terça-feira, 2 de julho de 2024

Aceit-ação

 
Deixo ao tempo o dom de cuidar
Das coisas que desaprendi de guerrear
Não quero mais ‘andar na contramão’.
 
Aceito
As coisas que acontecem para além da simples razão
Porque acredito no amor da criação...
 
Já não quero mudar tanto o todo
Somos o que podemos e o que escolhemos acolher
De tudo que nos achega
E cada um está buscando amor como melhor lhe parece a vida
 
E goza e padece de sua própria lida...
 
Confio.
Não porque a vida seja apenas a mais pura claridade
Ou tenha alcançado o nirvana
- Pelo contrário, ainda anoiteço
Mas cuido com delicadeza das sombras que se achegam
 
Acolho, trabalho e cresço.
 
É, agradeço.
Toda raiz precisa até mesmo do mais intenso temporal...
E com isso, a beleza do todo me alcança
A menina que me habita dança

O oceano da vida se abre 
Para que possa navegar com a realidade como que realmente é
E como sou, e às coisas que quero cultivar
E de saber e perceber o quanto isso me liberta

Sou mais feliz no agora do que jamais fui...




#

Durante muito tempo, fui muito escrava das minhas expectativas acerca da realidade. A romancista e poeta que me habita desejou ardentemente certas sensações e sentiu muito quando a realidade veio em contrário.

Leva tempo para aceitarmos a beleza da simplicidade: O que é. A vida. A gente. O mundo. Mas essa percepção é poderosa e, confesso, um grande prazer. E eu desejo para mim e para você que me lê essa beleza...a de perceber, confiar no amor da criação e navegar... e dito isso finalizo com outra forma de poesia...a bíblia, com sua linda mensagem de que "Os que confiam no Senhor são como os montes de Sião, que não se abalam, mas permanecem para sempre"  (Salmo 125,1-3).


LUZ!

 

terça-feira, 18 de junho de 2024

Brevidades



 A beleza do creme brulé
As cores cinzas do horizonte...teu cigarro na varanda
O fogão que faz a janta
O chá que fumega um tipo de inexplicável aconchego,

Um cheiro, um beijo...
- É, nem tudo é sobre profundidades, meu bem!
Superfícies não são superficialidades:
- Brinda comigo as brevidades...

Às vezes, o cinza do dia é suficiente para ser tão cheio de arte e cor
E a vida faz sentido: 
Pele, arrepio, gemido...cabelos, mãos
... tum tum tum do coração...

A poesia às vezes se enche das brevidades de um jeito estranho,
Quase aleatório...
e, ainda assim, tão belo!
A natureza do todo tão encaixado para a tarde acontecer

No entremeio da loucura,
- Uma pausa pra gente se viver -

Não há tantas questões assim,
é só uma questão de quereres
Por isso, hoje admiro tanto os franceses
Aquela crueza elegante que permeia até o ar...

Então,

Põe Zaz na sala,
deixa eu me apresentar...



Esse poema nasceu de rever uns episódios de sex and the city, de um encontro da Carrie com um francês....rs. E de refletir sobre as brevidades, as superficialidades e as questões complexas e simples que envolvem as relações.

Mas pode ser mais leve que isso, para você, que me lê. :)

P.s: Publicado porque o dia está tão coloridamente cinza...e gosto tanto de dias assim, que fui buscá-lo dos rascunhos. :


:P


quinta-feira, 6 de junho de 2024

Cartas para D.





 Sabe, D.
O tempo não é mais meu inimigo
É porque existe que eu sigo,
Ininterruptamente, batida a batida deste velho coração...

Aos poucos, tornei-me sua parceira e aliada.

Por isso,
Hoje, gosto tanto de amanheceres quanto dos pores do sol
Planto feliz coloridas lavadeiras
Perdoo meu girassol por não gostar tanto assim dos ventos do equador...

Aprendi que não estou 'indo' ou 'vindo'...Apenas 'aconteço'. 

Eu diluo entre breves ou longas digressões
Já não luto tanto, nem amanheço:
não me perco em frágeis paixões
Sou velha para certas alucinações...

