quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Ensaios sobre o som (Parte 2)


Dançam sinfonias
 Viver é som: 
Corre sangue, gesto, pulsação
Passos na calçada!

- Ato contínuo a existir
A palavra é mera narrativa da estrada -

Será que Deus ouvia música
Enquanto criava o Universo?
Há tanta som, ruído e barulho 
no caos complexo da composição...

Estrelas nascem, morrem
Propagam sua vibração!
Conexões viajaram
carbono interestelar,  p´ra gente se encontrar!

(O mundo é magia 
nascida de um compositor singular)

Bato com a caneta no papel
Ouço o tic-tac do relógio
E o barulho compassado do vento sobre a paisagem
- Lá fora o asfalto geme o peso da passagem -

Passarinhos sob a fiação cantam como foi a tarde
O sol cai e ouço a tua última do dia
(é sempre assim entre o sol e as seis)
 entre a nota, o verbo, a poesia e a lição

do coração que mora dentro da canção...




#


LUZ!

Sobre palafitas e a maré de ser gente


Era um dia ensolarado, daqueles de doer nos olhos.

A beira do rio, à foz da fortaleza,  o Amazonas ardia e brilhava tanto, a ponto de encandear o olhar. Meu pai pescava com meus irmãos, embaixo de uma ponte, que unia as estradas entre Macapá e Santada, perto do Balneário, onde eu brincava com a filha do vizinho, sobre as palafitas que encobriam a superfície de barro, pois em tempo de maré baixa, abaixo das palafitas, morava apenas a argila, barro.

Por sobre as frestas da palafita, entre bonecas e panelinhas, meu olhar enxergou uma nota de um 'alto' valor - ao menos, para minha tenra infância. Era tempo de cruzado e minha mente hoje não sabe precisar, mas era como se fossem R$50,00 (Cinquenta reais).Empolgada, iniciei uma grande expedição de resgate do 'tesouro'.

Planejei milimetricamente, fui até o início da palafita e mergulhei naquele mar de lama. Peguei a tão sonhada nota e voltei, triunfante e suja até os cabelos.  Tomei banho e aguardei o pescador voltar com os frutos dos trabalhos do dia. Ele veio sorridente. Eu estava banhada e de cabelos trançados, balançando a nota, sorridente.

Aqueles olhos que chegaram brilhando fecharam o tempo. Perguntaram onde encontrei a nota. Respondi que foi embaixo das palafitas.  Ele disse: " E por que você pegou? não é seu. Devolva". Com a inocência de uma criança de sete anos, corri na direção da palafita e, entre as frestas, ensaiei jogar a nota de volta à lama.

Meu pai, interrompeu o ato e perguntou "Filha, mas foi assim que você pegou?". Inocentemente (e até bastante empolgada e orgulhosa), contei-lhe os detalhes da grande aventura.Meu pai, na sua sabedoria filosófica, falou: "Agora, tenha o mesmo trabalho para devolver, meu bem".

Entendi o que ele esperava, meio perplexa. Sob um sol que caía aterrorizante, vestida naquele vestido rosa clarinho, vergonhosamente mergulhei novamente por debaixo das palafitas, e vi a maré de perto, chegar e misturar à lama, à beleza do vestido, recém-perdida, ao estranho sentimento de que devia mesmo fazer aquilo. Assim, devolvi a nota, no mesmo exato lugar em que a peguei.

Ao voltar para casa, meu pai explicou o que eu precisava aprender, ao fazer aquilo: Que tudo que você subtrai de alguém, ainda que esta pessoa não saiba ou veja, faz com que você mergulhe na sujeira. E devolver é mergulhar nesta mesma lama, pedir desculpas e retornar, inteira. Tenho certeza que esta foi a  minha primeira lição sobre integridade.

...O tempo passa e aperfeiçoa a lição. Coloco essa memória deste dia de sol a serviço de quem sou, no instante. Tento ser a melhor profissional e pessoa que posso, para honrar a alegria de ter sido filha daquele cara incomum, nada convencional  e de longe, a pessoa mais HONESTA e uma das cinco pessoas mais INTELIGENTES que tive a honra de conhecer em toda a vida.

