terça-feira, 17 de março de 2026

O que você faz quando a chuva cai? (Do quadro 'Filosofia no Boteco da Lua)



A chuva cai, torrencial, neste comecinho de dia, março de inverno equatorial, puro equino-cio das águas, como diria o Canto. Bom, saí para cumprir as metas do cotidiano, encantada com a cor-do-dia, o cinza e suas nuances, as 'sombrinhas', distribuídas pelas ruas...e acabei tomando um verdadeiro 'banho involuntário'. E, apesar do 'inconveniente', a água inundou a minha mente de ideias.

 É que a chuva nos fala sobre a beleza da água, que tem seu tempo de cair e renovar a cidade. Sobre coragem e 'time'...e  também sobre nossa forma de ver as coisas. 

Em dias assim, é comum que nossa conversa de origem seja 'Bom dia', já precedido de 'nossa, que chuva' - ou 'muita chuva, xixica - como se diz por cá). E pode de ser no tom de 'chuvinha boa' ou no de 'ah, que droga,a  chuva', pois a comunicação perpassa pelos humores: há quem reclame, há quem veja beleza. Há quem esteja indeciso. Ou reclame e veja beleza.

Afinal, convenhamos, a chuva dá trabalho para a vida 'real'. Ela não é cômoda quando precisamos nos deslocar, nos obriga a nos 'ajustar' à sua temperança e não pede licença para chegar. Tem seu próprio tempo - mesmo quando inapropriado para nós. É natural e própria para si.

COMO AS PESSOAS - que constatação mais clichê. Mas, afinal, ''quais são as palavras que nunca são ditas?''

Enfim, me ocorreu que nós somos a chuva no quintal sequinho de alguém. E vice-versa. Porque entrar ou ficar no mundo de alguém e permitir que alguém esteja no nosso é como lidar com a chuva - literalmente. Mais ou menos como viver o tempo do sol e depois ser inundado por uma presença - até desejada, mas não programada como gostaríamos...afinal, o outro não pode e nem consegue ser o espelho das nossas necessidades, não é mesmo? E é importante aprender isso, afinal,  Narciso se inebriou de sua própria água.

Estar na própria onda, meu caríssimo leitor, é um doce vício que levou Narciso. Porque cada 'eu' é um 'outro',  ou seja... 'outras ondas' mesmo - e isso é bom. A chuva -óbvio - molha, incomoda, pede ajustes. A presença de alguém, também. A gente inunda e é inundado... (afinal, chuva, suor, saliva...águas....risos). Então, nunca fez tanto sentido a expressão

                                                                  'Se está na chuva, é para se molhar...'

Mas, atenção: Apesar disso, do incômodo inicial de uma chegada, pessoas não podem ser ou tornar nosso tempo nublado de tempestades. Não podem causar 'febre' e nem desajustes na existência do outro. É preciso ser sol, também, pois  o ajuste natural da chegada é necessário, claro. Mas os tempos de sol precisam vir...afinal, não é o armagedom, ninguém vai voltar para a arca de Noé (até aonde se sabe)...

Mas, como já sabemos, a paixão é um cão dos diabos e isso dificulta um pouco. E é aí que este texto perde a desgrama da coerência fofinha-óbvia e o 'caldo entorna'. 

Merda. As águas não são o que pedimos, elas não vêm exatamente ajustadas ao nosso caos e beleza, elas têm suas próprias existências caóticas e naturais - como eu, tu, nós...e a gente vira sim, meu caro, a tempestade no peito de alguém. Ou alguém quebra nosso 'telhadinho delicado' e desagua no coração, a despeito de qualquer tipo de sensatez. Às vezes, fica lá, empoçado (daí a ideia de mágoa - má água).

Mas, evitar esse negócio? dizer que a chuva não é linda? sentir o peito todo cheinho da presença de alguém...ah, isso não pode ser considerado ruim. Lembre-se, como de diz por aqui: tu não és tapioca, rapaz.  E que vida mais sem-graça, aquela guardada em meio a guarda-chuvas.

Adoro banhos de chuva (chuva mesmo, sem metáforas). Nessas noites não estreladas, o céu se lava e nos dá uma experiência particular com a beleza bruta do Universo. 

Beije na chuva.  Ame na chuva.  Sinta essa vida, tão rara e bonita...

Aliás, os tempos são áridos. Trump rasga céus e ogivas nucleares ameaçam outra forma de extinção... é preciso mesmo chover afeto, nestes tempos. Mas, ainda assim, fazer calor no peito dos nossos afetos. É uma dualidade interessante e de uma alquimia própria. Nada fácil fazer do

              'frio, uma delicada forma de calor...'

 


Ah! as delicadas formas de calor me recordam  algo piegas e fofinho. Ted e Tracy ( de HYMIM) se conheceram em uma noite de intensa CHUVA. No avesso disso, antes, para ficar com Robin, ele já passou dias tentando fazer chover, sem êxito, ou com êxito esporádico. De uma forma difícil, Ted aprendeu que não é possível forçar a chuva a cair. E também... que não é toda chuva que nos cabe, não é? Tem gente que faz tempestade no nosso tempo bom...é preciso discernir. E tem gente que tem medo (aliás, quem não?)

E isso remete à  um poema atribuído a Shakespeare, que também diz muito sobre esse texto:

"Você diz que ama a chuva, mas abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas procura um lugar na sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas fecha suas janelas quando o vento sopra. É por isso que tenho medo, você diz que me ama também'' 

Eu não sei o quanto a vida já pode ter tirado a sua coragem de se molhar, quando a chuva cai...

Mas eu desejo para ti, um BANHO de bom afeto. Delicadas formas de calor. De chuvas possíveis - ou aquelas impossíveis de resistir...



E você...o que faz quando a chuva cai? 


(Bom tempo, para ti. Seja ele qual for)

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