Mas eu sigo jovem para uma boa comédia
Para ir ao teatro chorar de rir, ser plateia
Da vida e dos acontecimentos felizes dos meus amáveis amores
Assim, faz tanto sentido ser quem sou e gostar de existir!

- Apesar dos pesares, dos medos, das dores inerentes,


Tudo isso é só uma pequena parte
No colher dos dias, tudo é sobre respirar
Cooperar, bem amar...transbordar!
Fazer, das (in)delicadezas do cotidiano, uma arte: resignificar, explicar ou pirar...

Bem amar os meus! -  eis o milagre...

É...escrevo-te com o coração mais puro de me ser
Ainda que cheio das contradições inerentes
O mundo é tão latente! 
Detalhes e mais detalhes que fluem cotidianamente pelas mãos...

Fiquei mais leve, D., confesso
Não porque a vida aliviou...mas é que agora subo ao ringue
Bem menos desavisada
E guardo meu melhor para bem viver as borboletas amarelas da estrada...

#

Escrevi esse poema depois de ouvir Cazuza.



segunda-feira, 3 de junho de 2024

Autorretrato




 Quem és? Perguntei ao espelho
Que repetiu em mantra, segundos depois...
Mas, que pieguice:  Meu cérebro havia pensando !
E antes, as células programado..

- São detalhes de um mesmo roteiro
Que, no entremeio,
O lábio cumpriu... -

Repetição da repetição:  segundos atrás achei que era novidade!
E disso, o Universo riu sem piedade,
Pois mesmo as células de minha mão 
Já foram estrelas, bem disse Carl...

- E assim, fique (in)tranquilo: Tudo se reinventa, meu bem...
O igual está estaticamente paralisado: 
Morto de tanto gostar de ser exato!
De não permitir-se transgredir à transgressão!

Por isso, hoje, 
Antes de responder à questão 
Apenas uni as mãos: 
Agora sou uma constelação...

(''Sol-te'')

#

Mesmo o 'sol-te' foi quebrado, pois a novidade é que algumas repartições não querem mais muros, em Macapá...o que já é mesmo uma feira maluca - como é tradicionalmente chamada nossa feirinha - porque as repartições já são muros, per si - ou pelo menos, divisões - que antes de disso tudo, foram criadas sem muretas.

Esse poema foi sentido quando passei em frente a este muro e vi que foi derrubado...e  pensei em quem eu era, ao deitar em plena esquina de uma das ruas mais movimentadas da cidade, para bater a esta foto...e de ficar feliz com o fato de que ainda quero fazer isso mais vezes, em mil outros contextos, não na repetição exata - porque 'nada do que foi será' ...e porque gosto tanto do agora! - mas sim, no reviver a experiência para experienciar o novo...

Por isso temos tanta 'simetria' ou 'interesse' por séries sobre o tempo e realidades paralelas. Nós já somos e estamos nessas paralelas! Construímos simbolicamente multiplicidade na similaridade...e na singularidade.

E, embora as paralelas se encontrem no infinito (diz a matemática), que bom que existem as intersecções. Mas ah... eu já escrevi sobre isso. Que bom que de outro jeito. 

É. Tudo é ambiguidade em eterno retorno. Agora mesmo o auto-retrato é autorretrato.

Ainda assim, nunca é o mesmo rio, já dizia Heráclito...e nunca é o mesmo coração...


domingo, 26 de maio de 2024

Ode às coisas que se achegam


 
Um vídeo novo
Um poema de amor bem docinho sobre as cores novas de abril
Um cego que abriu os olhos para a imensidão
...é um milagre.

Um carinho dos céus, não é mesmo?

E é sempre isso: 
Se achega macio e desde até o umbigo
Um frio, um cio, uma coisa gostosa...
Uma descoberta tamanha

- Daquelas de deixar Cabral apagado no mar da história...-

Sem dar de viver desse suor, um homem fica louco, 
'Assim me disse Zaratrustra' - Que triste !
 - De tal feito morreu Nietzsche 
No lugar que colhe gente doida...

