"Era uma bonita manhã chuvosa de sábado, quando bateu à porta da frente, belo e sóbrio,com aquela elegância sempre peculiar.
Convidei-lhe a sentar. Servi-lhe chá.
A mim,aquela bela taça de vinho.
Olhou-me de frente, com seus fundos olhos de verdade. E dentro deles vi as muitas de mim que poderiam estar aqui, em meu lugar...
Aquela mocinha que casou com o primeiro amor agora era uma jovem senhora.
Aquela aventureira que fugiu de casa e nunca mais voltou, uma andarilha.
Aquela mulher cosmopolita achou-me tão provinciana!
Eu e meus livros ficamos envergonhados face a simplicidade daquela linda pescadora, ao lado do pai...
Sorvi meu vinho.
Argumentei que também fui e sou feliz, que tive um encontro com a pureza, e que o amor hoje me faz companhia, e que esta jovem é uma mulher madura e muito mais bem resolvida.
Ele, silencioso, apenas sorriu com ironia.
Não suportei sustentar seu olhar, fui até a janela e deixei o vento despentear minhas certezas...
O visitante perguntou-me como iam as coisas, mas, senti em sua voz o desinteresse de quem sabe exatamente como estão. Sabe aquelas perguntas que fazemos a alguém por mera cordialidade? Pois é.
Claro que não respondi, não sou afeita a cordialidades vazias.
Mas senti vontade de jogar-lhe o vinho no rosto, quebrar os quadros pendurados milimetricamente na parede,enfim, fazer algo que o fizesse parar um pouco, deixar-me respirar mais leve. Foi então que recordei dos olhos quentes daquele amor que quase me roubou a alma. Ele percebeu, e disse-me apenas que somos iguais,e por isso gosta tanto de visitar-me.Como se fosse eu seu bicho de laboratório favorito, rodando naquela roda-viva, sempre voltando a um mesmo lugar...
Sorri de sua ousadia. Mandei-lhe embora sem dó.Enquanto ele passa, vazio e só...
Eu me preencho de mim! "
(Texto escrito (ao som e) baseado na Música " Resposta ao tempo" de Nana Caymmi. Vai dizer que ele também não lhe foi visitar dia destes? ;D)