermão 
Sobre todas as formas do meu comportamento
E assim, para te amar, eu virei um lamento
Arremedo de mim: projeção

Da tua percepção sobre meu espaço:
Na tua gaiola disfarçada de abraço

#

Esse espaço é lugar de verdade, beleza e poesia. Esse poema nasceu como uma 'reminiscência', após ler 'Amores enterrados no Jardim', da Lulih Rojanski.  Recomendo a qualquer mulher/menina, a partir dos 15 anos. Como um jeito de recordar que os tempos são duros, mas nós vencemos com doçura e posicionamento - mesmo que seja difícil aprender.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Ensaios sobre a vida real ensaiada

 



 Bate coração, coisa de pele
Sentimental demais, a poesia come de nós dois
Entre suor, saliva, instante
Somos reais, aqui...presentes.

Bate a piada, o riso, a estrada
A conversa calma, possibilidades
As brincadeiras e piadas tolas
Bate até saudades, quando não estás aqui.

Bate a carícia dentro do coração
As coisas sem explicação
Bate irremediavelmente a emoção
(tum tum tum...)

Tão bom sentir assim.
A 'liga' não retira nada:
Minha carne ainda é minha quando não estás
E até o tempo respira em paz...

Nas ausências e presenças - rimas conversadas
Nas palavras ainda não ditas, pontilhadas
O poema assiste, atento, 
Um novo jeito de pulsar o coração...

#

Tão fofo...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Vida que acaricia

A bondade é uma coisa extremamente despretensiosa...não requer olhar alheio! Tem aquele quê de ser...simplesmente sendo. Penso que essa é a essência de tudo o mais que nos habita. Segue simplesmente sendo. Sozinha, ela acariciava outra vida. Hoje, longe de mistérios ou mais, ela só estendeu a mão a outro bicho e uniu o bicho-gente. Laço de bondade.
E o registro inesperado nem era preciso para o belo se fazer! A vida é flagrantemente urgente! Acaricia com retalhos o dia a dia... Esta imagem alimentou meu dia. Da natureza bondosa e real que tem a vida.
Minha lúdica e delicada Unifap - Em horas de intervalo.

* A docência é, em essência, doce. 
Agridoce, em um país como o nosso. Mas...mais doce!

* Publicado originalmente de 14.05.2014 e republicada porque foi acessada. E porque acredito que a bondade é um superpoder!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Eixo

 


Rotação, translação
A terra gira e a vida se organiza
A gravidade, feita de densidade,
Insiste em colocar os pés no chão...

As estações não erram a hora, meu bem: 
Elas chegam
E nunca mais retornam iguais, mas se renovam
Por isso, a cada ano... temos verão.

E as chuvas lavam um fevereiro novinho em folha
E beijam Macapá...

O mundo não muda sua lógica para ajustar:
Gira em torno de sua órbita particular
Mas coabita bem em outros universos
E tudo o mais que ainda não temos explicação...

Por isso, o bicho homem  é o tipo mais complexo:
Possui ânimos, paixões, desejos, multiversos
Vontades que, às vezes, 
Desaguam em marés contrárias...

E, nestes instantes, a natureza silenciosamente fala:

Procure seu sol e gire aonde tudo fica no lugar
Dentro da desordem que possui todo coração
O eixo central de comando gira, mas permanece
Com o melhor senso de direção...

#

* Fiz esse poema porque senti vontade de (re)ler sobre a linha imaginária e o fenômeno do solstício. E daí me deparei com o conceito de 'eixo'. 
E moramos justamente nesse 'lugar' da terra: a linha imaginária, o 'centro' do 'comando' entre a densidade e a leveza que mantém o mundo 'gerido' pela natureza.

Isso é LINDO e um verdadeiro recado do universo.

LUZ!




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Luto




E eu vou caminhando, sentindo cada carne que carrego
No peso enevoado do meu coração
A saudade,amor, se anuncia entre o café, entra na garganta
Percorre os cantos da casa, as esquinas e o pátio

Que esperam por ti...

Amo a tua presença... tanto 
E não estares aqui só alonga a lágrima que cai
É tudo igual e nunca mais, pedaço de mim!
Sinto saudades do que é e, ainda assim...

Sei que sabes quanto amor te tenho...

Amor, vai tranquilo: a despedida é do agora
Nas curvas de algum verão a gente se revê
Então...caminho para ter a sorte de te reencontrar
E levo para ti as coisas mais bonitas da jornada

E agora sobrevivo ao peso enevoado do meu coração...

#

A gente esquece que a vida é breve e rememora quando o súbito absurdo que já nos alcançou chega em quem amamos. E de sentir junto,  deu uma saudades do meu pai...

AME HOJE, é urgente.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Semente


 
Leve, leve

Como a última pétala que resistiu ao Outono,
Ela vai trazer a nova estação
Filha da primavera,
Sabe aonde tocar..há de dar flor

Amiga do inverno e filha do sol: Sabe refazer calor...

Nascida no Equador
Para lembrar a potência da luz e a beleza da sombra
Segue, cada vez mais sua
Isso dá uma paz...