- Demorou de disfarçar que era dor de amor
Que, como nego, também já quis morrer 
Do remédio irremediável do estado...
- o elo inenarrável com o sagrado -

Por isso, 

Antes de pirar de ausências, receita-se:
- Que o coração se encha de crença! 
( Ainda que com tanta contraindicação)
Vá lá, seu moço... endoideça de emoção...

Há sal e açúcar em cada descoberta:
Prepara-te, tempera do melhor sabor...
Mas, tu sabes, eu sei... é preciso coragem...
Pois, feito tatuagem, há beleza e dor...

De ser ancestral e real: 

Cru e sem palavras, só um bicho,
Entregue bem aos braços do benzinho
Curtindo plenos domingo
E depois de exausto, dormir...

Pleno de paixão!

De sentir sem explicar
E de ser sem ter razão
- Como sempre é de ser
Nas coisas do coração... - 

Ah! as coisas do coração...


#


Esse poema contém milhões de referências...

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Calor



 Entrega teu calor, sem medo: que eu me derreto, amor
Sou muito afeita a tudo que também me é dado
Elos são afetos cultivados
Amores amáveis são os que fazemos com prazer...

Cuido de ti, não te preocupes
Eu sei fazer valer cada pedaço
Gosto de te ver sorrir e do som da tua risada
Confesso que acho que é meu primeiro sinal de afeto

O primeiro tijolinho da jornada...

Segura na minha mão
Colho com carinho aquela lágrima
Caiu quase sem querer, não foi?
Coisas da vida lá fora,

Que às vezes dá de acontecer...

É nessas horas que a gente entende
Que precisa de construir bons elos de amparo
Pois mundo precisa de um amor que se demora
Nos dias ruins, aquele alguém que não vai embora...

Então, senta no sofá, mas não embaralha a manta
A gente vê o jornal enquanto janta
Tu me contas uma piada bem tonta
E a gente decide não ir ao cinema, mas ver televisão...

É sempre assim:

Tu sempre falas uns minutos - ou horas
O quanto gostas do Hithcock ou de Tarantino
E eu perdoo tua falta de apreço pela boa película clichê
Mas conto meu melhor segredo pra tua língua

E a gente faz a vida acontecer...

Sabe, é tão bom viver você!  
Assim, tão de levinho
Entre a água e o vinho
O dia nasce sempre tão quentinho

És assim, benzinho,

Um sol todinho em mim...




#


Esse poema foi deveras clichê.
Dos meus arquivos de pieguices. <3

Amnésia (Republicado, corrigido)



Esqueça
Aquele poema matinal
Aquele tempo é para o hoje irreal:
Viver é deixar morrer - eis a ambiguidade.

A vida, tão escrita e tão escrevinhada
É feita a traços finos de giz
Mesmo o mais imenso sol amarelo
Derrete sob as águas do agora...

14 de Maio de 2024: é precioso e raro
Nunca mais virá....

E  o mundo é cheio de coisas bonitas
As mais belas declarações de amor são escritas
E ainda existem crianças correndo
Em algum lugar chamado 'felicidade'...

Tudo que é de verdade está aqui: é um milagre!
Trilhões de células cooperando para o todo
E assim, dou de acordar em meio a um mar in blue
E de ver, sei e sinto que tudo é melhor do que jamais imaginei...

Por isso,

Hoje gosto tanto da palavra 'esquecer'  quanto 'recordar'
Acredito que a inocência reside nessa estranha ambiguidade
E ninguém é criança de verdade
Sem entender dessa peculiar mistura...

É uma dádiva perder espaços da recordação!
Ainda  mais   quando se adoece do coração
Pois até mesmo o poema reconhece a razão
Própria do ato da impropriedade: 

 Liberta-se o fato da memória inglória: 
Que segue pura e assim repousa a história... 

Então:
Goodbye, Norma Jean!
Por favor, entenda. Ou perdoe, se puder...
Adeus, Diana! Por favor, descansa.

Cheguem novos contos, outros pontos
...conexões!
Pois é certo que nada é tão dissociado
Somos a partitura e o som da canção...