...O tempo passa e aperfeiçoa a lição. E, confesso, é difícil caminhar, em um mundo de pessoas que encontram e não devolvem a nota (seja ela monetária, seja um valor fora de mercado), ou que a devolvem pela fresta. Assim como é difícil mergulhar na lama de seus próprios erros, desfazer ou refazer pegadas, e assim fazer o que é certo. Confesso que tento. 

Não pelo mundo. Mas por mim e pela pessoa que fui ensinada a  ser...dentre universos tão complexos, fui muito abençoada, regada com as águas do amor e encaminhada para vir para o mundo bagunçar um pouco menos as coisas, me divertir, amar e aprender. Sei que,humana que sou, tenho algumas -poucas - notas comigo (todo mundo as tem).  Mas também, valores  tão fortes  quanto aquele olhar de prata derretida, que dizia o que o certo nunca deixa de ser o certo, não importa quantas vezes você faça algo diferente.

Naquele dia, aprendi outra lição, que só entendi bem depois de 'gitinha': A vida, queridos, pode escrever certo por palafitas tortas. Ou escrever torto por palafitas bem certinhas. A mim, não cabe ainda entender. Só tentar caminhar por aqui, com minha (im)própria bagagem, em busca de amar, aprender e fazer o bem.

É certo que não tenho curso de vida,  em quase tudo sou "amadora"...mas que palavra linda! Se, por um lado quer dizer "não especializada", por outro, significa: namorada, curiosa, apreciadora. Por isso, como boa namorada da vida, torço para que o tempo  surpreenda positivamente e encaminhe nossas mentes e corações pelas palafitas da vida ...para a felicidade.


#


Obs*Desculpem eventuais erros de português. Nasceu só de uma vez, após um processo de 1900 páginas e não tive tempo de reler, antes de ir para a lida.

LUZ!

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Talvez




Talvez eu não entenda mesmo nada
E a estrada seja esse céu azul
Essa calma ventilada
Que invade a alma...

(E esse branco no papel, tem tanto sentimento...)

Talvez, seja preciso o tempo soprar
 e o vento fazer seu movimento natural,
Viver deve ser isso: 
despir-se  de certezas...

Confesso, fica uma ponta de tristeza, 
Mas, depois de uns anos de viagem
Quem não tem um ou outro dia nublado
Em sua interna paisagem?...

Sei lá...melhor deixar a vida acontecer
Do que tentar puxar o inatingível 
Somos detalhes de uma máquina tão complexa e interna
Entre culpados e inocentes, a multidão ao espelho pede

Para coabitar...

Anoto meu dicionário próprio de eternidades:
Nele, sei que Maria quer dizer amor
Pai, quer dizer conversas malucas às madrugadas enluaradas
e irmã, um tipo de milagre, presente de jornada...

Aquilo que ainda não descobri, deixo a vida dizer!
O céu de outubro traz o anoitecer
e  deixo o tempo contar quem sou dentro de cada mundo que toco
E, em tudo que passo, quero deixar o perfume antigo

De gente muito carne, muito crua
Humanamente imperfeita e incandescente
de gênio e coração bem quente
Nascida na lua crescente

De um abril qualquer...

Pessoa, muito em brasa, muito viva
Cheia de ternura e curiosidade
e que, depois da tempestade
Sabe virar um arco-íris

(Misto de leveza a densidade)

#

Confesso, é muito difícil para mim entender a vida. Sou distraída demais...
Mas, sobre ser gente...acho que é: nunca deixar de ter sonhos, de ser doce e de acreditar na bondade da vida, das pessoas e do amor.  Porque as palavras são para ser doces...e o poema é para ter FÉ.

LUZ!


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Qualquer coisa, amor! (Filosofia do Boteco da Lua - Um plus otimista aos sonhadores de roteiros felizes)



Senta aí, meu caro leitor, nesta mesa-de-poesia e prosa. Vamos prosear.Quero te fazer uma pergunta: Você já ouviu a linda canção de Renato Russo que diz: 

"Vamos fazer um filme?"