A de saber aonde está
A de saber quem é por si
A de estar por si (finalmente)
Semente....do tempo que virá

No avesso da realidade, pura poesia:

Desistiu de insistir na estação:
Tudo bem, são só outras formas de luz e cor
Afinal, mesmo nisso há beleza
Pois a humana natureza reúne afinados corações...

E pela 'lei natural' - Já disse Darwin -
Sobrevive o mais adaptado
E assim, por todo lado
O ambiente de cada um é o que cultiva


E nisso não há esquiva,  é tempo bom de ver:

A planta que nasce desistiu do casulo
A Flor de Pipoca: O milho que não quis ser duro
O tempo do fogo ou da água: é tudo transformação
Veja: a lágrima já secou o tempo passado,

é calmaria para o coração...

Comunhão de futuros:
Da escolha do hoje ao tempo do amanhã
Não há mistério na receita, é só equacionar
A flor que nasce é a que gente escolhe regar.

E o fruto que vem
Tem o sabor do que a gente cultivou
O não que a gente pratica
É guia do primeiro amor...

À guerra se vai pelos pares
Até nisso, o poder da reciprocidade!
Os ciclos se encerram vagarosamente
Um botão desajeitado, vira flor...e nasce!




Viver é um milagre....

#



!!!

Sob o som dos silêncios



 Sem fazer barulho:
De pouco a pouco apago os teus passos do tapete
Limpo teu cheiro do meu corpo
Esqueço o som do teu riso...

(E choveu saudade a tarde inteira, ainda assim)

Faço o trabalho árduo:
Ocupo o tempo de ser tua com um livro ou poesia
Deixo para mim os motivos para rir 
pequenos detalhes do dia

(E meu peito ainda arde neste festival de paixão...)

Não deixo a vida dedilhar tristezas,
Pois sou mais forte do que pareço, meu bem
Prendo a atenção ao verbo mais forte
às coisas que realmente me tem...

(Mas ainda queria tua poesia sem rima, derramada no olhar...)

Faço tanto silêncio 
Que quase desacredito que exista alguma canção
Mas sei que alguma coisa ainda persiste
Que o real, enfim, resiste
De desaparecer...

(Penso em ti e digo adeus...)

Meu corpo, que é mais leve, de não ter o teu
Passa a caminhar sem detalhes de nós dois
A vida segue e somos mesmos tão adultos e normais..
Topo um anti-ácido - e sigo com algum tipo de paz.

#




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Mapa, cá.


  Mapa, Cá

Sempre que procuro no peito
A geografia do amor
O mar que abriga meu lar

A luz de um lugar  acende em meu peito.

Paisagens que o tempo não leva:
Um santo que abraça o amazonas,
Grande casa de pedras, igrejinha,
A bênção, meu S. José!

Sempre que penso no lar,
É batuque, samaúma, maré cheia
Ruas enfeitadas de mangueiras
Capital morena, segunda mãe

Casa minha.

Terra da poesia de Fernando, Alcinea, Maria Ester
Marabaixo no pé, de Tia Luci até aqui,
É igarapé das mulheres, lendas e crenças,
Flores do mato,

Ervas que curam , vida que abunda,
Cá dentro de mim.

Jaci Rocha



Parabéns, terra querida.
Obrigada, segunda mãe.
Observação:  Há muito mais poetas, cantores e artistas em geral em nossa linda cidade. 
Sintam-se representados.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Aquela máquina de digitar afetos





Aquela máquina de digitar afetos
Não mais escreveu a palavra "Meu amor"
Por onde andas, 
Afinal?

 

Verbo que é  cheiro,

Quanta falta tu faz em meu jardim... 


Já fui mais atenta ao meu próprio coração!


Mas, depois que passei a usar relógio

O tempo caçoa de mim:

Faz com que tudo tenha exíguos

começo, meio e fim 

 

O amor não coube em nossas 24 horas?

 O tempo, aos poucos, creia, 

A tudo devora -  apavora

Evapora...


- Mas, calma, emoção

Quem sabe ainda temos 

Uma eternidade  a mais

Na próxima Oração...-

 

Quem sabe a gente se tropece - novamente?

Em meio ao burburinho de um café

Quem sabe aquele velho ditado (tão cliché)

 Ainda esteja de pé

 

Incerta beleza de existir....


Frágil agora, tão cheio de efemeridades!

ah! verbo 'futuro' - ingrato,

Descumpridor nato

De quem achamos que seremos...


E sob o mormaço do céu de Macapá ainda arde o fogo intenso das paixões...


Escrevo quase-sem-sentido, ainda que sinta

E me demoro a tentar compreender

O porque essa máquina  (de bater)

nunca mais digitou a palavra 

"Meu amor"...




#



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Paralelismo Sentimental Viciante (Devaneio do Boteco da Lua)








Foi em uma das muitas madrugadas em que estou de papo com Bel. Ouvi esta versão antiga , interpretada pela Vanusa, da canção "Paralelas'', com a frase 

" E as borboletas do que fui pousam demais
Por entre as flores do asfalto em que tu vais..."