Afinal, convenhamos - com boas doses de ironia, 
já que nunca conviemos em nada - 
Tudo pode acontecer, menos a repetição da palavra
Viver não é sobre eterno repeat de página

E Caetano canta sob todos os espaços da sala
Que a  '' a novidade veio dar a praia...''

E assim, até os céus já sabem  e anunciam!
Que,  na perfeita metáfora dita desde Heráclito
Nunca é o mesmo sangue que passa...
- nem a mesma poesia.

E dito isso, nasce um novo coração...


Diz-se, na obra 'O brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças''..." Abençoados os que esquecemporque aproveitam até mesmo seus equívocos", que é de Friedrich Nietzsche, na obra 'Além do bem e do mal'.

E assim, esse poema nasce de reler um artigo científico sobre o direito ao esquecimento e associá-lo ao filme....e de pensar em cada coisinha da nossa história que merece o bom e velho esquecimento como uma forma de redenção do tempo.

A vida é tão colorida, artística, bela e irrepetível - sob pena de se tornar 'ordinária'.

P.s:Depois eu respondo a mim sobre a importância dos clássicos e da memória para a constituição da identidade. :)

terça-feira, 14 de maio de 2024

O Resgate (Poema-crônica partido de ouvir a história de um sobrevivente do Novo Amapá)


Entre pescado e pescador
Na escuridão, deita o milagre:
No tempo do naufrágio, 
Bênção em pleno breu...

Alucinação, Amazonas: leito e confessionário!
O mais profundo é imensa luz azul! 
O céu é multicor: estenda a mão
Deite sua fé em meio ao caos...

Grite:
"Senhor, eu não sou digno!
Mas dizeis uma só palavra...''
Com toda força, com toda alma...estenda a mão...

Dito isso, o céu se enfeita
O pai se deleita
Arma a mais farta mesa
Porque o amor de Deus é abundância e paz...

- Faz-se perfeito silêncio em meio à tempestade-
Pois mesmo o infinito amazonas se ajeita para receber os passos
Vira estrada florida, multicolorida
Frente àquele amor... -

E eis, que então:
Na escuridão, a voz de um irmão: reencontro, abraço!
É sempre assim: Pedro um dia pescou, 
Outro dia foi pescado!

Pois, por todo lado, o mistério insondável do supremo amor nos alcança...

E volta o filho e volta um pai: 
Todos se encontram na amada
O lugar onde a jornada
É doce caminho prometido a ser partilhado...

Por isso, sente o tempo, o zelo e o cuidado
Pois é fato:  Ora pescamos, ora somos pescados
- Mas sempre resgatados! - 
Pelo imenso  amor dos céus...


#


Transformei em poesia uma linda história que ouvi de um sobrevivente do naufrágio da embarcação chamada de 'Novo Amapá', que aqui em meu estado, um triste episódio de nossa história, que faz parte da nossa memória coletiva e é um alerta acerca de como devemos respeitar os limites: nossos e da natureza. 

Religião é sempre algo muito pessoal e a poeta fez com o que ouviu, com o que sentiu, de ouvir o outro. Mas há beleza em toda forma de encontro com a grande força poética do Universo...o que me leva à uma pequena flor de outubro, que é 'lanterna' e que sempre me salva, quando estou 'afogada' e que é, certamente, demonstração clara e inconteste da presença de Deus em meu pequeno universo...

Esta é uma história de salvação, de muitos modos.


quarta-feira, 8 de maio de 2024

Aconteceu!

 O poema não existe sem você
O tempo sabe, o jardim inteiro concluiu, benzinho
Pois eu canto em sua presença
E a gente acampa na varanda, em dias amenos...

A vida é mais risonha com você
E assim aprendi que tempos leves ensinam melhor
Afinal, não é o relógio que nos leva ao nosso bom destino,
Mas sim...a maré!

E no uso do clichê mais velho do universo
Tudo se torna heroicamente belo
O café com tapioca, beijo na boca
Luzes e cores particulares, madrugada adentro...

Menino que balança minha racionalidade
Mas que não queima meu juízo
Se preciso, espero mais um tempo
Só pra gente jantar junto

E de manhã, bem mulherzinha
Um tipo de bebê totalmente entregue ao teu afeto
Ponho mais café, faço cafuné
Vem pra minha rede, mata em mim a tua sede...