Então. Confesso, todas as vezes que a vida me desafia, assisto um catatal de filmes de amor! Pode ser dentro de um trabalho, de uma rotina, de um ideal ...enfim, essa é uma característica que demorei um pouco a assimilar como minha. Tive historias hilárias por isso: já fiz bloquinho de amigas para assistir em uma única noite: Love History, Doce Novembro, o Diário de uma Paixão, Um amor para recordar e P.s: Eu te amo. Sim, foram litros de lágrimas, pipoca e coca-cola. Um chororô monumental e válido para o fim de uma era em mim, em meados de 2011. E para a lembrança bonita das boas risadas deste dia mais que comédia.
Um grande amigo, certa vez, disse que tudo que rime com amor ou "Qualquer coisa, amor” é o titulo do filme da minha vida. Ri bastante na época, porém reconheço, é a mais absoluta verdade. Filmes de amor são bonitos: eles têm ‘rockinhos’ emocionantes, gente sonhadora que passa por muitos problemas, alguns amores que brigam e separam, e  vida! bonita e imperiosa, como deve ser. Realmente gosto destes filminhos. Aprecio as coisas que envolvem as pessoas e seus pares, as multiplicidades da paixão, que move montanhas, moinhos e a fé da gente. 
 Por outro lado, adoro comédia. Se for romântica, então! é que elas têm apenas um ou outro draminha, sem nada muito dolorido. Gente que ri de si e de seus tropeços faz com que me sinta  deliciosamente humana.  Porque ah, se  te falasse quantas vezes tropecei até mesmo em meus próprios ideais, rs...isso sim seria uma tragédia.
O lado mais bacana de um filme de romance ou de uma comédia romântica, é que eles terminam bem, as pessoas boas terminam bem ... 

Escrevo isso porque, dia desses,  soube da separação de um casal querido e pensei: ah, pena que a vida real não é igual a esses filmes! Mas, então, tive aquele pequeno insight: na verdade,  é sim! Se ainda não teve um fim,  é porque estamos nós, na prateleira da vida, e Deus nos faz “rodar” em nossos moinhos, para adequar nosso roteiro...para ser mais ainda mais belo, singelo e doce.

Sabe, como aquela frase clichê “se ainda não deu certo, não é o fim”? então! É isso! Afinal, quer coisa mais clichê, que “amor”?  É a coisa e o sentimento mais usual do planeta! Então...
Como boa sonhadora de roteiros felizes, eu só posso dizer a você: Sim,sim e sim... vai acabar bem. E antes disso, vai ser bom também. 

LUZ!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Pequenas digressões inconclusivas com Deus (Déficit de Adaptação Sensorial)



Nunca sei o que é real:

Confundo flores de plástico
Com pétalas do mais verdadeiro perfume
Confesso que, em meu universo particular
 não tenho antenas boas 
Para entender pessoas

 - é uma pena ou tanto faz?
No avesso do avesso, leio - infelizmente - 
o mundo bem demais...

Déficit de adaptação sensorial:
A realidade não condiz com o mundo mágico da ficção
Onde tudo é exato em seu começo, meio e fim! é que,
No revés dos livros, pessoas são vendavais de possibilidades,
multiversos e , na verdade, desde sempre,

 entendi que nada é  por mim...

Confesso, é difícil viver nas nuvens
e tropeçar nas dolosas pedras da ilusão.
O coração perde uma batida
A alma fica quieta, toda dolorida...
ah! Coisas da emoção.

Mas, não queria ser diferente, meu amigo.
Aqui, dentro do quarto, não corro perigo
e lá fora, ainda bem que tem um céu azul riscado de cor
Aqui, debaixo do meu olhar, antes das seis...
(O arco-íris é o céu que guardou um pouquinho de água
E fez com a luz beleza recriada, por sob a chuva rala...)

Descubro, no dia a dia, que a vida é doce,
Apesar de todo meu despreparo para vivê-la.
De que adiantaria existir, se fosse para ser diferente?
Faço das flores no jardim o meu aconchego mais bonito
Eu resisto e sigo com a teimosa crença na bondade...

E a poesia adoça os cantos da emoção
Uma canção a mais não vai salgar um rio inteiro...
É certo que ninguém está pronto para ser ferido
E o mundo existe com múltiplas faces da realidade
mas, quem sou eu para dizer a Deus : "Não faça isso comigo"?

