quinta-feira, 21 de maio de 2026

Não sangre em meio a tubarões: nenhum é vegano! (E o que isso tem a ver com o livro 'A natureza da mordida', de Carla Madeira?)




 
Pode te parecer muito vulnerável chorar em um banheiro. 

E ela chorava suas preciosas pérolas transparentes quando adentrei o recinto. Estava acompanhada de uma amiga que a amparava silenciosamente. O lugar, já sabes: um canto sagrado onde mulheres viram amigas: o banheiro do barzinho.

Sim, banheiro, não 'toillete'. Toilletes não recebem humanidades, são chiques demais. Banheiros lavam e, bem ali, haviam águas sendo desaguadas- literalmente.

No ímpeto, a abracei. Uma menina linda, pensei, enquanto recordava da música do Nando 'é uma índia com um colar...'' (Sei, agora se fala indígena. A canção veio antes). Pensei na crônica que escrevi semana passada (O Manual anti-impacto não existe) e...em que tipo de idiota era aquele, que fez aquela pétala em prantos?

Mas não falei nada. Não era preciso. Após um tempo de conforto, perguntei se ela queria colírio, para esconder a vermelhidão dos olhos (me perdoem os médicos, vocês precisam entender a mágica do banheiro).  E disse para ela: Semana passada era eu. Ela, incrédula, e com um lindo olhar de admiração, me disse - Eu não acreditoo! (Me senti uma linda, confesso).

Mas o fato é que ela tinha razão. Era mentira. Uma mentira reconfortante e uma tentativa de recordá-la que ...os dias passam e acomodam as coisas que não entendemos. Que a vulnerabilidade é bonita, é um dom e que merece ser exercido com quem valoriza nossa delicadeza.  Ou seja, era mentira, não porque eu não sinta. Mas é que aprendi a não sangrar em meio a tubarões: pois, nem por mal e nem por bem - mas por sua própria natureza - nenhum é vegano. Correto? 

Bom, fui pesquisar e vi que existe alguns poucos que são onívoros: mas ainda dão sua beliscadinha...na carne. O que me recorda a gíria bem popular entre adolescentes ' a carne caiu no prato do canibal'...ou, o livro que estou lendo, ' A Natureza da Mordida', de Carla Madeira. É que a  gente pode ser machucado, inesperadamente. A vida morde, também....e o que vamos fazer com isso? 

E isso conecta incrivelmente o livro atual, com o que li anteriormente, o Anti- frágil. É, a vulnerabilidade pode nos fazer sentir dor. Pode nos expor em meio a estranhos e não nos colocar no controle das coisas...mas, principalmente, a pode promover conexões que  quem se diz tão forte jamais entenderá...pois os fortes não quebram. Mas os quebrados, ah!...

Saí do banheiro. Tempos depois, a vi sair, acompanhada da mesma amiga que a acudia e com quem conversei no banheiro. Estavam de mãos dadas - coisa mais linda da vida de ver.  Elas passaram e nós nos cumprimentamos de longe, com um aceno. A confraria formada, no olhar: conexões humanas, a própria essência do antifrágil.

Pode te parecer muito vulnerável chorar em um banheiro. E confesso que detesto contato físico com quem não tenho apreço, mas a mágica do instante pediu aquele abraço.  E formou a conexão humana essencial: A de sermos pessoas. Capazes de sentir e acolher ... quem sente. Ah...a propósito: ela retribuiu o abraço, sabe? bem forte. Como quem precisava daquilo, naquele instante...sabe porque? Porque nós, os tolos...distraídos, vencemos sempre! Porque nos encontramos...em outros tolos,  que abraçam estranhos e conectam...realidades. 

E não é uma coisa linda? Dispor do nosso coração?...E quem irá dizer que nisso não há uma tremenda força? 



#

Luz!

Distraídos, os tolos se encontram, se abraçam...unem corações.  Nós venceremos! Mesmo dentro do banheiro. :E sobre ela? eu nem sei seu nome..mas é uma tolinha .Forte e linda, apesar de não saber exatamente a potência dessas coisas... e quem sabe?:)

P.s: Leiam Carla Madeira. Ela é incrível.



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