Depois, vamos ao domingo na Igrejinha
Confessar  pecados 
Por todo lado, não há anjos ou avessos
Faz do teu corpo o meu travesseiro... 

Nesse amor bem de antíteses complementares
Por todos os lugares, em cada esquina
A vida nos ensina: era nossa sina
E eis que então, aconteceu.




#


Quanto riso tudo isso...uma história partilhada, bem fofinha, do tipo que faz encher o coração das coisas boas que merecemos sentir...

Recados para meu Pai




Eu...ainda guardo uns palavrões dentro da boca
Porque me educaste a não falar, apesar de falares
Ainda tenho as longas laudas e a voz rouca
Que aprendi a guardar mais - apesar dos pesares.

Ainda passo na Coriolano Jucá para falar em saudades, com as mangueiras de lá...

Ainda enfrento dragões com o escudo do teu amor
Ainda lembro 'eu sou boa, aonde for' - só porque você me contou
Ainda risco poemas e teço boas redações
Ainda leio livros e converso com teu riso 

- e ouço teus sermões...


Ainda adoro quando as pessoas dizem que pareço contigo
É uma espécie de escudo contra qualquer coisa errada que façam comigo
Porque, é fato, Pai: não, eu não revido
Desvio e sigo, sei que vou chegar: 

Afinal, foi contigo que eu aprendi
A maré se move, mas eu sigo na canoa, a remar...

Eu,

Ainda sinto saudades 
A ponto de falhar as batidas do meu coração!
Ainda sinto, quando tenho medo,
A tua quente mão...

E agora, adivinha? Eu sei que já sabes
Já já aqueles corredores vão ter mais de ti, em mim...
E até mesmo quem nunca imaginou, duvidou ou fingiu que não viu
Já sabe, Pai, 


Que a gente conseguiu...






#

Muito obrigada por me amar nas minhas inutilidades, Papai!
Que você esteja muito feliz e saiba e sinta daqui como eu estou cada vez melhor!  Eu vou te orgulhar muitoooo mais! <3 
Muito Obrigada por tudo! ===> "Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você (...) P' ra além de quando eu respirar''



quarta-feira, 1 de maio de 2024

Anjos e Demônios...em Nós! (Republicado)

                                               


Você é as flores que plantou, os sorrisos que deu, as pequenas ínfimas bondades que fez, o que te prende a atenção e o que te agrega valor. Você é o amor que doou, as rugas que ganhou por sorrir, as lágrimas de felicidade, as pessoas que escolheu para caminhar. Os amigos que fez, o  amor que cultivou, as luzes que gerou, a alegria provocada. A caridade despretensiosa e gentil que emanou,  bons fluídos que passou, a gentileza que não se amesquinha a títulos, a doçura intrínseca em ver e reconhecer no outro suas potencialidades, a honesta capacidade de assumir lados e pagar pelas consequências com leveza, o trato, o gesto, o laço... Você é o bem que faz.

Mas, ha! Esse não é só um textinho meigo sobre quem você ou eu somos no "lado bom da vida".


Você também é aquele chute no balde que deu, o porre vergonhoso que seus familiares acolheram, as burradas e "emperradas" na beira da estrada, as dores - de parto ou partida- que sentiu, e as coisas que fez e magoou à alguém. É também o mal que desejou, as mãos que não apertou, a paciência que não teve, a garganta que gritou. Você é o descontrole ocasional no trânsito- da vida ou emocional, a luz que deixou de doar e o "vai à merda" que soltou à alguém. Você é o que deixou na estrada, a mão sangrando machucada (metaforicamente, por favor), o coração partido e magoado de outro alguém, a dor quase imediata da gentileza não doada e aquele desejo fundinho (ainda que raro) de que algo dê errado para aquele fdp do seu trabalho, só para que ele "aprenda", como se fôssemos Deuses.