Fiquei curiosa  e quis compreender o motivo de trecho da canção ter sido modificado. Primeiro, porque o poema ganha ainda mais sentido, com o trecho retirado, que aliás, poderia ter sido perfeitamente agregado ao verso que o precedeu "Como é perversa a juventude do meu coração / Que só entende o que é cruel / e o que é paixão".


Explico. É que, "'Paralelas'', para mim, sempre evocou o inevitável sentimento de solidão de Belchior, frente aos conceitos propagados nas grandes cidades, o da 'multiplicação', 'riqueza', assim como o registro do eu lírico do poeta, em contraposição a estes conceitos, esvaziados de emoção.

Parecia-me uma declaração de Bel sobre o peso do capital e seu preço sobre as relações afetivas. Bom, acontece que,  com o ''novo'' verso em mente, tive a curiosidade de perguntar o porque 'as paralelas dos pneus na água das ruas são duas estradas nuas...' e porque a música ganhou o título 'Paralelas'.

Como sabemos, nosso poeta misturava conceitos físicos, filosóficos, astrológicos, poéticos e sim, matemáticos e geométricos para falar de emoção. Então, eis um conceito geométrico simples de 'Paralelas':

Uma Reta é uma sucessão infinita de pontos, situados todos em uma mesma direção, no entanto, essa sucessão se caracteriza por ser contínua e indefinida, portanto, uma reta não tem nem inicio nem fim; junto ao plano e ao ponto, a reta é um dos elementos geométricos fundamentais. E a paralela é um adjetivo empregado para referir-se àquilo que é semelhante, correspondente, ou que já foi desenvolvido em um mesmo tempo.
Então, as retas paralelas são aquelas retas encontradas em um mesmo plano, apresentam a mesma inclinação e não apresentam nenhum ponto em comum; isto significa que não se cruzam, nem se tocam e nem sequer cruzam suas prolongações. Um dos exemplos mais populares é o das vias de um trem. (Artigo http://queconceito.com.br/retas-paralelas)

Foi então que compreendi que Belchior falou  de solidão, do preço cobrado pelos conceitos moderníssimos das grandes capitais, mas também, de si e de um outro alguém, um sentimento pessoal, comparando-os à linhas paralelas ,que embora similares, por serem retas, não se cruzavam. 

A letra fez mais sentido e a solidão do poeta,também. Mesmo a canção teve seu momento de íntima verdade do emocional do amor que mora dentro daquela canção: "Dentro do carro/ Sobre o trevo/ A cem por hora, ó meu amor/ Só tens agora os carinhos do motor.../ E no escritório em que eu trabalho / E fico rico/ Quanto mais eu multiplico/ Diminui o meu amor..."



Cada uma das retas vivenciava sua própria aceleração, diferenciadas, parecidas...paralelas. Sim, iguais demais até na direção, para se encontrar. Ou para...flexionar.

De refletir sobre isso, acabei por relacionar ao vício pós-moderno, tão explorado em Bauman, sobre o fim das comunidades e a era das 'redes': menos encontro e mais paralelas. Parece viciante e solitário...

Por outro lado, percebi que confundo paralelas com linhas encontradas. Preciso corrigir alguns poemas (e emoções), onde entendo 'paralelas' no sentido de 'cruzamento',graças ao déficit de atenção geográfico/geométrico/espacial/emocional.

Bom, como não sou matemática ou física, me perdoei e fui atrás de saber o avesso ao conceito de paralela, ou seja, quando as linhas se encontram. Descobri que é chamado de 'interseção', cujo significado é:


O conceito interseção pode ser utilizado em nosso idioma com dois sentidos diferentes. De um lado, é utilizado no campo da geometria para designar aquele ponto estabelecido em que se cruzam duas linhas. Também serve para indicar o encontro entre duas linhas, planos ou objetos.Mas sem dúvida é no trânsito onde mais se usa esse termo, mesmo assim não podemos esquecer que sua utilização é resultado direto de sua referência apresentada na geometria.
Basicamente a interseção no trânsito se refere ao cruzamento de duas ou mais ruas. Sua principal função é possibilitar o acesso de quem circula à outra via e assim chegar ao seu destino.  Artigo http://queconceito.com.br/intersecao

Bom, quer mais poesia do que isso? Tome algumas taças de vinho e leia este texto, ao som de paralelas. Se a interseção é o encontro, falta ao mundo e a cada um de nós o charme do alinhamento sentimental. Mas isso envolve o conhecimento da geografia interna  e não é fácil reconhecer nossos espaços. É a árdua tarefa que viemos fazer por aqui... e tem tanto a ver com o amor!

Bom, o meu desejo após desta longa digressão em Belchior é que, depois de caminhar comigo pela canção "Paralelas",  um pouco do paralelismo sentimental viciante - doença do coração que esta poeta aqui inventou - seja curado de dentro de seu coração. Que explores dentro de você o que é um estar em par e esteja  ávido por um amor interseção, que te leve ao  encontro! - Com o seu destino.


LUZ!!! 
LUZ!!!
LUZ!!!

*Republicado, porque o texto foi acessado e gostei muito de ter escrito isso.