Dias desses, em um café, conversei com o Carvalho-Pai, que me deu a felicidade ler um conto seu, intitulado 'Como perder um grande amor''. De uma maneira quase anedótica, a história conta um pouco disso que o próprio título vos apresenta: Um amor irremediavelmente perdido. Fiquei meio indignada com o desfecho (não darei spoiler). Apenas sugiro que recordei do texto "Wear Sunscream', de Mary Schmich, traduzido por Pedro Bial em 'Filtro Solar' : " Não seja leviano com o coração dos outros/ Não ature gente de coração leviano".
E fiquei com algumas questões na cuca a semana toda... afinal, quem não perdeu um grande amor? Quem nunca se perdeu ou desencontrou? O que promove um bom 'encontro'? E quem nunca se desencontrou de um grande amor? E mais: quem nunca ficou impactado com isso?
Viro as aspas e pergunto o mesmo para...a paixão. Entre perdas e desencontros, tu és o quê, depois de uma onda dessa, do tipo tsunami? Bom, por incrível que pareça, as palavras 'perdido' e 'desencontrado' não são sinônimo, no dicionário. Vamos lá:
Ao ler estes sinônimos, lembrei do poema da Cecília Meirelles, que bem sabia o que disse, ao explicar em 'Despedida': "Não ando perdida, mas desencontrada/ Levo meu rumo na minha mão..."
Acabei por associar 'desencontrados' e 'perdidos' com a expressão ''entre mortos e feridos'', pois só está perdido o irremediável, findado...finado.O ferido tem a possibilidade mágica de sarar, como o desencontro, que não é, per si, irremediável, ferida que lateja...talvez por isso os desencontros sejam piores do que o encerramento natural de um ciclo, como a morte.
É...a gente faz as duas coisas todos os dias. E a gente vive a opção todos os dias, pois é certo que...nossos corações são assim! podem escolher morrer dentro de nós ou brotar, depois do corte. Há quem tenha morrido e nem viu. E há quem apenas desencontrou.
A gente se perde ou se desencontra de tantas formas diferentes. Morre um pouco, todo dia, inclusive pela respiração, que nos oxida. Mas - que antítese - só vive o agora porque morre um pouco no instante...a gente encontra a vida, porque aceita a efemeridade. Só vive por algo que nos mata...(eu tô falando da respiração ahahhaahah). Mas o encontro não é tão diferente assim, para ninguém...
No final das contas, não creio que nenhuma dessas coisas - a perda ou o desencontro - sejam coisas 'piores'. Depois de um tempo, a gente percebe que vai perder no caminho...coisas que ficarão como parte da nossa estrada, se formos sábios. E a gente vai se desencontrar também, se a gente for só um pouquinho inquieto ( a essência de ser interessante, na minha opinião).
Bom, achei que a crônica tinha acabado por aqui, então levei para meu anjo loiro, que me ouviu e assim disse: " Meu bem, não se preocupe em 'como perder um grande amor'. Em encontros e desencontros. Vamos ganhar nossos amores...cotidianamente".
Essa é a mágica e é claro que, de ouvi-la, fiquei impactada. É...eu tenho muita sorte de poder partilhar esses conselhos. E por vê-los nos meus dias, quase-como-comuns, sabedora de que afetos - e seus efeitos - não são coisas ordinárias: são milagres.
E isso me fez recordar que Bial atualizou 'Filtro Solar', agora em Dezembro de 2025:
" Senhoras e senhoras, meus irmãos humanos da era digital, faz já 25 anos que compartilhei conselhos com vocês, conselhos sobre o futuro. 'Use filtro solar', era que o eu dizia então. Pois, o futuro chegou. Ele sempre chega, e eu continuo dizendo: use filtro solar, mas eu recomendo fortemente: desuse o filtro emocional, ele embaça" (...) Desuse o filtro da tela, da vaidade, da suposta perfeição. Se eu pudesse dar um único conselho, seria este: a vida é melhor sem filtro. E o afeto, o afeto para valer, esse, sim, tem fator de proteção altíssimo contra a frieza das máquinas",
Ressalto do texto: Usem filtro solar. Desusem o filtro emocional, ele embaça! - E faz todo sentido, pois filtros embaçados não nos permitem ver bem a paisagem e as coisas incríveis da Highway....e a vida é incrivelmente colorida, doce e bonita...
Embora seja perigoso sentir sem filtro, com tanta gente embaçada brincando de mercado com as emoções, fazendo listas e carregando refil de carne com nome 'possibilidades' na bagagem, cheios de suas baixas densidades e fortes em suas emoções amortecidas e sem uma tarja de b.o na testa (vide crônica 'O Manual Anti-impacto não existe). Aliás, não existe saída menos honrosa do que existir assim...é a própria essência da perda do elemento essencial. Perda, não desencontro.
Ou seja...sim, eu uso filtro... O solar. Acredito na ''força feiticeira da palavra'' e mais ainda no poder mágico dos afetos e não topo essa parada de emoção de coador. Não entro e não topo liquidações e licitações emocionais. Afinal, eu não uso filtro nem para fazer café.
Mas não dá para andar cínica por aí, ou isso seria a perda...do meu próprio coração. A perda das conexões significativas e incríveis que fiz, ao longo da jornada. Não falo aqui da paixão ou amor romântico(desejo sempre essa sorte para ti e para mim), mas falo de pessoas. Significados. Elos. Aquele 'núcleo' que faz meu coração pensar: 'Será que você vai saber o quanto penso em você, com o meu coração?".
Fiquei mais tranquila quando pensei no quanto o universo é coerente, pois liguei tudo isso à um conceito físico e químico acerca da densidade da matéria, para aproximação (os tais encontros):
No fim, é sobre ter um pouco de fé na física e na química particular do universo, que com sua magia quântica elementar, aproxima a matéria devido à interação de suas partículas fundamentais (parecidas ou complementares), criando a mágica da combustão física, o que também funciona para aquilo que chamamos de ...a lei natural dos encontros, que nos aproxima ...de quem tem em si mesma (ou complementar) matéria essencial.
E, enquanto isso, quase distraídos, otimistas e coisa e tal... quem sabe o que virá? Deus, Destino... e o inexorável. Vamos confiar.
LUZ!
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* Carvalho-Pai é como nomeio o querido amigo Wilson Carvalho, que é imortal da Academia Amapaense de Letras e de quem sou grande admiradora da obra.
* Anjo Loiro é como chamo Maria Ester Pena Carvalho, que faz parte da minha santíssima trindade poética, composta por ela, Alcinea e Fernando Canto. Essa galera é toda imortal, mas o que eles tem de importante mesmo é o fato de serem pessoas lindas! e eu tenho a sorte de ter tanta gente admirável para me ajudar a desembaçar as lentes da vida... para ser afeto, inteireza e emoção em universos confortáveis


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