É preciso primeiro, antes de responder à esta questão tão visceral: "Quem eu sou?", saber de sua própria luz e esquisitices, deixar de querer ser "normal ou diferente", ter atitude de si. E até, aceitar e perdoar o 'eu no espelho' e, partindo dessa lição, perdoar e lidar com o outro. Daí dá para saber onde se quer ir. 

O mundo é um lugar bom! Mas é preciso assumir que as flores têm espinhos, que é lindo deitar na grama e olhar o céu enluarado,mas você pode ser assaltado, e que o vento que sopra na orla e lhe acaricia a face iria desarrumar sua casa inteira e deixar você maluco tentando segurar seus livros e notas fiscais (rs), e que a chuva é LINDA! Mas que baratas (e voadoras!!!) existem, às vezes para acabar com aquele seu resquício de mulher-maravilha.


Finalizo com um texto da Martha sobre a nossa humana natureza :)






Sou capaz dos gestos mais nobres
nem eu consigo me aceitar assim tão justa
chego a parecer burra,
loira, pálida e profunda
nada me detém,sou a dignidade em pessoa
ninguém diria que uma criatura como eu pudesse ser tão boa,
uma santa,uma alma do outro mundo...

Mas se acordo atordoada,
sou capaz de armar um circo
solto fogo pelas ventas,
não resmungo, grito mesmo
ninguém me aguenta,
sou herege, estúpida, ruim como o diabo
me escondo em qualquer beco, rabugenta, bem no fundo do buraco,
a cara cheia de olheiras...

...argh!!Que sou de lascar quando quero
haja paciência e sabedoria ou pouco ou ego imenso
ou isso tudo para enfrentar o céu e o inferno a cada vinte minutos.

#



*Republicado de 11.09.2014, pois somos todos desta mesma matéria muito HUMANA e porque foi acessado.

Mas é bom lembrar que, em 2024, a gente aprende que grandes emoções não precisam ser emoções ruins e que força, às vezes, é 'não botar para quebrar', e sim deixar a roda da vida 'botar pra girar' até que a rota equalize na estação que nos convém, que é sempre, aquele lugar onde somos confortavelmente amados e capazes de acomodar nas coisas belas e produzir ainda mais lindezas... e de incomodar  apenas com o necessário para que esse lugar se mantenha.


                                                                                 LUZ!!!

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Ensaios sobre tudo que eu quero ser enquanto SOU


 
 
A curva na estrada
O coração cheio de flores:
Tempo de viver as coisas
Que meu coração sonhou...
 
Tempo de não endurecer
De respeitar meu próprio movimento
Sem ferir o alheio
E, no entremeio
 
Rir, regar as plantas do jardim...

Tempo de descobrir alegrias responsáveis:
Tomar café com meus amores
Saber ser ombro de alguém
Que precisa curar suas dores

Ouvir mais
partilhar minha fala apenas com quem me pedir
Saber que a voz é bela
Mas dom mesmo tem quem sabe ouvir...
 
Ser humana, frágil
Quebrável, reconstruível: wabi-sabi!
Luzes e escuridões acolhidas
Em suas proporções...
 
Começar e terminar o dia com orações...
 
Gostar do agora, gostar de mim
Apreciar a vida em suas nuances, olhar ao redor:
Nada é sobre me sentir melhor,
Mas sim, não pior...
 
Cooperar. Fazer parte.

Cumprir com meu mister com toda boa vontade
E, no entremeio, não esquecer o quanto gosto
De livros, filosofia, filmes, artes!
Porque a vida é feita de certos encantos inexplicáveis 

Só sentidos e percebidos pelo coração...
 
Abrir mão:
Não de pessoas, mas de circunstâncias
Condições que retiram a paz, esse pequeno broto 
Pois nada deve valer a batida errada de uma boa emoção
 
Exceto aquilo que apaixona:
O bom argumento, defender pessoas!
Ser uma advogada de causas possíveis
E também nas impossíveis - Mas nestas, quando vou à noite
conversar com a madre mãe dos céus...
 
Manter e bem viver meus compromissos
A palavra dada, os elos de afeto
Buscar pelo certo
Sem tentar doutrinar ninguém acerca de sua própria reta

Só deixar as portas certas abertas...
 