Em tudo, recordo: Ele é meu amigo...Ele é meu abrigo
Nem uma folha cai do céu sem o seu manso olhar...!
Sobre isso, há tempos, fiz um pacto de bem viver 
E guardei o  coração inteiro para ver um milagre acontecer
Desde então, parece que  acreditei que ia chover
Mas era sol de verão...

Porque haveria eu de reclamar com Deus?
Faço do silêncio uma forma de oração
Isso acalma estranhamente o coração...
Sinto o vento e a poesia repousar
Nas coisas alheias a mim, 

Que eu não sou capaz de mudar.

#

E, quando olho para o céu, sinto então a estranha paz das coisas que eu não posso entender, apenas ver, deixar acontecer e deixar que a vida conte a sua verdade. 
Torço para que seja bonita. 
Foi difícil escolher uma imagem para este poema. Torço para que, em sua mente, ela seja o que melhor caminhar com a mensagem.  LUZ!!!

domingo, 21 de outubro de 2018

A Bruxa*




A bruxa que mora no lado esquerdo do ouvido
E dança enquanto a lua branca  balança o cheiro dos ipês
Intuitivamente sente o mundo ( e conta tudo)
Que eu jamais queria ver...

(Ainda assim, deixo a  vida acontecer)

Essa voz que diz o que  nem queria ouvir
As esquinas, o dom da pulsação
Que fez da bússola quebrada uma forma de presente 
O peito milagrosamente sente... 

(Seria maldição?)

A falta de magia na crueza esmagadora do dia 
As últimas notícias do jornal deprimente 
O café frio e o atraso na estrela cadente
Quem sabe?  Como dói o coração, no instante...

(vejo uma semente...)

Ah! Essa bola de cristal quebrada
Em mil pedaços que me ferem o peito
Não seria isso uma forma de sabedoria?
A vida, milagrosamente, corta, opera e costura
imperiosa,  a verdade silenciosa dos dias!

Confesso que não queria ter razão...
Quisera pudesse ser apenas a louca da rua
Com graves problemas nas aulas de alucinação!
Mas no avesso, fico rouca do amargo gosto da lição
Que eu mesma fiz...em uma breve previsão.

#

E  a bruxa queima. Mas ela sempre salva.  Porque sem ela, não haveria poesia...para regar as coisas que eu não merecia viver. E essa imensa,maravilhosa... LUZ!!!


*De rever o último episódio da "Maldição da Residência Hill" e perceber a magnífica e trágica metáfora existencial. Agora tente dormir, depois disso. Seria cômico, não fosse trágico.

A menina*




Quando a força dos ventos 
bagunça os rumos do passo
Respiro o traço
e peço calma à direção...

A adulta quieta 
deixa a par a criança
Que refaz o ritmo e o riso...
p´ra não desistir da dança!

Dança-vida, dança-amor, dança-poema:
Que a gente sempre rime
 com algo que pulse e trema:
Feito coração....

Dança-esperança, dança-fé,
 dança-alegria!
P´ra não desistir da magia
Do enorme milagre: existir...! 

#

*Republicado.
Que o vento nunca bagunce aquilo que é raiz dentro de nós.
:)

LUZ!



A pipa e a linha



Nunca fiquei muito tempo
Parada na realidade
Há dias inteiros em que passo
De prosa com a lua que mora no umbigo,
Faço pouco sentido, porque sinto demais...

Já tu, aprendeste a sonhar e ser instrumento
parte da cura da dor que move a verdade
corpo ativo para tornar mais bonito
esse mundo, às vezes tão esquisito
mão da misericórdia sob a  fria realidade...

Eu jamais soube  virar uma esquina
 sem segurar na barra da tua camisa
Quase como um vício existencial de motivação
Como uma implícita aprovação de meu torto roteiro
No entremeio, tu fizeste a estrada

Que acabei por seguir...
(e encontrar felicidade!)

Espelho, espelho meu
Nós nem moramos em um conto de fadas!
E por isso, meu par de asas
às vezes quebra e  fico quieta,
 até voltar ao céu da abstração...

