domingo, 25 de janeiro de 2026

Nem tudo é sobre mim, neste pequeno espaço - Mas que bom que ainda tem 'eu' dentro do aluanaodorme ( Da seção 'Filosofia do Boteco da Lua')


       

Senta aí, querido leitorado...eu andava com saudades desse espaço filosófico dentro deste espaço poético. Hoje, com muitas demandas e a vida cheia de 'mim', surgiram algumas questões que eu queria partilhar contigo, na companhia de um café (ou algo mais forte, se te aprouver): Bora botecanear? :)

Uma pergunta básica: Tu se sentes um único 'eu'?-  Não estou falando do transtorno de personalidade fragmentada claro (se for seu caso, receba meu abraço e sinceros ensejos de um justo e digno tratamento). Mas, para além...independente da ideia de personalidade integrada (ou não), nunca somos 'lineares' em todos os espaços: as interações importam, as emoções ...mais ainda. Os lugares e pessoas...ditas conexões ou interjeições.

Constatei, não muito satisfeita, que não me sinto igual em situações em que gostaria de sê-lo. Em outras, sou grata por ser tão plural...então:

Quem sou eu, quando não me sou?

 Fernando Pessoa sabia a importância dos heterônimos para continuar sendo e, por absoluta sinceridade alertou: O poeta é um fingidor. Acabei pensando muito nisso ultimamente pelo conceito de 'masking', atrelado ao autismo, pois eis que estamos sempre em construção - e parece que esse é mais um tijolinho da minha história. Em contato com o conceito, pensei: O autista também é um fingidor. Como o poeta. A gente mascara emoção, aprende a evitar o 'estranhamento cotidiano' do mundo lá fora, descobre um jeito de parecer e acomodar e parece que isso funciona mais para uns do que para outros, em muitos formatos.

MAS AFINAL, NÃO SERÍAMOS TODOS FINGI-DORES?

O problema residiu justamente aí também: Percebi que sou boa em fingir não sentir dores. É uma pena, mas a casca do cotidiano nos ensina que 'sangrar' em meio ao 'mar de gente' é perigoso, pois nem todo mundo tem a lógica do acolhimento inerente à humanidade (é sobre-humano, amar, diz a canção).

E isso me lembrou que, nos últimos tempos, tenho escrito muito sobre literatura, poesia, artes, menos voltada à experiência pessoal, porque os livros me acalmam e me dão uma ideia singular de normalidade ( e porque livros são maravilhosos,rs). Mas isso já foi um jeito de fazer parte. Eu fui a menina inteligente do 'papai', o cara que conversava comigo sobre toda a complexidade da existência e para quem guardo um monte de coisas para contar e partilhar quando chegar do outro lado da margem do rio.

Apesar de amar essas viagens, sei o quanto é bom SENTIR e experimentar a existência. Mesmo que isso doa, às vezes - afinal  'visão de raio x, o x dessa questão é ver além da máscara'. Mas faz parte da experiência humana e provavelmente é alguma das poucas coisas que nos interliga e diferencia esse texto  de um primor artístico feito pela IA.

Aqui, escrevo porque me conecto comigo e contigo - muito longe de algorítmos. Escrevo para sentir e para que tu sintas também. Mas o 'aluanaodorme' tem vida própria...escreveeee sobre livros, filmes, poemas, histórias da literatura e da vida real que se achegam a mim. Sobre gente que se viu e se amou debaixo dos meus olhos, em algum livro ou filme. E sobre teorias e outras coisas da vida real. Muito bonitas, válidas e sempre minhas, ainda que nem tudo tenha sido vivenciado por...mim. Este 'eu' aqui.  

Mas eu queria reiterar com você, que me lê, o quanto é bom ...sentir. Nesses tempos de tanta liquidez e gente pagando o preço do 'custo de troca', ou do 'masking sentimental', é tão bom ter um coração 'de carne'. Eu te confesso que, por medo, já optei por ficar quieta. Apaziguar tudo. Ficar 'confortavelmente entorpecida'. 

Quem nunca?

Mas...Sentir a brisa do amazonas, a poesia de um amigo, a partilha de afeto que mora no dia a dia.  Sentir os medos e as delícias de outra existência, ter o coração ativo em contato com o fim de tarde,caminhar ...Tem coisa mais bonita? Tem coisa mais bonita do que ser o contato preferido de alguém? Não o contato telefônico, estou falando de humanidades. De amar uma presença. Sentir seus afetos reais, as contradições existenciais, o medo e a doçura.

Sim, eu já fugi muito da vida e, confesso, coloquei livros ao invés do próprio coração para bater nesses teclados. Deu certo (acredito). Mas também já senti do jeito certo. E do jeito torto  ou incerto- porque não acredito em sentir errado. Já evitei venenos e já deixei o coração apático, por precaução.. e também já me encontrei com o afeto real e a gente já se perdeu também. Foi bom.

2026 chega e ganho com ele algumas lições na jornada.  A principal é: eu não tenho tanto medo da chuva. Eu sinto cada vez menos necessidade da máscara, e apesar de escrever por muitas histórias de livros, filmes e poemas, eu sinto de verdade tudo que escrevo - seja por mim, seja por quem viveu cada uma dessas coisas.

Amo as conexões profundas que criei, e também as leves e suaves, porque nem tudo é denso o tempo todo. Não tenho mais medo do que possa me causar, porque no meio da jornada, eu cuidei da casa, plantei meu jardim, fiz os deveres de casa e sigo no aprendizado, cada vez mais forte. Não deixei ' a minha ternura na estrada/ presa na poeira', nas lições de Gonzaguinha.E sigo cada vez mais responsável em descobrir os melhores dias - que começam sempre agora, no hoje.

Amo que quando eu sou outra e escrevo aqui, posso de repente estar falando não de mim, mas do seu dia. Do seu amor. Do seu instante de conexão.  Isso me aproxima. E também espero escrever mais sobre mim, sim...esse eu, que está aqui, prontinha para seguir plural e com menos medo da chuva (risos). Acho que não perder a coragem faz parte do compromisso com a arte. Da existência e da poesia.

E...Eu gosto do amor. O amor é bom. E uma hora a gente se encontra ❤️.

É...nem tudo é sobre mim, neste pequeno espaço. Mas que bom que ainda tem 'eu' dentro do aluanaodorme.

#


p.s: Sobre os livros e filmes, se quiserem me indicar, é só enviar nos comentários. São moderados e não publicados. É sobre, eu também gosto de amar assim (risos). 

Um sopro de otimismo para mim e para ti, que me lê.

LUZ!

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