Olhar bonito: O mundo e a mim
E a partir disso, viver melhor a realidade
O instante em que a vida acontece:
E assim, aproveitar este corpo, essa carne

Para pisar com os pés na terra
Tomar banho de rio
Beijar, beijar, beijar minha pequena Pipoca flor
Esse elo de amor entre a terra e os céus...

Ser,  fazer feliz!
Cooperar e trabalhar
Sentir prazer e descansar
Viver a pluralidade para o qual fui moldada

E depois disso,
Retornar  feliz e cansada
Para contar ao Pai como foi maluco viver
E para perguntar se é hora de descansar


Ou de reaprender...




LUZ!

<3

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Conversas com Manoel ( Diálogos inconclusivos com Manoel de Barros)

 

 

 


Eu não sou perfeita, não sei o ser.
Faz parte, desde a planta do pé
Nasci com ‘piso’ errado
Desde então, vivo de senso contrário
 
Confesso: Adoro tempo nublado...
 
Banho de rio em tempo chuvoso
Vinho gelado, gente maluca
Crônicas anacrônicas
Ininteligentes poesias...
 
Gosto de coisas inexplicáveis
E pessoas improváveis
Não saber, só viver:
Perceber o desenho do destino conformar corações...

Das histórias da feira maluca
Da fé das velhinhas da igrejinha...dos ditos ditados de vó!
- Confesso:  já sei falar biblioteca
Mas ''bliblioteca''' é bem melhor... 
 
O vício da imperfeição me alimenta
Ainda não sei bem o que isso que dizer:
Da perfeição, só conheço algo:
O amor de Deus...
 
Mas recebi teu poema torto, Anjo. 
Por uma vírgula de tempo não me apaixonei por ti: achei lindo!
Também sou fraca para elogios, sabe, Manoel?
Vejo como é bela a palavra 'imbecil'.
 
E digo outra: Boboca.
Como é bonito ser boboca
Uma pessoa abestalhada
Sem malícias para a vida...
 
Dito isso, encerro agora:
Inconclusivamente e de olhos marejados
Também sou fraca para poesias assim: 
Tão cheias de coisas que realmente não têm fim.

#

De dialogar com a poesia de Manoel de Barros, "Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo".

Tu sabes (Republicado)

                                               


Tu sabes que amas quando nada do que o outro te diga te assusta a ponto de partir. Quando recebes segredos e os guarda na palma das mãos... e beija.
Tu sabes que amas quando conhece a escuridão e sombras alheias e não te assustas, mergulhas sem necessitar clarear. Só coabitar. Quando detalhes parecem relevantes, cuidados naturais, e em essência, só um, só um abraço cura mais que todas as palavras ditas ou por toda poesia já escrita.
Tu sabes que amas quando vê paisagens e pensa no ser amado. Quando vês paisagens no ser amado. Uma flor, um raio de sol diferente, uma folha que voou na face...
Tu sabes que amas quando não condiciona presença. Quando torce e diz "vá lá, vai dar certo, estarei contigo".
Tu sabes que amas quando o outro não se torna assustador, apesar de conhecê-lo mundo e fundo,  e nenhuma ausência de luz pode diminuir o sentido, porque simplesmente faz. Tu sabes que amas quando está difícil de gostar daquele ser, e tu estás ali, para ser aquele que partilha aquela existência, com as dores e delícias inerentes.
Tu sabes que amas, sem explicar. Sem precisar racionalizar. Com mil razões e emoções diferentes. Com gestos e afagos. Constâncias e cotidianos. No tédio e na doidera de existir.
Tu sabes que amas quando o primeiro e o último pensamento  - ou tantos outros do dia- vão para um mesmo lugar, pedir abrigo sentimental...pois o amor é bicho teimoso, voa e volta, senta no alto da nossa cabeça, puxa o pensamento, de forma natural...
Tu sabes que amas quando canções conversam com a emoção e juntam as tuas mãos, de um jeito tão profundo... àquele certo alguém!


#


Esqueci que havia escrito e achei lindo de republicar. Foi de outra vida, mas tão fofo. 
Acessado hoje, relembrei.