quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A caminhada! (Crônica Saudosista do Boteco da Lua)




Mal dei os primeiros passos na Floriano Peixoto e ela saiu, saltitante. Fiquei meio tonta. Acho que saiu pela garganta. Deve ser por isso que estou com sede. 

Mas ela não. Ela corre e chega perto de um dos lagos, com um saquinho transparente, no estilo daqueles que a gente tomava refrigerante quando tinha a idade dela. Ela pega um peixinho preto. Não é bióloga,  não lhe sabe dizer o nome. Vai ser professora, poeta e advogada, na verdade. Dá-lhe o nome de Penélope. Nada demais. Ela chama a todos os seus bichinhos de Penélope. 
Brincalhona, sai com a sacolinha, como quem leva um tesouro e vai correndo em direção à sorveteria que mora em sua lembrança. Pede uma banana split e o devora com uma felicidade tal! Na companhia do pai, com aqueles olhos cinzas derretidos de menino que não comeu banana split.
Ela vai embora feliz, tagarelante: é uma criança muito feliz e barulhenta. Falante, curiosa. 
Volta outro dia, com a irmã e um namoradinho chamado Gustavo. Ela está meio confusa. É que já conhecia o Gustavo. Mas enfim. Gustavo e o Gustavo vinham em dias alternados e tinham rostos diferentes. Mas eram o Gustavo, então tudo bem. ELA TENTOU PERGUNTAR AOS GUSTAVOS PORQUE MUDAVAM DE ROSTO. Eles riram. E, ah, ambos lhe davam sorvete. A irmã não se importava se o Gustavo mudava de rosto. Tudo bem. 
A magrela era bem afeiçoada a sorvete. Gustavos lhe levavam sorvete...ah...vai ver ele era alienígena. Sei lá...
Dou mais uma volta, ela volta.
Está andando no pedalinho na lagoa. Ela nunca pedalava com a irmã. A irmã era uma chata que ficava sempre no comando. O irmão era mais complacente. Mas ele vinha menos...o irmão trabalha.

O dia vai cedendo à noite, aos pouquinhos. Ela corre um bocado. Eu, desisto de caminhar: vou apreciá-la, com sua ternura ingênua e seu entusiasmo livre. Estou velha, vou ver o sol cair  e olhar o lago em que ela, deslumbrada, procura um Jacaré, que só veio a saber anos depois que existiu, de fato! (Ela sempre teve razão).

Ela sai em disparada e nem é ginástica. Desce as ladeirinhas. Conversa e abraça as árvores...depois, vai embora junto com a luz da tarde, no dobrar a esquina, em direção à sua casa, em frente ao Trem da Alegria, onde fazia o pré-escolar. Ela lia muito e não queria deixar de brincar, por isso voltou da 1a série ao pré, apenas para ser mais um pouquinho criança.

A branquinha magrela cheia de pintinhas no rosto e cabelos castanhos sonha que um dia os verá ruivos e compridos. E vai mesmo. Também vai realizar muitos outros sonhos... e vai deixar alguns partirem, no dobrar das paralelas...vai ganhar e perder outros, que nem imaginou. 

Gosto de ir até a Floriano, saber que ela está ali e que brincou e foi feliz com tudo que foi vida e alegria. Gosto de alimentá-la, saber que é nutrida e protegida, que seus sonhos se aquecem e brilham, ainda. Sinto paz em saber que hoje eu cuido dela, que ela pode correr, livre, sonhar macio e sentir-se segura...

E, bom mesmo, de verdade, é saber que a ela vai crescer sem esquecer da Floriano, das mangueiras e do místico que mora dentro daquela lagoa encantada.  E que ela vai seguir... de papo com a lua, com as águas e com as coisas que verdadeiramente importam. 

E aqui acontece a mágica do nosso encontro.❤️ 

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EU AMOOO ESSA CRÔNICA. Porque ela aconteceu mesmo.

E foi a mais acessada da semana. Gratidão.

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