Ainda não sei me adequar ! Talvez, jamais saiba...
Prefiro dias chuvosos, sentar em frente à janela
e ficar quietinha, submersa dentro do olho de Deus...
A vida exala seu perfume, amor e sabedoria avizinha
Sigo em paz no caos, sei que posso ser poesia:

Porque onde sou pipa, tu és a linha.



#

Essa é uma das músicas mais lindas que já vi, em um dos clipes mais significativos e poéticos e foi amor à primeira canção. Brian Wilson é demais! Esta, lembra muito meu anjo da guarda aqui na terra, minha irmã. A gente diverge, mas caminha junto, na lição de se descobrir pessoa. 
Enquanto fico muito tempo no céu das abstrações, eu sei quem é a linha. E eu desejo isso a cada pessoa: bons espelhos e um anjo da guarda. Pois isso nos adoça...harmoniza e humaniza.


LUZ!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Conversas com uma xícara de café


Escrevo...escrevo...
desenho minha verdade no Universo
 Mas eu nunca entendo o verso 
Que saiu, fora de mim... 

Pouco talento cognitivo para nuances
Vivo a parca singeleza da  realidade
A única coisa que sei é da pontualidade
Crua e real da natureza...

(A maré, a correnteza
O curso do rio...)

Mas, tudo bem, resisto
à tudo aquilo que não entendo
à palavras perdidas em qualquer esquina que  não li
às coisas impossíveis, que por amor, já vivi.

E ainda nascem rosas e sorrisos, aqui na rua n°02
E os sonhos ainda falam de coisas coloridas
Do  que vem depois,  na próxima tábua da maré ...
 - E o que ficará  é o que a gente é - 

As coisas vividas e sentidas
A emoção de ser e estar
Aquilo que de real viemos: amar, crescer 
aprender e retornar ao lar!

#

LUZ!





Ipê*

Foto: Jaci Rocha

Quantas vezes vi (re)florescer
Neste céu azul de vida
Um mesmo ipê? # 



*Republicado de Set/2014.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sobre as coisas que não precisam de mim e os significados do existir (Filosofia do Boteco da Lua)



O céu não brilha para mim, pois, independente disso, o Sol nascerá amanhã, lindo e perfeitamente pontual. As coisas naturalmente não necessitam de nós para ''se serem''.É o óbvio exótico da vida. A única coisa que altera as coisas é...a nossa expectativa. E perspectiva.

Sim, são as coisas que a gente põe fé que acabam por alterar o mundo dentro de nós. Eu, particularmente, sou muito de regar as coisas da vida com o meu coração. Pelo menos as minhas, rego com todo, mas todo meu coração. Embora mesmo isso, talvez não dependa de nós: a vida acontece. A semente aleatória do tempo floresce... Coisas do existir.

As coisas não precisam de mim. É um alento. Um conforto e uma certeza. De pensar nisso, veio a lembrança da célebre reflexão de Mario Lago: "Gosto e preciso de ti, mas quero logo explicar, não gosto porque preciso: preciso sim, por gostar".

É...eu gosto de chuva, por isso preciso dos preciosos pingos que caem. Gosto de colocar meu coração no meu trabalho, porque envolve as liberdades pessoais das gentes...tudo o que co-move, MOVE,faz bater esse coração de carne. E isso me importa.Às vezes, é cansativo. Em outras, é pleno.

Sobre significados, quero dizer que adoro a etimologia das palavras, sobretudo na língua latina. Há muita filosofia em cada palavrinha que deu origem às nossas, na língua materna. 'Importar', por exemplo, vem do latim 'importare', algo como "colocar sobre os ombros".  Em português, enquanto verbo transitivo direto, significa "trazer do estrangeiro".

Eu, acresço essas significâncias e digo: importar é trazer algo estrangeiro (a nós - pois desse ponto de vista o mundo é estrangeiro) e colocar sob os ombros. Afinal, vida é para ser sentida. E essa é exata  luz que quero sobre mim. A de ter 'um coração de carne'.

De outro lado, o mundo é realmente enorme! Ele, inteirinho nos ombros, pode vergar qualquer um...daí o poder da escolha. A gente precisa escolher com que se importar. As batalhas e as bonanças que queremos em nossos ombros - corações - e mentes.

