sábado, 9 de maio de 2026

Detesto consertar o que não quebrei! (Crônica do Boteco da Lua - Revisado)




Eu cantava a todos os pulmões 'Desculpe, estou um pouco atrasada...mas espero que ainda dê tempo", quando ----  Crack! ----O som de algo rompendo o transe da canção me atingiu, literalmente, naquele dia 20.11.2024.

Alguém acabava de bater no para-choques do meu carro. Quebrou a lanterna traseira e, por ironia, ainda brinquei "Como o dia em que roubaram o seu carro e deixou uma lembrança''. Poesia à parte, fazia um engarrafamento enorme, do tipo que não se vê em Macapá, em dias comuns. 

Bom, aconteceu. O impacto assustou, mas estava lá. Restava decidir: a) descer e perder o resto das minhas parcas horas de sono antes de uma audiência, b) acionar o seguro (se o dano fosse maior) ou... c) consertar o que não quebrei...não foi intencional, mas fiz o que sempre faço: me retirei, mesmo quando acho que tenho razão (E nesse caso, tinha todaaaa). Foi uma escolha consciente e confesso, um pouco evitativa.

A questão está no que aconteceu logo depois: passei a não olhar para a lanterna quebrada. Ela não existia para mim, afinal, eu não quebrei aquela lanterna e não dei causa alguma àquela quebra. Já entrei com o carro para a manutenção e não troquei a lanterna. Porque ela nem existia na minha cabeça, já que não-foi-eu-quem-a-quebrei.

Até o comecinho desse ano, sequer olhava a lanterna que, para mim, estava intocável e não 'olhável'. Mas foi aí que algo me chamou atenção. Eu seguia 'quebrada', fingindo que não existia, porque não dei causa.  

E claro, a pessoa que praticou a quebra, vendo meu pouco ânimo de arguir meus direitos, fez o que as pessoas fazem: saem sem se responsabilizar pelo dano.  Eis um ponto sensível dessa prosa. É que é difícil para mim entender que, algumas vezes -  algumas pessoas- não são tão responsáveis com o seu erro. Tento mesmo ser bem responsável com o-que-atinge-o-mundo-do-outro. E por isso já disseram que eu tenho 'a retidão de caráter de um Jedi'...faz tempo, mas tenho a felicidade de dizer que meu código de conduta 'não ficou na estrada, preso na poeira'.

O fato é que, de tanto negar a lanterna quebrada, algum momento, precisei mesmo olhar para ela e isso me causou um enorme espanto. E me perguntei quantas coisas aconteceram neste mesmo viés...quantos pedaços meus foram quebrados e eu segui, fingindo que nem existiam? Desde aquela simples lanterna?...

Foi aí que a bendita passou a me incomodar, de fato. Representava minha 'inação' para com o externo - e confesso que eu paraliso um pouco quando as coisas me doem. De tomar consciência disso, foram dias olhando apenas a lanterna, enquanto olhava meu carro. Aquilo sim começou a representar minha ausência de mim, pois costumo me preservar bastante dos 'baques' e impactos e tive muito cuidado em construir a minha paz, que foi feita com responsabilidade, paciência e cabeça no lugar...

Então, por que a demora em admitir que algo estava quebrado? 

Incomodou, incomodou...até que agi. Levou apenas um ano (e meiooo - risos) para que eu assumisse que precisava ajeitar a lanterna. Já o fiz. Hoje a lanterna chegou e amanhã estará no lugar. É...também hoje entendi que vou precisar consertar algumas outras poucas coisas quebradas, mesmo não tendo sido eu quem as quebrei. 

Mas isso me lembrou duas coisas singulares sobre as quebras! A primeira, é o conceito de wabi-sabi - conceito japonês que representa...a beleza da imperfeição, da impermanência. Nada é tão permanente assim que não possa ser transformado...inclusive a imperfeição.  Também me recordou a crônica do meu amigo Rubem Alves, chamada...'Vitrais'. E o quão são singulares os caquinhos montados. E isso me remeteu aos quebra-cabeças,  coisas repartidas para formar um todo...que se encaixa. Foi então que vi profunda beleza e paz nisso tudo.

Bom, hoje a lanterna já está no lugar. Mas, para minha surpresa, os impactos internos causaram uma breve pane nos sensores: Isso é autoexplicativo e muito poético, apesar de uma merda

Quanto às coisas quebradas: Já começo a olhar para cada uma...com paciência. E cuidarei de repará-las ou ...de fazer arte com elas!

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LUZ!



Ah!...esse lugar explode em acessos com crônicas. Eu sei...eu sei...são mais pessoais. 
Queria colocar uma play toda do Nando, bem fofinha, mas não achei. Fica na linha imaginária enquanto tu lês. 
E, sobre os acessos do dia...Obrigada!

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