Nesse caminho, onde tudo é aprendizado pessoal, acho que é justamente quem carrega conosco o que nos pesa sob os ombros que realmente nos ama. Mas claro, isso é apenas sob a minha perspectiva. E eu cada vez mais descubro o quanto sou aluna, que aliás, também advém do latim e significa, em uma de suas muitas origens, 'desprovido de luz'. 

Isso faz todo sentido. Afinal, meu nome significa "Lua" em tupi, e a lua é o único satélite da terra e brilha à luz de uma grande estrela que nos deu a vida...bom, mas essa pode ser só mais uma conversa de parafuso solto.

Sei que, enquanto estiver pela vida, no aprendizado de receber a luz de ser pessoa, quero ter sob meus ombros o mais de amor que eu puder carregar. Quero também dividir e multiplicar afetos. Penso que a única coisa que eu jamais quero ser -e por isso cuido para não arranhar o universo pessoal alheio - é uma dor na vida de alguém...

E a isso, chamo...de felicidade! - Que aliás, etimologicamente, quer dizer " fecundo". Mas isso vale uma outra filosofia de boteco.


LUZ!!

#

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Outros ensaios sobre o tempo



Tempus regit actum:
o tempo rege o ato
Nada se faz com o segundo passado
Que ali jaz, acontecido e estático:
- Só o amor mantém o relógio parado!-

Essa é a charada particular dos dias...
(Suspiros soltos dentro de um poema)

Gosto do instante, eterna busca-vida
olhar o céu, filosofar estrelas e planetas
E encontros de carbono, coisas que o tempo desfaz-
Também sobre a chuva
 e os amores que findam jamais...

Mas, quem sou eu
Para pôr na lista de classificados
Meus próprios significados
Na vida de um outro alguém?
Tempus regit actum: a vida é um vagão de trem...

Apenas três coisas
Transgridem a lei do agora! eis a metafísica:
A palavra escrita, a ilustração e fotografia 
E disso tudo se fazem as canções e poesias...

E apenas um único sentir
 consegue parar o mover acelerado:
Só o amor mantém o relógio parado!
Essa é a charada particular dos dias...
(Suspiros soltos dentro de templo nublado)




#
Amor é o mistério do planeta.
Se viver é física exata, e a metafísica transgressora  vem do amor, da imagem e da palavra, é preciso paciência para discernir...e deixar o relógio e sua sabedoria mística...caminhar.


LUZ!!!

domingo, 14 de outubro de 2018

O manto*





De onde vem essa multidão de amor
Que caminha
Debaixo dos olhos da segregação?
Que manto é esse que enxerga o outro
e mansamente lhe dá...proteção?

que força é essa que dignifica
Mesmo a aparente tarja da insígnia do erro
E que, abismadamente, resiste
à brutalidade imposta pelo medo...?

Medo de quem vê,
de quem está
e de quem passa...

pois,
 para o manto, somos todos apenas...gente.
Nem culpados, nem inocentes!
- Pássaros de asas amarradas...-

Que sorrisos são esses
entre a súplica, a vergonha e a resistência
Que viaja e sonha por todos os lados
Na certeza bonita que o livro mais antigo dizia:

"O amor  encobre uma multidão de pecados".

#



" O amor é bom, não quer o mal (...)
é um estar preso por vontade
é servir a quem vence, o vencedor...
é ter com quem nos mata lealdade,  é tão contrário em si, é mesmo o amor..."


* Encontrei uma aluna em meio à multidão de amor, em dia de visita, no Complexo Penitenciário do Amapá.  Ela parecia tão envergonhada. Isso me encheu de lágrimas e compaixão. Então, nasceu este poema, que meu jeito de torcer e dar apoio aos familiares de pessoas segregadas. E,porque hoje é Círio, eu recordei daquela linda canção..." e a fé dessa gente é tanta, que a dor que essa gente sente passou a doer na Santa..." Se todos nós temos nossos próprios desafios e pecados, quem  sou eu para ser juiz da dor do outro?
Cada vez mais, eu sei porque vim ser uma...advogada! 
Porque tudo me faz mais humana. E poesia é isso...é vida que não pode ser morna e nem amorfa, mas quente, viva , pulsante.

LUZ!